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A viabilidade do segundo mandato

13/02/2015 - 05h00 - Atualizado em 12/12/2015 - 16h09 | Gaudêncio Torquato
faleconosco@rac.com.br

Um bom governante, como um bom estrategista, não pode empreender qualquer movimento ou plano que deteriore seu vetor de peso. A lição é do professor Carlos Matus, que mostra, em seu livro Estratégias Políticas, como os gestores governamentais devem agir para viabilizar suas administrações e fortalecer seu capital político.
 
O sociólogo aponta quatro variáveis que balizam o sucesso ou o fracasso de um governante: a viabilidade política, a viabilidade econômica, a viabilidade cognitiva e a viabilidade organizativa. Tentemos puxar esse conjunto de possibilidades para uma avaliação, mesmo passageira, da presidente Dilma Rousseff, na decolagem de seu segundo mandato.
 
De início, vale registrar que a mandatária terá pela frente quase quatro anos no comando do governo, tendo condições, portanto, de resgatar prestígio e credibilidade, à medida que o país volte a crescer e, por consequência, o Produto Bruto da Felicidade Nacional (PNBF) expanda sua taxa junto aos segmentos da pirâmide social. Mas a pergunta está no ar: quando isso vai ocorrer?
 
A hipótese mais corriqueira é a de que o país entrará em prolongado ciclo de baixo crescimento, com nuvens sombrias pairando sobre os horizontes da economia e da política, com reflexos impactando o ânimo social. Sob essa moldura, podemos fazer o exercício analítico usando as variáveis do ex-ministro chileno do governo Allende.
 
Na frente política, o segundo mandato da presidente Dilma começa com um revés, a eleição do deputado Eduardo Cunha, transformado por inabilidade da articulação política do governo, no ícone das oposições, quando seu partido, o PMDB, faz parte da base governista e o vice-presidente da República, Michel Temer, é o comandante
do partido.
 
O mais provável é que Michel, por sua habilidade, consiga aparar arestas, mas o novo presidente da Câmara não perderá a oportunidade para fustigar os costados do governo. O Parlamento deverá abrir mais um inferno astral, nas próximas semanas, quando cerca de 30 a 40 nomes de políticos aparecerão na lista de propinas da Petrobras.
 
Infere-se, portanto, que o corpo parlamentar das duas Casas congressuais estará mergulhado na lama suja que jorrará da ex-empresa orgulho do Brasil. Some-se isso às demandas reprimidas da base governista e ao grito estridente dos oposicionistas para se chegar à hipótese de que a relação entre Executivo e Legislativo será cheia de percalços. Pelo menos, no curto prazo.
 
Se o clima ambiental piorar, a partir do bolso mais apertado das classes médias e cesta básica menor nas margens, é razoável aduzir que a presidente Dilma prolongará seu calvário. A nomeação de Aldemar Bendini para dirigir a Petrobras não estanca a sangria na empresa. Sua imagem não é boa.
 
Portanto, a viabilidade política da presidente tende a entrar em curto circuito, ainda mais quando o PT, ente que está no centro do poder há 12 anos, enfrenta a maior crise de sua história. Comemora 35 anos sob pedradas e com o cofrinho cheio: US$ 200 milhões de dólares de propina em 10 anos, segundo o delator Pedro Barusco.
 
Desce o despenhadeiro, rachado em bandas e seu líder e guru, Lula, amarga dias de Sibéria, afastado pelo novo núcleo duro que dá plantão no Palácio do Planalto, Aloizio Mercadante à frente.
 
Na frente econômica, Joaquim Levy suga verbas de todos os lados, na crença de que a ortodoxia – leia-se cortar despesas e aumentar receitas – será a salvação da Pátria. Pode ser. Mas sua mão de tesoura apertará bolsos e estômagos das margens sociais, inclusive os grupamentos já assistidos pelo Bolsa Família, além do contingente que ascendeu à classe C. A insatisfação social funcionará como rolo compressor junto à área política.
 
Os gogós das ruas gritarão contra o sufoco dos bolsos, fazendo emergir a hipótese: antes de ser salva pelo “Deus economicus”, a presidente passará boa temporada no fundo do poço da imagem.
 
A viabilidade organizativa deriva das anteriores. Como poderia o governo ter um bom desempenho em um ano de vacas magras, de cortes e ajustes? Difícil. Fazer mais com menos é difícil, quando se sabe que a deterioração de serviços públicos vem de longe. Não se pode esperar por melhoria quando as estruturas estão de pires na mão. A organicidade governativa está à deriva, esperando a tormenta passar.
 
A gestão passa por congestão. Chegamos à viabilidade cognitiva, que é pequena. A imagem do governo é negativa. Corroída por escândalos. Com dificuldade de suportar o tiroteio do Legislativo. O governo procura uma bússola e uma tábua de salvação. A avaliação sobre o governo cai vertiginosamente.
 
Não há passagem do mar vermelho à vista. E ninguém com jeito de Moisés para levar o povo à terra prometida. Lula? Deixou de ser profeta, está calado e com receio.






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