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Vermelho x verde-amarelo

07/05/2015 - 15h57 - Atualizado em 07/07/2015 - 16h02 | Gaudêncio Torquato
faleconosco@rac.com.br

No espectro partidário, a cor vermelha é associada ao PT e aos satélites que o circundam: CUT, MST, MTS etc. Com um destaque: a estrela vermelha de cinco pontas é o carro chefe da estética petista. Maior símbolo do comunismo, seu significado abriga a representação dos dedos do trabalhador e, ainda, os cinco continentes do mundo que “poderiam” ser avermelhados.
Marx e Engels usavam a estrela vermelha como símbolo do comunismo, enquanto a então União Soviética a adotou, ao lado da foice e do martelo, como representação do partido comunista.
Fundado em 1980, o PT repudiou, no primeiro momento, a social-democracia e sua cor, considerando-a inepta para vencer o “capitalismo imperialista”. Lula esbanjava carisma e podia se dar ao luxo de dizer qualquer coisa, mesmo maltratando a língua portuguesa. Ganhava manchetes e açodava adversários. O Partido dos Trabalhadores passou bom tempo, mesmo após a queda do Muro de Berlim e o desmoronamento do edifício comunista, cultivando a velha utopia, até aceitar, não sem resistências in­ternas, a realidade imposta por novos paradigmas.
O mundo deu uma guinada ideológica, integrando escopos do reformismo democrático, do realismo econômico e dos avanços do capitalismo. Sob esse pano de fundo, o PT produziu, em junho de 2002, a “Carta ao Povo Bra­sileiro”, peça-chave para a vitória de Lula, pavimentando, assim, sua entrada no território social-democrata.
O documento foi decisivo no processo de descarte de dogmas que não resistiram aos ventos da modernidade. A revolução marxista permanece viva apenas no campo da literatura. O socialismo utópico evaporou-se nos ares da abstração. As ideologias cederam lugar aos ismos da atualidade: pragmatismo, capitalismo (mesmo sob um Estado controlador), liberalismo social, democracia direta.
Os modelos alternativos, de economias assentadas na solidariedade, deram lugar a programas reformistas, voltados para atender a demandas pontuais e urgentes. As autonomias nacionais passam a se impregnar de ares globaliza­dos. O crescimento desordenado e a qualquer preço é, hoje, balizado por metas de inflação. Os programas de privatização, tão combatidos pelo PT, hoje integram sua pauta de prioridades.
O na­cionalismo, bandeira recorrente na América Latina, abriu espaço para ingresso de capitais internacionais. Gastos a fundo perdido são, agora, regrados por normas de responsabilidade fiscal.
Sob essa moldura, emerge o paradoxo: o PT, erguido sob a bandeira vermelha e ostentando a estrela de cinco pontas- comercializada em suas lojinhas como broches e abotoaduras -, continua a pregar a luta de classes e a fomentar a divisão do Brasil.
Os espaços são por ele marcados: “Nós e Eles”. Paramentado com as vestes da modernidade e circulando para cima e para baixo em avançados meios de transportes (vale lembrar José Mujica, ex-presidente do Uruguai dirigindo um velho fusca azul em seu sítio nos arredores de Montevidéu), Lula continua a disparar sua metralhadora verbal contra as elites, ameaçando colocar o “exército de Stédile” nas ruas para defender o “socialismo do PT”. Qual é a estratégia de Luiz Inácio? Dar estocadas, na crença de que a melhor defesa é o ataque.
Nesse ponto, vale fazer a indagação das ruas? Qual é a do Lula? Exibe disposição e cuidado com a saúde, mostrando os músculos numa academia de esportes; dá dicas para a presidente Dilma; mantém-se afastado da polêmica em torno do maior escândalo ocorrido no país, cujo epicentro envolve o partido da estrela vermelha; faz reuniões com as cúpulas partidárias e, amiúde, jorra os pronomes: “nós e eles”. Urge reconhecer os benefícios que o ex-metalúrgico, na condição de presidente da República, fez ao país, com o amplo programa de redistribuição de renda, cujo resultado foi a inserção de 30 milhões de brasileiros na classe C.
Mas o colchão social do lulismo não pode encobrir a maldade que o ex-presidente perpetra ao continuar instigando a animosidade social.
Até parece que ele se esforça para forjar um appartheid. O ódio destilado contra os petistas e os impropérios que estes expressam contra adversários têm muito a ver com o dicionário de Lula.
A estética urbana se veste da cor verde-amarelo para enfrentar os grupos que ostentam a cor vermelha. A querela cromática se estende por todas as regiões e as inevitáveis associações agitam os sistemas cognitivos. De um lado, uma cor conotando “a revolução socialista”, às vezes sob o império da desordem e da devastação de patrimônios; de outro lado, outra cor apontando para o civismo pátrio.
O instinto de Lula, é o que se infere, já não é tão apurado. Será que ele não enxerga o crescimento da onda contra o PT e seu cromatismo? Alimentar a polaridade entre petistas e os outros é apressar o declínio de um partido que foi criado para resgatar a esperança. Lula, lá?
Difícil imaginar Lula voltando ao Planalto Central. Lula, cá, no seu sítio Los Fubangos, comendo coelho, é algo mais provável. "Não cruzarás o mesmo rio duas vezes, porque outras são as águas que correm; nem o rio é o mesmo rio, nem o homem é o mesmo homem”, diz Heráclito de Éfeso.