Publicado 02 de Novembro de 2014 - 5h00

Por Gustavo Abdel

Uso, Aquífero Guarani, gera, insegurança, crise, abastecimento, água, racionamento

César Rodrigues/ AAN

Uso, Aquífero Guarani, gera, insegurança, crise, abastecimento, água, racionamento

Geólogos da Universidade de São Paulo (USP) elaboraram um projeto que propõe captar mil litros por segundo (m3/s) do Sistema Aquífero Guarani (SAG) em Itirapina, a cerca de 120 km de Campinas, para abastecer até 300 mil pessoas que são atendidas atualmente pelo Sistema Cantareira na região de Piracicaba. O estudo foi encomendado ao Centro de Pesquisa de Águas Subterrâneas (Cepa) da Universidade de São Paulo (USP) pelo governo do Estado. A proposta serviria para reduzir o estresse sobre o Cantareira, de onde a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) já capta água da segunda cota do volume morto.

A primeira parte do estudo, que identifica a área produtora e avalia o tempo e o custo da extração da água, está terminada, informou o Ricardo Hirata, professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo e vice-diretor do Centro de Pesquisa de Águas Subterrâneas (Cepa). “Os resultados são bastante animadores. O SAG tem capacidade de fornecer grandes quantidades de água, através de bateria de poços em algumas regiões do Estado”, adiantou Hirata.

 

24 poços

 

A proposta é perfurar 24 poços na região rural de Itirapina a uma distância de 500 metros um do outro, com profundidades de 150 a 300 metros. Segundos os cálculos dos especialistas, cada poço poderia bombear até 150 mil litros por hora até uma grande caixa d’água na superfície. As águas dos poços seriam transportadas por meio de uma adutora até uma estação de tratamento na região de Piracicaba, que fica a cerca de 55 km do campo de poços.

 

Esse volume seria suficiente para abastecer toda a população de Americana e Nova Odessa, por exemplo. “O que falamos sobre distribuição por gravidade é que os poços estarão em cotas do terreno mais altas que os centros consumidores; Itirapina está em média a 770 metros sobre o nível do mar, e as cidades alvo entre 700 a 650 metros. Esse desnível reduziria o bombeamento da água nas adutoras”, explicou o coordenador do projeto.

 

Tempo e custo

 

O tempo de perfuração de uma bateria dessa é de cinco meses a um custo de R$ 41 milhões, incluindo a perfuração e os sistemas de bombas. Os municípios que receberão a água ainda não estão definidos, segundo Hirata. A ideia é que a água produzida sirva para reduzir a demanda que a bacia dos rios PCJ (Piracicaba, Capivari e Jundiaí) tem nas águas que alimentam o Sistema Cantareira e também de melhorar a oferta dos municípios do próprio PCJ, que estão sendo afetados pela seca.

 

Nessa etapa foram feitos trabalhos utilizando-se de dados já existentes, como o cadastro de poços do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em um recente projeto que abrangeu toda a área de afloramento do SAG no Estado de São Paulo; do Departamento de Água e Energia Elétrica do Estado (Daee), órgão gestor do governo; e do Serviço Geológico do Brasil.

 

Boa qualidade

 

A água extraída do SAG é potável e de excelente qualidade, apontaram os estudos. Assim, ela poderá ser diretamente distribuída para o consumo humano (exceto pela adição de cloro e flúor). Ela não será lançada nos rios.

“O ponto que estamos trabalhando agora são os outros custos e o tempo necessário para implantar a rede de reunião da água e as adutoras para os centros produtivos. Esse é o ponto mais custoso do projeto e envolve não somente avaliar esse projeto, mas também outras opções de fornecimento de água para a região, através de fontes superficiais”, relatou Hirata.

 

Alternativa

 

Para saber se a água do aquífero poderá ser uma alternativa interessante e competitiva economicamente para abastecer cidades da Região Metropolitana de Campinas (RMC), o professor da USP disse que será possível avaliar somente quando o estudo estiver completo.

 

Em 2004, um estudo feito pela Sabesp para retirar até 5 mil litros por segundo do Aquífero Guarani para atender a região de Campinas, que também é abastecida pelo Cantareira, previa um investimento de até R$ 745 milhões. “Esse estudo da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo) foi basicamente hidrogeológico, mostrando o potencial do SAG para grandes vazões, assunto que até então nunca tinha sido explorado”, destacou Hirata.

 

De acordo com o levantamento feito na época, seria necessário construir 270 poços para atingir a oferta de água pretendida, cinco vezes maior do que a prevista no estudo da USP.

Uso consciente

 

O professor destaca para a necessidade de um uso integrado entre águas subterrâneas e superficiais. “Um sistema integrado poderia fazer uso da água superficial, durante o período de chuvas, quando há abundância de água nos rios e os reservatórios estão cheios. Já na estiagem, a cidade, o cultivo agrícola ou o empreendimento, poderiam usar a água subterrânea.

 

Durante o próximo período de chuva, inclusive, o excesso de água superficial tratada poderia ser injetado no aquífero, repondo as perdas pelo excesso de extração da última estiagem.”

 

Segundo o professor, essa é a fórmula mais simples, mas os empreendimentos poderiam adicionalmente utilizar as águas de baixa qualidade, extraída de aquíferos rasos, e dar usos menos nobres, como lavagem de carro em postos de gasolina, lavagem de pátios etc.

 

Reação

 

Itirapina tem 100% da sua captação subterrânea. São sete poços tubulares profundos (PTPs) que captam água do aquífero guarani. O município está localizado na região central do Estado e é um dos locais onde o manancial apresenta-se como uma das partes mais rasas de São Paulo. Dos sete poços da cidade, apenas dois são suficientes para abastecer a população, estimada em 16 mil habitantes — soma-se mais 3 mil detentos distribuídos em duas penitenciárias —, que se concentram principalmente na área urbana. 

 

Entretanto, Itirapina até o momento não foi informada sobre a possibilidade, mesmo que futura, de evasão da água do aquífero por meio de um “campo” de poços de até 300 metros de profundidade. A notícia preocupa os especialistas da região, pois, em pouco mais de um ano, a cidade deverá receber uma multinacional montadora de veículos que está sendo construída na Rodovia Engenheiro Paulo Nilo Romano (SP-225), e com previsão de gerar até 3 mil empregos. A projeção é que nos próximos 10 anos Itirapina esteja com mais 6 mil novos habitantes.

 

Novos poços

 

De acordo com o chefe da Divisão de Água e Esgoto (DAE) do município, o engenheiro Edvan Ferreira de Lacerda, com a instalação da multinacional está sendo previsto a construção de mais 3 mil moradias, e consequentemente a perfuração de 10 a 13 novos poços para dar conta de abastecer os loteamentos que estão se formando.

 

Sobre a perfuração de mais 24 poços, conforme prevê o estudo, Lacerda aponta: “Até o momento não recebemos qualquer notificação sobre o estudo ou a visita de técnicos. É preciso fazer um estudo minucioso para não prejudicar a população dessa área. Estamos em uma área de recarga do aquífero. Senão o que adianta levar água para quem está precisando e deixar outros com o problema da falta, que às vezes pode ser irreparável?.”, questionou.

 

População

 

O professor e coordenador do projeto, Ricardo Hirata, disse que não haverá impactos aos poços de abastecimento da cidade. “O estudo avaliou que a área alvo está longe do centro urbano de Itirapina, reduzindo esses riscos.”

O impacto da notícia de que a água de Itirapina poderá ser transportada para outros locais causa espanto e preocupação nos moradores.

 

O aposentado Irajá Ferraz de Campos, de 74 anos, vive há 70 no município e não se recorda de algum dia ter falta d’água na cidade. “A nossa água é boa, e temos muita. Não acho que deveria perfurar mais poços para tirar água daqui”, ressaltou.

 

Já a comerciante Lourdes Jesus Santos Oliveira, de 58 anos, se recorda de dois dias que houve falta de água em decorrência de um problema na captação da cidade. “Mas desde então nunca mais faltou água. A gente acompanha toda a situação que ocorre no Estado e aqui temos uma boa reserva. Também não acho justo levar água daqui. É preciso que encontrem outra maneira de captar essa água”, apontou Lourdes.

 

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Represas

 

Apesar de a cidade ser abastecida em sua totalidade pelo aquífero, sem qualquer água superficial, caso haja qualquer desabastecimento duas alternativas estão nos planos do município: a Represa da Fazendinha (ou Represinha) e a Represa do Broa — que possui 6,8 km2 de espelho d’água.

 

Essa última é alimentada pelo Rio do Lobo, e serve com reservatório da Usina Hidrelétrica do Lobo. A represa também é um dos atrativos naturais da região, e recebe milhares de turistas nos finais de semana que vão em busca lazer. 

 

O que é o aquífero

 

O aquífero Guarani é a maior reserva subterrânea de água doce do mundo. A maior parte — 70%, o equivalente a 840 mil km² da área ocupada pelo aquífero, que tem 1,2 milhão de km² — fica no subsolo do centro-sudoeste do Brasil. O restante se distribui entre a Argentina, Uruguai e Paraguai, nas bacias do Rio Paraná e do Chaco-Paraná. A população atual do domínio de ocorrência do aquífero é estimada em 15 milhões de habitantes.

 

Nomeado em homenagem à tribo Guarani, possui um volume de aproximadamente 55 mil km³ e profundidade máxima por volta de 1,8 mil metros, com uma capacidade de recarregamento de aproximadamente 166 km³ ao ano por precipitação. É dito que esta vasta reserva subterrânea pode fornecer água potável ao mundo por duzentos anos. Devido a uma possível falta de água potável no planeta, que começaria em vinte anos, este recurso natural está rapidamente sendo politizado, tornando-se o controle do aquífero Guarani cada vez mais controverso.

Escrito por:

Gustavo Abdel