Publicado 19 de Maio de 2014 - 15h27

José Ribeiro Soares: o "Véio do Rio": nível está dois metros abaixo do normal para esta época do ano

Edu Fortes/AAM

José Ribeiro Soares: o "Véio do Rio": nível está dois metros abaixo do normal para esta época do ano

A falta de chuva nos primeiros meses do ano transformou a paisagem do Rio Camanducaia, em Jaguariúna, que agora exibe um cenário desolador e bem diferente do esperado para a época do ano. Em alguns trechos o nível do Camanducaia não passa de 30 centímetros de profundidade, o que permite caminhar por ele com água abaixo da cintura. As pedras que normalmente estariam debaixo da água estão à mostra e a vegetação da margem avança para dentro do rio. Segundo dados do Comitê do Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), a vazão do Camanducaia não ultrapassou 2m³/s em maio. No mesmo mês de 2013 a vazão do rio, que abastece o município de Amparo, chegou a 13 m³/s.

A situação é bem diferente de anos atrás, quando as chuvas tornavam frequentes as enchentes e obrigavam os moradores vizinhos a correr para salvar seus pertences da água que invadia as casas. Segundo o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicada à Agricultura (Cepagri) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de dezembro a março deste ano o volume de chuvas foi de apenas 367 milímetros, menos da metade da média histórica para o período, que é de 863 mm.

 

Primeiro morador do bairro Recanto do Camanducaia (hoje são aproximadamente 15 famílias), o aposentado José Ribeiro Soares, de 63 anos, testemunha a seca do rio com tristeza. Conhecido como “Véio do Rio”, ele mora há 14 anos com a esposa Aparecida da Costa Soares, de 55 anos, em uma chácara que tem o rio Camanducaia como “quintal”. O aposentado costumava antever quando as enchentes se aproximavam e corria para avisar aos vizinhos. Hoje, ele lamenta a mudança de cenário e sofre com o baixo nível do rio.

 

“Eu tenho uma escada que desemboca no rio e dependendo de quanto enche por dia sei se vai atingir o nível da calçada. Todo ano a água chegava na estrada, mas neste ano não chegou. A gente fica triste, nunca vi o rio desse jeito, nem na época de seca. Era melhor quando eu tinha que sair para avisar os vizinhos para tirar os carros de rua porque vinha enchente”, explica o aposentado, com o semblante de consternação.

 

Dois meses atrás a situação teve uma ligeira melhora com as chuvas que caíram no mês de março. No entanto, a estiagem retornou e a situação caótica veio de carona, mudando os hábitos do chacareiro. “Tem que economizar a água tratada, por isso uso a água do rio para regar o pomar. Se está desse jeito agora, imagina daqui para frente?”, questiona.

 

O comerciante Donizete Aparecido de Oliveira, de 53 anos, é proprietário de uma lanchonete na beira do rio e mora a poucos metros do aposentado. Ele conta que o estabelecimento já foi invadido pelas águas do rio na época de enchente e que a construção foi concebida para escapar dos efeitos causados pelas fortes chuvas. Mas isso ficou no passado. Segundo ele, o nível das águas do rio está entre um a dois metros abaixo do normal para a época do ano. “Se não chover vai acabar o rio.

 

Quando mudei para cá, há oito anos, a enchente chegou a 2,20 metros, por isso fiz uma escada para chegar na minha casa. Se tivesse chovido, o rio estaria com um ou dois metros de água acima. Dá dó de ver”, afirma Oliveira.

 

De acordo com o “Véio do Rio”, a estiagem já alterou a fauna do Rio Camanducaia e afastou várias espécies de animais. A presença de peixes é cada vez mais rara e os únicos habitantes que permanecem no rio são espécies de aves como socó-boi, marreco, tucano e biguá, além de capivaras. “Cada ano que passa vai diminuindo. Os peixes subiam do Rio Piracicaba, mas precisa de enchente para eles subirem, então tem muito pouco. Ainda tem passarinho, capivara e lontra”, relata o aposentado.

 

Estado fará barragem em Amparo

 

O governo do Estado irá construir um reservatório no rio Camanducaia, no trecho localizado em Amparo, a fim de criar uma reserva hídrica estratégica na bacia do Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) para ser uma alternativa ao Sistema Cantareira, que agoniza com menos de 9% de sua capacidade. A barragem de Duas Pontes terá capacidade para 41 milhões de metros cúbicos de água e ocupará uma área de 7,6 quilômetros quadrados no município de Amparo, com vazão regularizada de 6,5 metros cúbicos por segundo.

 

 

Além da barragem Duas Pontes, o governo estadual planeja construir também outro reservatório, a Barragem de Pedreira, no rio Jaguari, em Pedreira. O reservatório ocupará uma área de 4,3 quilômetros quadrados nos municípios de Pedreira e Campinas, e terá capacidade para acumular um total de 26,3 milhões de metros cúbicos de água e vazão regularizada de 7,3 metros cúbicos por segundo.

 

Em fevereiro deste ano, foi publicado decreto declarando de utilidade pública para desapropriação das duas áreas, com um total de 11,9 quilômetros quadrados, nos municípios de Pedreira, Campinas e Amparo para a implantação dos novos reservatórios. No último dia 2, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) assinou a autorização para o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) contratar o desenvolvimento dos projetos executivos e Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima) para as duas barragens. Serão investidos R$ 14,8 milhões no trabalho, que deverá estar concluído em 18 meses. (BB/AAN)

 

 

SAIBA MAIS

O Rio Camanducaia nasce em Toledo (MG) e tem sua foz no rio Jaguari, em Jaguariúna. A área da Bacia do rio Camanducaia é de 870,68 km², correspondente a 6,7% de toda a bacia do Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ). A Bacia do Rio Camanducaia integra em seus limites territoriais os município de Amparo, Jaguariúna, Monte Alegre do Sul, Pinhalzinho, Serra Negra, Socorro e Toledo (MG), além de ser composta pelos municípios denominados de borda — Pedra Bela, Pedreira, Tuiuti, Santo Antonio de Posse e Holambra.