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Breve aula sobre credibilidade

09/04/2015 - 16h05 - Atualizado em 09/09/2015 - 16h11 | Gaudêncio Torquato
faleconosco@rac.com.br

A classe política está apavorada. Recebe tiros de muitos lados. Do Lava Jato da Petrobras e das ruas. Os estarrecedores índices de desaprovação dos atores políticos os deixam confinados na UTI do Parlamento. Como sair dali? Como resgatar parcela da boa imagem? Difícil tarefa no curto prazo.
Não resta outra coisa aos representantes do povo e dos Estados (deputados e senadores), neste momento de rebuliço e mobilização social, que uma imersão profunda no terreno ético e uma aprendizagem rápida sobre o estado social do país.
 
A análise sobre as razões que os jogam no fundo do poço da descrença poderá se transformar na chave para reencontrar o tempo perdido. Eis um breve roteiro para uma sobre credibilidade.
 
 
Mais ação, menos discurso – O verbo de palanque está saturado. Entra por um ouvido, sai noutro. Promessas não mais comovem. A sociedade, como um todo, quer ver ação. Decisão. Avanços. Reformas.
 
Identidade – Nesse momento, os espaços de vazio se expandem. Hora de ocupá-los com uma forte identidade. Discurso com personalidade. Hora da verdade. A imagem do político não pode ser diferente de seu conceito. Banhar o perfil com as linhas da lealdade, coerência, honestidade e senso do dever. Não querer passar imagem acima da identidade. Querer ser o que não é.
 
Representação - Representar o povo significa escolher as melhores alternativas para o bem estar coletivo. Um político sério se preocupa com rumos permanentes e medidas condizentes com as possibilidades das administrações (federal, estadual e municipal). Povo distingue demagogia de sinceridade.
 
Sabedoria - Sapiência não significa vivacidade. Sabedoria é mescla de aprendizagem, compromisso, equilíbrio, administração de conflitos, busca de conhecimentos, capacidade de convivência e racionalidade. A vivacidade é a máscara do fisiologismo.
 
O cheiro do povo - O cheiro do povo invade as ruas, os ônibus, os escritórios, as fábricas, até as pequenas cidades. Importa ir ao encontro do povo. Democracia participativa dá as caras. Poder centrípeto emerge das margens. O povo deixa o silêncio e abre a locução. As tarefas de Brasília não impedem que o representante respire os ares das vielas escuras dos centros e fundões do país.
 
Proximidade – As pessoas querem sentir os políticos mais próximos. Capazes de falar uma linguagem que expresse suas demandas, angústias e expectativas; para ganhar credibilidade, o representante deve se mostrar, aparecer, conversar olho no olho com suas bases.
 
Combate à corrupção - A corrupção está no alvo dos órgãos de controle. Que decidiram ir fundo para descobrir o rastro do dinheiro desviado. Denúncias sobre negociatas e trocas de favores ilícitos vão continuar a ser o prato da mídia.
 
Propostas concretas – O copo está transbordando. Não dá mais para disfarçar. Os modelos da velha política e da economia se esgotam. Estão saturados. O povo quer ver propostas concretas, viáveis, simples. A população dispõe de entidades que a representam em diversos foros, algumas delas com atuação política tão densa quanto o Congresso. Resta ao político atentar para os novos polos de poder que se multiplicam no arquipélago político.
 
Simplicidade e modéstia - Um homem público não precisa se vestir com o manto divino. A honraria que cargos conferem é passageira. Mandatos pertencem ao eleitor. Ser simples não é balançar crianças no colo, comer cachorro quente na esquina ou gesticular para famílias nas calçadas. A simplicidade é o ato de pensar, dizer e agir com naturalidade. Sem artimanhas e maquiagens.
 
Celeridade – A sociedade está na frente da política. Anda mais rápida. Está cansada de patinação política, o fato de a velha política continuar a puxar o país para o passado.
 
Autonomia – O cidadão age com autonomia. Torna-se mais consciente, crítico e exigente. Banha-se nas águas da Cidadania. Significa que conserva olhar mais apurado para os atores políticos.
 
Estado e Nação - O político pode até lutar por um Estado diferente da Nação que o povo quer. A Nação é a Pátria, que acolhe, que orgulha o povo; é o território onde os cidadãos se sentem bem e gostam de viver e constituir um lar. O Estado é a entidade técnico-jurídico-institucional, comprimida por interesses e dividida por conflitos, que pessoas de diversas classes estão sempre a criticar. Aproximar o Estado da Nação constitui a missão basilar da política. Compromisso cívico inegociável. O Brasil de hoje exibe esses contornos.