Publicado 14 de Setembro de 2015 - 21h15

Funcionária do IAC segura pasta com catálogo de plantas no Herbário do IAC, em Campinas: departamento deve ser o próximo a deixar a cidade

Camila Moreira/ Especial para a AAN

Funcionária do IAC segura pasta com catálogo de plantas no Herbário do IAC, em Campinas: departamento deve ser o próximo a deixar a cidade

O anúncio do que o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) perdeu seu acervo entomológico com mais de 8,5 mil amostras de insetos e pragas, coletadas ao longo de 80 anos, provocou grande reação entre servidores aposentados do órgão, cientistas de outros centros de pesquisa e leitores do Correio.

O material foi transferido para a Capital, mesma cidade para onde também será levado o Herbário nos próximos dias. A coleção de plantas conta com mais de 56 mil amostras e 11 mil espécies catalogadas. Referência na área de estudos agrícolas no Brasil e um dos ícones da cidade, o IAC teve papel fundamental na cultura de commodities, como o café, e até no combate de pragas e doenças como a dengue.

A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo havia afirmado que a instituição vem enfrentando um processo de desmonte pelo governo do Estado, que passa pela defasagem no quadro de pesquisadores e encerramento de linhas de pesquisas, o que pode trazer consequências sérias para a área da agricultura no Estado. O mesmo cenário foi pintado por ex-pesquisadores do local.

O engenheiro-agrônomo Rubens Lordello se aposentou no IAC em 2003, mas continuou prestando serviço até 2008. Lordello afirmou que os recursos foram diminuindo ao longo dos últimos 15 anos e o que ocorreu com o acervo entomológico pode ocorrer com outros departamentos. Segundo ele, a principal defasagem do IAC é de pessoal.

“Para se ter uma ideia, em 1978 o IAC tinha 3 mil funcionários”, disse Lorldello, que hoje trabalha como advogado. Hoje o IAC tem 158 pesquisadores e um total de 350 servidores.

O engenheiro disse que muitos funcionários que na década de 70 trabalhavam nos campos do IAC foram substituídos por máquinas, mas que ainda assim há um déficit grande de cientistas. O instituto perde profissionais qualificados para a iniciativa privada e para o próprio Estado, que oferece salários melhores em universidades como Unicamp e USP, ou para outras instituições, como a Embrapa.

A defasagem de cerca de 50% do salário do pesquisador do IAC em relação a outros órgãos governamentais, além da falta de funcionários assistentes, se reflete no tempo da pesquisa. Muitas vezes resultados de experimentos que deveriam sair em cinco anos, demoraram mais que o dobro para serem concluídos. “Com funcionários auxiliares, o cientista conseguia fazer 30 experimentos em um ano. Hoje não, ele faz 15 em um ano e 15 no outro”, completou.

O engenheiro de alimentos Alfredo de Almeida Vitali lamentou a perda dos dois acervos e afirmou que o mesmo ocorre em outros departamentos mantidos pelo governo estadual, como o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), também em Campinas, e o Instituto Biológico, na Capital. O ex-pesquisador fez carreira no Ital. “Falta pessoal, falta recurso, falta estrutura. Quando entramos nesses locais achamos tudo lindo, mas são recintos maquiados. Que não fazem mais um terço do que faziam antes.”

Vitali lembrou que o IAC foi responsável pela propagação e pela tecnologia hoje empregada nas culturas do café, da cana e de citros. “Mas somos desprezados pelo governo do Estado. Não há reposição salarial há mais de dez anos”, afirmou.

Leitores do Correio também se manifestaram contra o fechamento. Entre opiniões mais acaloradas, o leitor João Fall lamentou a saída do acervo de Campinas. “Visitei certa vez (ainda no colégio) esse acervo e é simplesmente fantástico! Único no País, como dito na reportagem, isso deveria no mínimo permanecer em Campinas mesmo que não fossem utilizar mais... É triste toda essa história científica ser tratada com essa demonstração de indiferença não só com a ciência e seus pesquisadores, mas com toda população Campineira”, disse.

Outro lado

A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado foi procurada para se posicionar sobre a reação negativa da notícia da transferência do acervo entomológico e do Herbário, mas não respondeu. Na semana passada, o IAC negou o processo de desmonte e informou que a transferência faz parte de uma reorganização da pesquisa e da otimização do espaço dos departamentos estaduais.

Ainda segundo o IAC, atualmente, 158 pesquisadores científicos estão envolvidos em 335 projetos de pesquisa agronômica, nos 12 centros do instituto. Equipes que, segundo eles, são maiores quando se considera alunos de mestrado e doutorado.

A direção afirmou que o IAC está entre os institutos estaduais de pesquisa que mais receberam recursos e não estaria entre os maiores captadores de recursos se não tivesse em plena atuação.

O instituto afirmou ainda que está em processo de reprogramação de pesquisas, com o objetivo de alinhar os projetos com a missão institucional do instituto para fins de definição da programação científica.