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RUBEM ALVES

Escalar montanhas

08/06/2014 - 05h00 - Atualizado em 08/01/2016 - 16h53 | Do Correio.com
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Tive uma amiga, professora da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, que adorava escalar montanhas. Por que escalar uma montanha? Ela respondia: “Porque ela está lá...” Cada pico coberto de neve lhe era um desafio irresistível! Pois ela me contou o seguinte: ela e um grupo de amigos escalavam uma montanha gelada, se não me engano no Peru ou Equador. Os membros do grupo, por segurança, estavam todos amarrados uns nos outros. De repente um deles escorregou e começou a deslizar encosta abaixo. Os outros foram arrastados com ele. Os alpinistas levam uma minipicareta amarrada ao pulso. Enquanto ela deslizava montanha abaixo, possivelmente para a morte, não pensou sobre a morte. Não sentiu terror. Começou a pensar irrelevâncias. Seus braços jogados para cima, a picareta pulava de um lado para o outro acima da sua cabeça. E o que ela pensou foi: “Como são perigosas essas picaretas! É preciso fazer algo para diminuir o seu perigo!” Quatro dos seus amigos morreram. Ela sobreviveu.
As pombas
Cheguei à janela do apartamento em que me encontrava, no décimo segundo andar do hotel. Olhando para baixo viam-se gramados, árvores, casas. Um bando de pombas voava. Umas cinquenta. Voavam muito próximas umas das outras. Sem esbarrar. Não estavam indo a lugar algum. Seu voo não tinha nenhuma intenção prática. Voavam pela alegria de voar. Brincavam de voar. Huizinga, filósofo holandês, escreveu um livro com o título "Homo Ludens", o homem brincante. Brincar é fazer algo sem nenhum resultado prático, só pelo prazer de fazê-lo. Pular corda. Jogar damas. Armar quebra-cabeças. Música. Pintura. Poesia. Mas ele observou que também os animais gostam de brincar. Os gatos, os cães, os potrinhos. Ao ver as pombas pensei: também as pombas gostam de brincar. As pombas, mais do que nós, sabem para que se vive. A princípio foi o puro prazer da contemplação. Elas iam e vinham fazendo curvas inesperadas. De repente, o bando batia as asas voando para cima e todas juntas, ao mesmo tempo, paravam de bater as asas e deslizavam para baixo como se estivessem deslizando numa montanha russa. Imaginei que esse movimento deveria dar-lhes a mesma sensação visceral que se tem quando o carro sobe rápido e, ao fim da subida, começa a descer. Todas ao mesmo tempo. Como se houvesse um cérebro único que as guiasse. Não seguiam uma pomba-líder. Não havia tempo. Todas se moviam como um balê ensaiado. E quando faziam as curvas rápidas de 180º a pomba que parecia ser líder ficava na retaguarda. Por cerca de 15 minutos fiquei a observá-las Fiquei curioso. Suas asas não se cansariam? Pensei que suas asas deveriam bater três vezes por segundo. Cento e oitenta vezes por minuto. Desci para o café da manhã. Lá fiquei por cerca de meia hora. Ao voltar as pombas continuavam a brincar de voar, sem ir a lugar algum. Elas não queriam ir a lugar algum por já se encontrarem no lugar onde queriam estar: o espaço do brincar. Jesus também jogava tempo fora observando os pássaros em voo. O que o levou a dizer que para se viver como se deve é preciso gastar tempo observando as aves. Não nascemos com nenhuma missão a ser cumprida. Não somos peões no xadrez que Deus joga com o Diabo... Vivemos para viver. Fiquei com inveja das pombas...
Espermatozóides
Um amigo, médico, contou-me o seguinte. Ele era médico de um leprosário. Leprosos, estigmatizados, deformados, isolados. As enfermeiras eram freiras: ali passavam a sua vida. É extraordinário o que o sentimento religioso é capaz de fazer! Uma das freiras teve uma infecção urinária. Teve de fazer um exame de urina. Juntamente com todas as informações patológicas o laboratorista encontrou na urina muitos espermatozóides. E ele, com um sorriso nos lábios, não colocou essa informação na folha do exame.