CORREIO POPULAR

A união nacional

02/11/2014 - 05h00 - Atualizado em 31/31/2014 - 10h02 |

Brasil que foi às urnas, após assistir à mais virulenta campanha desde os idos de 1989, está rachado ao meio. A profunda divisão que se formou no seio de grupos, setores e regiões poderia, até, ser considerada sinal de avanço político, pelo entendimento de que o escopo democrático se inspira na disputa entre contrários, se chegássemos ao final do pleito com o peito estufado de animação cívica, e não com arsenais cheios de ódio e desejo de vingança.

O mandatário vitorioso terá de comandar um país conflagrado, fracionado em duas grandes bandas, separado por gigantesco apartheid, que lhe vai exigir extraordinário esforço para recompor a união da comunidade política, destemperada ao correr da campanha eleitoral pelo molho da discórdia.
 
A agressividade da linguagem usada pelos candidatos deixará feridas abertas por um bom tempo, eis que os eixos centrais da política foram entortados: adversários passaram a ser inimigos; o combate às ideias cedeu lugar ao embate pessoal; a carga expressiva da competição eleitoral saiu da régua do respeito para descambar no tiroteio chulo. Não será fácil reconstruir a mesa da comunhão nacional, unir os sonhos da coletividade.
 
Na verdade, a cisão social vem sendo, há tempos, alimentada por recorrente discurso com foco na luta de classes, fenômeno que abandonou as ruas e foi apagado do discurso político desde a queda do Muro de Berlim. Por essas bandas, no entanto, a insistência de um partido e suas principais lideranças em manter vivo o alfabeto da separação — “nós e eles”, “elite branca contra os miseráveis”, “ricos e pobres”, “Nordeste contra Sudeste” — contribuiu sobremaneira para expandir os atritos na esfera social, formando bolsões de animosidade entre grupos partidários, exércitos militantes e entidades com feição política, como centrais sindicais.
 
O abecedário separatista não vingou por algumas razões, entre as quais pelo fato de estar defasado no tempo e no espaço — principalmente neste nosso espaço habitado por forte classe média — e ainda porque as fontes primárias da pregação foram envolvidas, de forma direta ou indireta, pela intensa fumaça de escândalos, desde os antigos, como o mensalão, aos mais recentes, como o affaire da Petrobras. O discurso acabou perdendo credibilidade ao bater em ouvidos descrentes, fazendo eco apenas em grupos limitados.
 
Ante esse quadro, emerge uma tarefa monumental a ser desempenhada pelo governante do próximo quadriênio, a presidente Dilma: apaziguar a nação repartida em raiva e mágoa. O caminho a seguir é longo, exigindo complexa engenharia na construção de pontes — perfis respeitados, críveis, sérios, preparados. Sua missão: aplainar o terreno esburacado e abrir canais de acesso nas áreas política, social e institucional.
 
Urge levantar o pressuposto de que os programas de governo em qualquer esfera temática, para ser bem recebidos pela sociedade, hão de exigir uma comunidade pacificada, harmônica, identificada com grandes causas.






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