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A hora é de corte

05/03/2015 - 15h56 - Atualizado em 05/05/2015 - 16h01 |

Zaratustra, o protagonista que Nietzsche criou para dar unidade moral ao cosmo, vivia angustiado à procura de novos caminhos, novas falas, novos desafios. Em seu solilóquio, recitava: “Não quer mais, o meu espírito, caminhar com solas gastas.” Decifrador de enigmas, arrumou a receita para as grandes aflições: “Juntar e compor em unidade o que é fragmento, redimir os passados e transformar o que foi naquilo que poderá vir a ser.”

A imagem do controvertido filósofo alemão, na fábula em que apresenta o famoso conceito de eterno retorno, cai como uma luva no atual ciclo de nossa democracia representativa, hoje assolada por uma avalanche de críticas e denúncias. A analogia aponta para a inexorável alternativa que resta à base parlamentar: compor novos arranjos para a orquestra institucional, construir uma ponte para o futuro, reencontrar-se com as massas e resgatar a esperança perdida. Deputados e senadores estão também no fundo do poço da descrença.
 
O Brasil expande a imagem de gigantesca delegacia de polícia. Todos os dias, chovem detalhes sobre a corrupção na Petrobras. A esfera política enerva-se com a possibilidade de ver muitos de seus atores envolvidos no propinoduto da petroleira. A interrogação está no ar: onde tudo isso vai desaguar? Setores organizados se mobilizam para mobilizar seus “exércitos”. O ex-presidente Lula veste a roupa de guerrilheiro, indicando que as tropas do comandante João Pedro Stédile acorrerão às ruas para defender a empresa que já foi símbolo do orgulho nacional. O ambiente é tenso. O que pode ser feito para suavizar a situação?
 
A bola está no campo do Congresso. Os presidentes da Câmara e do Senado prometem cortar as gorduras do Parlamento. Vamos esperar. A descrença na instituição política bate no fundo do poço e a sociedade quer ver exemplos partindo de cima. A tarefa de passar o Brasil a limpo, convenhamos, requer arrojo para enfrentar dissabores, a partir das pressões endógenas. Só alcançará resultados caso os atores institucionais se comprometam a extirpar os tumores da administração pública. Promessa que fica no discurso.
 
A praga dos privilégios continua a se espalhar pela res publica. As estruturas dos Poderes geram apreciável PIB negativo, comandado pelo compadrio político. O Custo Brasil eleva-se às alturas. Apadrinhados se aboletam no cobertor público, a partir dos pequenos municípios. O custo da ineficiência invade as malhas de Executivos, Câmaras de Vereadores e Assembleias Legislativas. Forma-se uma teia de acomodação e inércia. A gestão chega próxima a zero em matéria de resultados.
 
O Estado é visto pela população como um ente paquidérmico, sonolento e caro. Junte-se à pasmaceira o colchão do distributivismo, que expande o regime de bolsas na tendência de perpetuar a miséria. O que sobra de imagem? O retrato de uma árvore que não gera frutos. Ou gera frutos impróprios ao consumo.
 
Cabe ao Parlamento, nesse momento, uma chamada geral à responsabilidade. E uma palavra de ordem: transparência total. De que adianta tampar buracos nas cúpulas côncava e convexa do Congresso Nacional, mas deixar abertas as crateras de outros palcos?
 
Urge acabar com as falcatruas das licitações de cartas marcadas. Que o petrolão sirva de exemplo aos que prestam serviços ao Estado em todas as instâncias. Chegou a hora de focar a lupa na engenharia de artifícios, evitando que malandros e oportunistas entrem sorrateiramente nos cofres do Tesouro. Cuidado com as empresas-laranja e a abertura de contas em paraísos fiscais. Urge rever contratos públicos em andamento.
 
Ao Ministério Público, cabe a missão de defender a sociedade e investigar os desmandos de pessoas físicas e jurídicas. Que cumpram sua missão sem estardalhaço. Precisamos de um Judiciário recatado, com juízes menos falantes e comprometidos com o escopo da justiça. O Estado-Espetáculo tem aberto suas comportas nos espaços nacionais, fabricando espelhos de narciso para a auto-contemplação de autoridades que costumam trocar a liturgia do poder pelo desfile na avenida.
 
Todo esforço deve ser empreendido para equilibrar freios e contrapesos entre os Três Poderes, preservando-se a arquitetura traçada pelo Barão de Montesquieu. Não basta dizer que nossas instituições estão sólidas. Elas precisam, isso sim, resgatar a crença social. Só há um caminho: fazer as reformas. A reforma política é necessidade urgente e premente. Se a gestão pública não passar por cirurgia profunda, a esfera privada (que os gregos chamam de oikos), continuará a invadir a esfera pública (koinon). A fome de uns poucos não pode devorar o cardápio que pertence a todos.






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