Publicado 06 de Abril de 2014 - 11h55

O novo reservatório do Rio Jaguari, anunciado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) em fevereiro, inundará uma área de 4,3 quilômetros quadrados entre Campinas e Pedreira e deixará mais da metade do bairro Carlos Gomes, no Distrito de Sousas, debaixo d’água.

 

A zona rural abriga três fazendas e pelo menos seis famílias de sitiantes, que afirmaram não querer sair de suas propriedades.

 

A nova reserva hídrica, prevista para estar pronta em 2018, é estratégica para as bacias do PCJ e deve ajudar no abastecimento de Campinas.

 

A vazão regularizada de 7,3 m3 irá também reduzir a dependência dos municípios do Consórcio do Sistema Cantareira — que sofre com a seca histórica dos meses de janeiro e fevereiro e bate diariamente recordes negativos de capacidade.

O Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) prepara a licitação para contratar a empresa que fará o projeto executivo, que inclui também uma segunda barragem do Rio Camanducaia, em Amparo.

 

A previsão é que a empresa seja escolhida em dois meses e que o plano seja concluído em 14 meses. O custo total do complexo pode chegar a R$ 1,2 bilhão.

Mas apesar de o projeto ser necessário para garantir a independência do município da outorga do Cantareira, o alagamento da comunidade rural deve ter ônus cultural e social.

 

A histórica Usina do Macaco Branco, construída em 1912 pela família Aguiar Maya, deve desparecer com a represa.

 

A Fazenda Roseira, erguida no século 19, também será inundada pelas águas.

Além disso, famílias que demoraram anos para comprar um pedaço de terra no local e têm ligação afetiva com a área serão obrigadas a entregar suas chácaras em troca de uma indenização.

 

No dia 12 de fevereiro, o Estado publicou um decreto declarando os terrenos de utilidade pública para a construção do reservatório.

A possibilidade de perder o sítio que foi comprado há 20 anos tem tirado o sono do casal Damião e Valdenira Moreira.

 

O pedreiro, de 59 anos, montou um comércio no local que funciona apenas aos fins de semana. Conhecido como Bar da Sônia, apelido de sua esposa, o estabelecimento simples é um recanto de tranquilidade às margens do Jaguari. “Isso aqui é nosso sonho. Tudo que ganhamos é reinvestido no sítio. Era tudo o que a gente sempre quis ter”, contou.

 

Os 20 mil metros quadrados de terra foram comprados com a venda de uma égua, uma charrete e um carro, tudo o que eles tinham até então, por R$ 20 mil.

“Ficamos com um sítio sem nada. Nem casa tinha direito. Fomos nos reerguendo com a ajuda de amigos. Um dava uma mesa, outro um fogão, outro a geladeira. Assim fomos fazendo a nossa casinha”, disse Sônia, de 66 anos.

 

A cozinheira afirmou que não há dinheiro que possa comprar o lugar. “Eu e meu marido nascemos na roça. Vamos sair daqui e fazer o que? Comprar um apartamento com o dinheiro? Seria decretar a nossa morte.”

 

 A dona de casa Ana Tereza Pereira (foto), de 53 anos, também aguarda com angústia a definição da construção da represa.

 

Dona de uma chácara no Carlos Gomes há cinco anos, ela fez com capricho um jardim e um tanque de peixes no local. O sítio também tem saída para o rio, que ela “nunca viu tão baixo”.

 

Ana Tereza contou que no ano passado um homem foi até a sua casa apresentar o projeto da represa.

 

“Quando ele abriu a planta dizendo que tudo seria alagado, achei que fosse trote. Mas aí ele disse que já estava certo, e veio o desespero.”

 

Segundo Ana, o homem afirmou que as famílias seriam indenizadas pelas propriedades. “Mas nunca mais voltou. E a gente fica nesta indefinição.”

 

A diarista Aparecida de Oliveira, de 57 anos, comprou sua chácara com uma “vaquinha” de toda a família.

 

A casa, com horta e fogão a lenha, é o refúgio de filhos e netos nos feriados e fins de semana.

 

“Eu troco esta terra por outro sítio. Agora dinheiro eu não quero não. Estou com material de construção guardado para fazer o acabamento da casa, mas não dá para terminar enquanto o governo não der uma resposta concreta para nós.”

 

Obra destrói usina 

A Empresa Hidrelétrica Jaguari, conhecida como Usina do Macaco Branco, já esteve em processo de tombamento pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc), mas deve ser inundada pelas águas da barragem.

 

O conjunto arquitetônico, que inclui também dez residências para trabalhadores do local à época, faz parte da história do município, que sempre esteve na vanguarda da produção de energia elétrica no País.

 

A pequena central hidrelétrica foi uma iniciativa de Silvio de Aguiar Maya, que possuía tecelagens e outros empreendimentos em Pedreira. Hoje, a usina pertence à CPFL Energia, que informou não ter recebido nenhuma comunicação oficial sobre a construção do reservatório.

Outro prédio histórico que também deve desaparecer com a barragem é a Fazenda Roseira. O galpão de café, construído no fim do século 19, foi adquirido em 2008 pelo empresário Rodrigo Cascão, que afirmou ter gasto aproximadamente R$ 3 milhões no restauro da propriedade.

 

“Utilizamos tijolos e telhas da época para fazer o muro e reparos. Também pintamos toda a casa. Estou muito preocupado com a possibilidade de ficar tudo debaixo d’água.”

 

 

 

 

Usina do Macaco Branco já foi avaliada pelo Condepacc para ser tombada como patrimônio histórico. Crédito: Edu Fortes/ AAN

 

 

 

Segundo Cascão, a fazenda tem ainda jaboticabeiras centenárias, além de arquitetura colonial.

 

O empresário enviou ao Condepacc documentos para que seja analisado o tombamento da propriedade. “Seria um jeito de salvar a fazenda. Não tenho interesse em vender. Nunca faria tudo isso se soubesse que a fazenda deixaria de existir.”

A coordenadora setorial do Patrimônio Cultural do Condepacc, Daisy Ribeiro, afirmou que não recebeu oficialmente um comunicado da construção da represa, mas irá acompanhar os desdobramentos. Entretanto, não há bens tombados na região do Carlos Gomes.

 

“A Usina do Macaco Branco foi analisada, mas optamos por ficar somente com a Usina de Salto. Sempre há prejuízos com alagamentos, pois é uma área de preservação ambiental com corredeiras e vestígios históricos. Mas também é necessário analisar a necessidade maior da cidade.” 

 

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