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JOSÉ DE NADAI

Já não escravos, mas irmãos

06/01/2015 - 05h00 - Atualizado em 17/17/2015 - 17h07 |

Cada ano, por ocasião do Dia Mundial da Paz, o Papa costuma enviar uma mensagem à Igreja Católica e aos homens e mulheres de boa vontade que também buscam a paz. Não mais escravos, mas irmãos: é o tema escolhido pelo Papa Francisco para este ano.
Sim, somos irmãos: porque criados à imagem e semelhança de Deus e animados pelo alento do Espírito. Sim, somos irmãos pela graça e pela filiação adotiva em Jesus Cristo. “E porque somos filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho que clama: Abbá- ó Pai. Assim já não és mais escravo, mas filho...” (Gl 4,7)
Assim sendo, os homens e mulheres de todos os tempos e lugares têm em comum: a filiação adotiva e o vínculo da fraternidade em Cristo. Já não sois escravos, mas irmãos. Já não vos chamo servos, mas amigos... (Jo 15,15)
Lamentavelmente, contudo, desde tempos imemoriais, as sociedades conhecem o triste fenômeno da sujeição do homem pelo homem: a instituição da escravidão que, infelizmente, também a sociedade brasileira sustentou por séculos e que ainda hoje reaparece aqui e ali, sob diversas formas no campo e na cidade.
Desde seu lugar privilegiado, a cúpula de São Pedro e com seu olhar de Pastor voltado para as periferias do mundo o Papa Francisco pensa: Nos trabalhadores e trabalhadoras, inclusive menores de idade submetidos ao trabalho escravo; Nos migrantes que passam por todo tipo de insegurança, medo fome e exploração.
Nesses dias tomamos conhecimento que duas embarcações foram abandonadas, em águas da costa italiana com centenas de pessoas a bordo, inclusive crianças e mulheres grávidas, na sua maioria de nacionalidade síria, em fuga dos horrores da guerra civil.
O papa pensa ainda nas mulheres, incluindo meninas, submetidas à exploração sexual... nas crianças, jovens e adultos, que são objeto de tráfico para remoção de órgãos, ou recrutados como soldados ou para o tráfico de drogas... nas pessoas que são vítimas do terrorismo e de sequestros, como mercadoria de troca...
Na raiz da escravatura está uma violação da dignidade e da grandeza da pessoa humana e também a perda total do senso de igualdade entre todos os seres humanos e da fraternidade universal: já não sois escravos, mas irmãos. Enfim, a rejeição da humanidade da outra pessoa!
A realidade dolorosa da escravidão passa pela situação de pobreza das pessoas e de povos que são lançados na marginalidade e exclusão. Bem como pela falta de condições de educação e de trabalho. O Papa Francisco aponta ainda como causa da escravatura a corrupção que reina entre grupos do poder econômico, policial e dos Estados.
Triste, acrescenta o Papa, é constatar que esses crimes acontecem em meio à indiferença geral. O Papa vê, por outro lado, com alegria e esperança, o compromisso de instituições religiosas e civis empenhadas na luta para resgatar a dignidade das pessoas e grupos sociais e na tentativa de globalizar a fraternidade e banir a indiferença.
Francisco faz um apelo veemente a todos os homens e mulheres de boa vontade para que não se tornem cúmplices desta crueldade, não afastem o olhar do sofrimento de tantos irmãos e irmãs em humanidade, mas tenham a coragem de tocar a carne sofredora de Cristo, “nos irmãos mais pequeninos” (Mt 25, 40.45).
Lembremo-nos que a última, definitiva e decisiva pergunta de Deus a cada um de nós será: “Que fizeste a teu irmão?” (Gn 4,9-10). Que a alegria, a esperança e a paz sejam nossas companheiras no novo Ano que se inicia.
Votos e preces de Paz e Bem para os leitores, funcionários, jornalistas e diretores do Correio Popular, ao longo de 2015.
Em tempo, a “Rede um grito pela vida – Amazonas/Roraima, desenvolve incansável trabalho de enfrentamento ao tráfico de pessoas que requer coragem, ousadia, paciência e perseverança e muito apoio externo para combater toda forma de escravidão nessa região.” (Izalene Tiene, desde sua missão em Tabatinga, Alto Solimões.)