Publicado 26 de Maio de 2014 - 13h08

Por Bruno Bacchetti

O baixo nível da água deixo as pedras à mostra no Rio Jaguari

Elcio Alves/ AAN

O baixo nível da água deixo as pedras à mostra no Rio Jaguari

Um dos mais importantes rios que cortam a Região Metropolitana de Campinas (RMC) e que forma um dos maiores reservatórios do Sistema Cantareira, o Jaguari sofre com a estiagem e agoniza em meio a falta d’água, assim como outros rios da região — Atibaia e Camanducaia, por exemplo. Nem as chuvas desde a última sexta-feira aliviaram a situação do rio. Segundo o Comitê das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), a vazão do Rio Jaguari na foz não chegou aos 6 m³/s neste mês. Em maio do ano passado, era de 27 m³/s. Para retratar o cenário desolador, a reportagem do Correio fez uma expedição no Rio Jaguari desde o trecho localizado na usina que leva o nome do rio, no limite entre Campinas e Pedreira, até Jaguariúna. Na RMC, o rio ainda passa por Cosmópolis, Morungaba, Paulínia e Americana, onde se junta ao Atibaia para formar o Rio Piracicaba.

 

A seca na região registra recorde histórico. Segundo o Centro de Pesquisas Meteorologicas e Climáticas Aplicada à Agricultura (Cepagri) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de dezembro a março deste ano o volume de chuvas foi de apenas 367 milímetros, menos da metade da média para o período, que é de 863 mm. A estiagem começou no ano passado e 2013 foi o mais seco em Campinas desde 1989. De acordo com o órgão, em todo o ano passado foram registrados 1.177,2 milímetros de chuva, 247,8 abaixo da média histórica de 1.425 milímetros. A medição começou a ser realizada em setembro de 1988.

 

A estiagem faz com que o cenário do rio seja muito diferente do que se via até o ano passado. As correntes se transformaram em fios de água, deixando à mostra as pedras que antes ficavam debaixo d’água. Aproveitando a ausência de água, a vegetação da margem cresce em direção ao rio, reduzindo o espaço. Pequenas ilhas de terra brotam no Jaguari e dificultam ainda mais a já afetada vida aquática. Por isso, os peixes praticamente sumiram da paisagem.

 

A população que habita a beira do rio sofre com a situação e teme o futuro do Jaguari, uma vez que o período de estiagem ainda está por vir. “Faz cinco anos que moro aqui e a água deu uma baixada boa, antes o rio era bem cheio. Dá até dó de ver”, afirma a dona de casa Adriana Aparecida de Freitas, de 33 anos, moradora de uma chácara no limite de Campinas e Pedreira.

 

O marceneiro Claudinei Fernando Geraldo, de 54 anos, mora em Pedreira há décadas e acompanha com tristeza a transformação do Jaguari. Ele conta que jamais viu o rio com um nível tão baixo de água, cerca de um metro e meio abaixo do normal para esta época do ano. “Jamais vi essas pedras do fundo do rio, nem em época de estiagem. É uma judiação, mas ninguém tem culpa disso. Na verdade a culpa é de São Pedro, que não manda água”, diz. Segundo Geraldo, a seca já prejudica a vida aquática, por isso tem sido constante o aparecimento de peixes mortos. Por outro lado, aves que não eram comuns na região aparecem graças ao aumento da vegetação.

 

“Tem lugares no rio que viram uma bolha e vai formando lodo. Isso tira o oxigênio e às vezes a gente vê peixe morto. E tem coisas que não vi antes e vejo agora, como pássaros jacu e páca. Aqui tem uma mata grande e eles vem atrás de comida”, observa.

 

No trecho do Rio Jaguari em Jaguariúna, a vegetação da margem “engoliu” parte do rio. Galhos de árvore e ilhas de areia evidenciam o baixo do nível da água. O estudante Júnior Felício, de 16 anos, costumava entrar no rio para nadar e pescar e diz que a profundidade do Jaguari está menor. O jovem também é testemunha da redução na quantidade de peixes e de outros animais que frequentam o rio. “Tinha lugar que a água cobria a cabeça e agora está na cintura. Está bem ruim a situação, e se não chover vai baixar mais. Agora não vemos mais peixes, só pequeno. Tinha um monte de garça, capivara e pato do mato, mas agora não tem mais nada”, lamenta.

 

Barragem será construída em Pedreira

 

Um novo reservatório do Rio Jaguari anunciado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) inundará uma área de 4,3 quilômetros quadrados entre Campinas e Pedreira e deixará mais da metade do bairro Carlos Gomes, no Distrito de Sousas, debaixo d’água. No início do mês, o governador assinou a autorização para o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) contratar o desenvolvimento dos projetos executivos e Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental (EIA-RIMA). Além de boa parte do bairro, a histórica Usina do Macaco Branco, construída em 1912 pela família Aguiar Maya, também deve desaparecer com a represa. Outro prédio histórico que também deve sumir com a construção da nova barragem é a Fazenda Roseira. O galpão de café foi construído no final do século 19. O Daee contratará uma empresa para fazer a avaliação dos imóveis que devem ser desapropriados com a construção do reservatório. A nova reserva hídrica, prevista para estar pronta em 2018, é estratégica para as Bacias do PCJ e deve ajudar no abastecimento de Campinas. O reservatório de Pedreira ocupará uma área de 2,1 quilômetros quadrados, com 26,3 milhões de metros cúbicos de água e vazão regularizada de 9,6 mil litros de água por segundo. A barragem vai reduzir a dependência dos municípios do Consórcio do Sistema Cantareira, que sofre com a seca histórica.

 

Saiba Mais

 

As nascentes do Rio Jaguari estão localizadas no Estado de Minas Gerais, nos municípios de Sapucaí-Mirim, Camanducaia e Itapeva. Em Jaguariúna, o Rio Jaguari recebe um afluente importante, o Rio Camanducaia. Ao juntar-se com o Rio Atibaia, o Jaguari forma o Rio Piracicaba, no município de Americana, seguindo até o município de Barra Bonita, também no Estado de São Paulo, onde ocorre sua foz junto ao Rio Tietê. Ao entrar em território paulista, o Rio Jaguari é represado, sendo um dos reservatórios integrantes do Sistema Cantareira.

 

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Bruno Bacchetti