Publicado 26 de Agosto de 2015 - 10h15

Com medo, comerciantes não abriram suas lojas na manhã desta quarta (26) no CDHU-Amarais

Alenita Ramirez

Com medo, comerciantes não abriram suas lojas na manhã desta quarta (26) no CDHU-Amarais

Depois da noite de pânico em Campinas, os áudios - de autoria desconhecida com ameaças de ataque se toques de recolher não forem cumpridos - continuam a circular pelas redes sociais, principalmente, pelo aplicativo WhatsApp. 

A onda de boatos chegou a outras cidades da região nesta quarta-feira (26). Moradores de Americana, Hortolândia, Limeira, Santa Bárbara dOeste, Sumaré, Valinhos e Vinhedo também receberam os áudios. Muitos deixaram de sair às ruas com medo de supostos ataques.

Em Campinas, o pânico espalhado entre os moradores da região Sudoeste fez com que a polícia se mobilizasse para aumentar a sensação de segurança. Apesar de a Secretaria de Segurança Pública ter informado que não houve reforço no policiamento, policiais militares confirmaram que a corporação colocou mais homens na rua durante a noite, principalmente na região do Ouro Verde. A Guarda Municipal informou que seu efetivo também ficou “em alerta”.

O conteúdo das gravações é diverso e várias vozes são usadas em diferentes tipos de "recados" à população. Ameaçam comerciantes e escolas que não fecharem suas portas depois das 20h desta quarta-feira (26). Qualquer um pode gravar um áudio como esse, usar o anonimato da internet e espalhar o medo com o apoio das redes sociais. A Polícia Militar e a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo garantem que não existe ameaça real. 

A Secretaria de Segurança informou que não há nenhum elemento que confirme a veracidade do toque de recolher em Campinas e nas cidades da região. Segundo a pasta, as informações se disseminaram primeiro na Capital em redes sociais após a chacina que vitimou 18 pessoas em Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, em 13 de agosto.

O governo do Estado também confirmou que áudios parecidos também circularam em outras regiões de São Paulo em dias anteriores e não se confirmaram. Para a secretaria, os responsáveis pelos boatos de supostos ataques se aproveitaram de um momento de fragilidade por causa da chacina. 

Especialistas em segurança pública e psicologia social ouvidos pelo Correio explicaram que a reação da população com as mensagens falsas é consequência da violência da sociedade, do descredito nas instituições, que desmentiram o boato, e também da falta de instrumentos da maioria das pessoas para analisar a procedência de informações divulgadas via internet.

Nas mensagens, homens que se diziam ligados a uma facção criminosa afirmavam que os moradores não deveriam ficar nas ruas a partir das 20h ou 22h em diversos bairros, principalmente em comunidades do Ouro Verde. Por conta do medo, as pessoas deixaram de sair às ruas e, com isso, até os registros de ocorrências nas delegacias caíram durante a noite e a madrugada.

A Delegacia da Segunda Seccional, que costuma registrar uma média de 10 boletins por noite, fez apenas quatro.

As ligações em busca de informações congestionaram as linhas do 9º Distrito Policial (DP), no Jardim Aeroporto. Das 18h às 21h20, ao menos 70 chamadas foram recebidas pelos policiais. As pessoas queriam saber se o toque de recolher era real. O Centro Operacional da Polícia Militar (Copom) – 190 – também recebeu inúmeras chamadas de moradores pedindo informações. “Quem ligou disse que a orientação na rua era para ligar nas delegacias. E eram retóricas. Elas mesmas respondiam que era boato”, comentou um policial civil.

Policiais receberam ainda diversos telefonemas de parentes e conhecidos. “Apesar de ser boato, as informações mexeram com o psicológico das pessoas”, disse um policial militar. Quarta pela manhã, a população voltou a “respirar” aliviada, mas ainda estavam inseguras e com medo. Os estabelecimentos da região do Campo Grande, São José, Ouro Verde e San Martin, abriram cedo, mas os comerciantes e funcionários admitiram que a sensação de insegurança ainda prevalecia.

Alguns lojistas afirmaram, que mesmo sabendo se tratar de boataria, prefeririam não arriscar e disseram fechariam as portas mais cedo nesta semana. "Acho que é boataria, mas não dá para arriscar. Estamos trabalhando, mas inseguros", disse o comerciante da CDHU San Martin, Ezequiel Garcia. Sua loja fecha às 22h, mas por conta do boato, acabou fechando às 20h na quarta-feira.

No San Martin, o áudio divulgado diz que o ataque naquela região será nesta quinta (27). Pelo aviso, as pessoas não podem sair após as 22h. Os comerciantes lembraram que, em 2013, houve uma boataria semelhante na região do Matão. Na época, todo comércio fechou em plena luz do dia, por volta das 14h. Eles reabriram no dia seguinte depois que a polícia falou na imprensa que era boataria.

Na Praça da Concórdia, na região Campo Grande, o comércio fechou às 18h, horário de rotina e nesta quarta abriu normalmente. No entanto, funcionários estavam com medo.

A Associação Comercial e Industrial de Americana soltou uma nota oficial comunicando aos lojistas que os áudios eram falsos e o toque de recolher era boato e que os estabelecimentos “não têm motivo para fechar”.

Descrença

A professora de psicologia social da PUC São Paulo, Maria da Graça Gonçalves, afirmou que o caso dos áudios pelo WhatsApp tem diversos elementos para ter viralizado e amedrontado a população. Um deles, segundo ela, é a falta de referências legítimas para a sociedade recorrerem em momentos de tensão e medo. Sem um sentido de coletividade e descrente das instituições, a primeira reação da sociedade é da autoproteção.

Maria da Graça afirmou que o comportamento em Campinas está de acordo com o pensamento que prevalece, de que cada um precisa cuidar de si mesmo, individualmente. Sendo assim, é natural que as pessoas não queiram sair às ruas. “E o medo é um mito propagado na sociedade. Temos a referência de que o convívio social é algo perigoso, Imaginamos o outro como inimigo e não há um espaço social fortalecido que as pessoas possam compartilhar”.

O segundo elemento, segundo a psicóloga, é o pouco treino que a população tem para lidar com a informação e fazer a análise do que é propagado, seja nas redes sociais ou nas mídias convencionais. “A gente lida com todas as informações da mesma forma, sem avaliar a veracidade, legitimidade e procedência. Muitas vezes a informação atende a interesses escusos”.

O jurista, fundador do Instituto Avante Brasil e especialista em segurança, Luiz Flávio Gomes, explicou que o medo tem duas dimensões: o do perigo real e o medo subjetivo, criado na cabeça das pessoas. “Sob essa ótica, de uma segurança e de uma polícia desestruturada, o medo subjetivo prevalece”. Ainda segundo Gomes, existem duas formas de lidar com a violência: melhorando os índices sociais, como fez a Escandinávia, ou reforçando de forma pesada o policiamento e a inteligência, como fez os Estados Unidos. “Não fazemos nem uma coisa e nem outra. Por isso estamos sujeitos a esses episódios”.

Nota

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública informou novamente que “não passam de boatos as informações sobre toque de recolher”. A SSP foi questionada se investiga a origem das mensagens, mas não respondeu. Ainda de acordo com a SSP, as redes sociais e aplicativos facilitam a propagação, mas não há nada que confirme a veracidade das mensagens. A nota diz que não houve reforço de policiamento.

 

Boataria

Um áudio de autoria desconhecida espalhou pânico entre moradores de diversos bairros de Campinas durante toda a terça-feira (25). Enviado via aplicativo WhatsApp, a gravação alerta para uma ação policial em bairros da cidade a partir das 20h. A motivação seria, segundo o áudio, uma busca por armas desaparecidas da polícia.

O toque de recolher para os bairros DIC I, Adhemar de Barros, Jardim São Pedro, Parque das Universidades, Jardim Planalto e Parque das Indústrias gerou muitos alertas entre os leitores do Correio Popular que entraram em contato com o jornal para saber sobre a veracidade do conteúdo.