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RUBEM ALVES

Meditações sobre o educador

06/07/2014 - 05h00 - Atualizado em 08/01/2016 - 16h52 |

Van Gogh tem uma delicada tela que representa esta cena: o pai, jardineiro, interrompeu seu trabalho, está ajoelhado no chão, com os braços estendidos para a criança que chega, conduzida pela mãe. O rosto do pai não pode ser visto. Mas é certo que ele está sorrindo. O rosto-olhar do pai está dizendo para o filhinho: “Eu quero que você ande”.
É o desejo de que a criança ande, desejo que assume forma sensível no rosto da mãe ou do pai, que incita a criança ao aprendizado dessa coisa que não pode ser ensinada nem por exemplo e nem por palavras. Os braços estendidos do pai são mais importantes que os braços estendidos do professor. Aquele pai agachado, braços estendidos, sorriso escondido: não é uma linda imagem para o educador?
Nietzsche é o filósofo que mais amo. Dizia ele só amar os livros escritos com sangue. Seus textos são escritos com sangue, sangue sob a forma de palavras.
Bem que ele poderia dizer: “Hoc est corpus meum”, isso é o meu corpo.
Eu escrevo antropofagicamente. Antropofagia é um ritual pelo qual os vivos devoram os mortos. Eles não os devoram por razões gastronômicas. Rituais antropofágicos não são churrascos. Eles os devoram por razões de amor.
Há duas coisas que se podem fazer com o corpo de um morto. A primeira delas é enterrá-lo, para ser devorado pelos vermes e para que continue morto. A segunda é devorá-lo para que, morto, continue a viver em nossos corpos.
Há autores que li sem que os tivesse amado. Não os devorei. Suas ideias ficaram guardadas na minha cabeça. Outros, que amei, eu os devorei. Passaram a fazer parte do meu corpo.
Aquilo que se come não continua o mesmo depois de comido. É assimilado — fica semelhante a mim. Batatas, cenouras e carnes, uma vez comidas, deixam de ser batatas, cenouras e carnes. Passam a ser parte de mim mesmo, minha carne, meu sangue. Assim acontece com os autores que devorei e cito. Só os cito porque se tornaram parte da minha carne e do meu sangue. Eu os conheço “de cor” — isto é, como parte do meu coração. Deixaram de ser eles. São eu.
Segundo Nietzsche, a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. É através dos olhos que as crianças tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo. Os olhos têm de ser educados para que a nossa alegria aumente. As crianças não veem “a fim de”.
Seu olhar não tem nenhum objetivo prático. Veem porque é divertido ver.
Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu. O educador diz: “Veja!” — e ao falar, aponta. O aluno olha na direção apontada e vê o que nunca viu. O seu mundo se expande. Ele fica mais rico interiormente. E, ficando mais rico interiormente, ele pode sentir mais alegria e dar mais alegria — que é a razão pela qual vivemos.