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RUBEM ALVES

Unha-de-vaca

25/05/2014 - 05h00 - Atualizado em 17/17/2015 - 17h52 | Do Correio.com
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Eu nunca as tinha visto assim, tão bonitas quanto neste ano. Claro que as havia notado antes. Mas nada que me comovesse... Árvores comuns, banais mesmo. Se eu tivesse sido o jardineiro, teria escolhido outra. Penso que algo deve ter aconteci­do nos céus para que elas estejam tão floridas na terra. Cobertas de flores brancas, roxas, rosas — e quando se toma uma delas nas mãos se descobre que ela tem a simetria e a dignidade de uma orquídea. A diferença? As orquídeas são flores “esnobes” que custam caro — e estas estão por aí, em todos os lugares. Se eu fosse reescrever o poema de Brecht colocaria o nome delas como uma das felicidades do viver.
Ah! Vocês não sabem do que se trata... As palavras estão no vazio... Que flor é essa? Se lhes tivesse dito um nome, então teriam, quem sabe, um perfume a evocar. Ou poderiam dizer: “Tem uma florida bem na porta da minha casa...” Mas eu não lhes disse o nome. E com isso estou lhes roubando uma felicidade. Nietzsche dizia que os homens inventaram nomes para que pudessem ter prazer nas coisas...
Esquisito, não? Não, se pensarmos um pouquinho. Porque o nome é invocação mágica que tem o poder de fazer presente, aí onde você está, a coisa que está ausente, na qual mora a felicidade. A palavra é como uma taça na qual está um pouco da bondade da coisa. Me lembro, de poemas lidos na minha adolescência, do amor de Inês de Castro. E o poeta, como que falando com a jovem, dizia que ela andava “dizendo aos campos e às ervinhas o nome que no peito escrito tinhas...” O nome revela a face da nossa felicidade. E foi por isso que o Criador, depois de terminar de plantar o jardim, estando tudo pronto, determinou que o homem desse nome às coisas. Para que ele descobrisse a felicidade que mora nelas.
E é por isso que fiquei bravo ao me lembrar do nome que lhe deram: tão leve, levíssima, quase uma estrela, orquídea proletária, para todos. E a chamaram de “unha-de-vaca”. Definitivamente um desaforo. Aí, à medida que vou andando (pois todas estas ideias me vêm enquanto ando) recordo-me das razões, ao ver algumas folhas, espalhadas pelo chão. São uma unha-de-vaca, sem tirar nem pôr. Entendo mais: o que inventou esse nome deveria ser uma pessoa que andava com os olhos abaixados, sem grande amor por aquilo que existia à sua volta ou acima da sua cabeça. A posição da cabeça faz toda a diferença. A depressão olha para baixo. Pois, se por acaso olhasse para cima, a coisa seria toda outra, porque só se as vacas estivessem voando. Pois é isto que a folhagem da árvore sugere. Centenas, milhares de unhas-de-vaca, balançando ao vento. E quero crer que, se o pintor Chagall tivesse vivido entre nós, teria acrescentado ao asno voador que ele coloca no céu de suas telas, também as vacas voadoras que carregam flores nos seus chifres. Pois não é isto? Vacas floridas. E me contestarão, dizendo que vacas, por serem pesadas e destituídas de asas, não podem voar, jamais. Ao que eu responderia que qualquer bicho que carregue tantas flores nos chifres tem, obrigatoriamente, de voar. Pois é esta a função da beleza: tornar leves as coisas que são pesadas. E descubro, de novo, minha irmandade com o Guimarães Rosa, que dizia que a coisa não está nem na partida, nem na chegada, mas na travessia. Não quero chegar. Quero continuar a andar, sob as vacas voadoras. Vejo suas unhas recortadas nas folhas. Mas sei que são as flores que têm na ponta dos chifres que as fazem voar. Não, não é preciso ir a lugar algum. Basta andar por aí, sem destino, para começar a voar também...