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RUBEM ALVES

Ela havia perdido um seio...

15/06/2014 - 05h00 - Atualizado em 17/17/2015 - 17h53 |

...Chorando, ela abraçava o marido, sentindo-se mutilada na sua feminilidade e beleza. Como poderia continuar a ser amada pelo marido? O marido a aperta carinhosamente contra o peito e lhe diz: “De agora em diante, ao abraçar você, o meu peito estará mais perto do seu coração...”
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Folheando a esmo o livro 'Ten poems to set you Free' (dez poemas para torná-lo livre), deparei-me com esse poema de Miguel de Unamuno que fez bem à minha alma e me animou. Talvez faça o mesmo com você...
“Sacuda para longe essa tristeza e renove o seu espírito;
Com moleza você nunca verá a roda do destino
Que limpa o seu calcanhar à medida em que você que caminha.
O homem que deseja viver é o homem em que a vida é abundante.
Do jeito como você está, você está apenas alimentando aquela dor final
Que vagarosamente vai enrolando você nas redes da morte.
Mas viver é trabalhar.
A única coisa que permanece é a obra.
Comece então. Volte-se para o trabalho.
Lance-se como semente no seu próprio campo à medida em que você anda.
Não desvie o seu rosto porque isso seria fazê-lo olhar para a morte.
E não permita que o passado esmoreça o seu andar.
Ponha sementes vivas nos sulcos que o arado faz na terra
E guarde as coisas mortas em você mesmo.
Pois a vida não se movimenta como um bando de nuvens.
Pelo seu trabalho você será capaz, um dia, de reunir os seus pedaços...”
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Minha amiga Tomiko dedica-se à arte de envelhecer. É gerontóloga. Por isso frequenta lugares onde só velhos vão. Compareceu a uma reunião de uma sociedade de diabéticos e hipertensos e percebeu que o problema mais sério é que as pessoas não sabem o que é a doença, especialmente as mais humildes. Pediu-me, então, para escrever um texto sobre o diabetes pra qualquer pessoa entender. Aí vai ele.
DIABETES: Eu sou diabético. Doença danada igual ao cupim. O cupim entra na madeira e vai comendo por dentro, roendo, fazendo túneis, esburacando. Do lado de fora a gente não percebe. Aí chega um dia em que a madeira vira farelo. Assim é o danado do diabetes. Os sintomas quase não aparecem, do jeito mesmo como acontece com o cupim. Por não ter sintomas a gente acha que tudo está bem. Mas o cupim, escondido, está roendo.
Diabetes não tem cura. É doença crônica. Doença crônica é uma doença que requer cuidados até a morte. Mas não se apoquente. A vida também é doença crônica que exige cuidados até a nossa morte. Todo dia você tem de comer, beber, respirar... O diabetes é uma perturbação no sistema de transporte do sangue. O sangue não consegue transportar o açúcar para o seu destino, que são as células (o trenzinho que transporta o açúcar para as células tem o nome de insulina.) Açúcar é vida para elas. Como o trenzinho está emperrado, o açúcar fica girando em falso, sem chegar ao seu destino. É por isso que a taxa de glicemia, isso é, da quantidade de açúcar no sangue, sobe.
Se você se cuidar os cupins não conseguirão fazer o seu trabalho. São três os cuidados básicos:
1. Tome os remédios que o médico manda. Não vá acreditar no que dizem os sabichões que palpitam que diabetes se cura com chá de não sei o que. É mentira. Temos de nos valer dos remédios da farmácia.
2. É preciso manter o tráfego de açúcar desimpedido. Muitas das coisas que comemos, mesmo que não sejam os deliciosos doces e bombons, se transformam em açúcar quando entram na circulação. Batatas, pastéis, macarrão, mandioca, feijão, pão (pão com manteiga é tão bom!), cerveja, uísque. Não é para você parar de comer essas delícias. É só comer menos e com cuidado. Se você comer em demasia o tráfego fica entupido, a glicemia vai para as alturas. Sei que é difícil mas aprenda a comer menos. Para ganhar forças nessa disciplina terrível lembre-se de Gandhi! Ele jejuava sempre. E teve boa saúde até o fim da vida. Comer pouco faz bem à saúde. Seu estômago, acostumado a comilanças, vai protestar e roncar. Quando isso acontecer faça um lanchinho: um naco de queijo e uma fruta. Com o tempo você vai se acostumar. Emagreça. Gordura e diabetes andam de mãos dadas. Agora, se você quiser morrer antes da hora continue a comer como sempre comeu. O diabetes adora os gulosos! Morrer não é nada. O terrível é quando é preciso amputar uma perna ou vem a cegueira.
3. Caminhar todo dia, se possível. Pelo menos 45 minutos. As caminhadas ajudam a diminuir o açúcar no sangue, além de dar uma sensação gostosa no corpo.
É uma bela manhã. Medi meu diabetes no aparelhinho. Não gostei do número que apareceu. Já tomei o meu remédio e agora saio para uma caminhada. A vida é boa.