Publicado 04 de Fevereiro de 2014 - 19h48

O salto do Rio Piracicaba virou uma montanha de pedra

Del Rodrigues/Gazeta de Piracicaba

O salto do Rio Piracicaba virou uma montanha de pedra

Um rio que agoniza. É esse o Piracicaba que os nativos e os turistas têm como cartão postal neste momento. Durante o mês de janeiro, choveu apenas 68 milímetros, sendo que a média histórica é de 335 milímetros para este período. Diante desse cenário, o Piracicaba registra a vazão mais baixa dos últimos 50 anos, segundo informações do Consórcio PCJ (Comitê das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí) e DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica). Em medição feita às 7h desta terça-feira (4), a vazão era de 19,3 metros cúbicos por segundo e o nível era de 0,99 metro.

 

Em janeiro do ano passado, esses números eram, respectivamente, 119,96 m3/s e 2,07 metros. Segundo Luiz Roberto Moretti, diretor do Daee e secretário-executivo do PCJ, desde 1964 não se via uma vazão tão baixa. Para ele, a situação é bastante preocupante e exige cuidados da parte de quem utiliza a água das bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. "Devem utilizar a água com racionalidade, evitando o desperdício. É uma situação atípica, anormal. Se não tivermos a reposição do regime normal de chuvas, poderemos ter problemas muito sérios quando chegarmos ao meio do ano", alerta Moretti, se referindo à época da estiagem.

 

Uso racional

 

"Se não fizermos uso racional, teremos de racionar e assim a situação fica mais complicada", enfatiza. E a previsão de chuvas para mudar esse cenário não é nada animadora. De acordo com o professor do Departamento de Engenharia e Biossistemas (LEB) da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), Fábio Marin, deve começar a chover timidamente só daqui a uma semana. "E a previsão aponta 2 milímetros por hora, cerca de 15mm a 20 mm por dia. É algo que não resolve a situação para o rio", observa ele. Mas fazer previsões exatas dez dias à frente é uma tarefa difícil, avisa.

 

A reportagem da Gazeta percorreu alguns trechos do Rio Piracicaba na tarde desta terça-feira, do salto até a Ponte do Morato. O fotógrafo Del Rodrigues entrou no Piracicaba um pouco acima da Ponte Pênsil e seguiu quase sem nenhuma dificuldade até o início do salto, em busca da imagem perfeita, que mostraria a agonia do rio. E conseguiu.

 

Cascata vira montanha

 

O salto parece mais uma montanha do que um rio. Para não molhar suas botas, ele as deixou em um trecho seco. O sol estava tão forte, que seus pés ficaram doloridos e, certamente, surgiriam bolhas.

 

Essa combinação - temperatura altíssima e pouca água - afastou os turistas do rio, que ontem à tarde estava solitário. Os poucos que se arriscavam por ali, apenas lamentavam. Edson Roberto Furlan, que tem um quiosque abaixo do Museu da Água, esperava vender sorvete, água e suco para quem estivesse de passagem. "Estou aqui há 20 anos e nunca vi isso", afirmou ele.

 

E quase não há o que se ver mesmo. Entre as pedras do salto, apenas fios de água escorrem, para formar dois maiores, embaixo da ponte pênsil, e uma espécie de lago mais abaixo, quase sem correnteza. O fotógrafo Davi Negri, 48, decidiu checar a situação de perto e atravessou o Piracicaba em seu salto. "A gente vê uma agonia danada", lamenta.

 

Piracema

 

Nas poças d’água que se formam, os peixes que tentam subir o rio para se

Foto: Antonio Trivelin/Gazeta de Piracicaba

Carros passam pelo leito do Rio Piracicaba na área do município

Carros passam pelo leito do Rio Piracicaba na área do município

reproduzir, em plena piracema, apenas tentam. "Vi um cardume de lambaris tentando subir o rio, e eles começam a se debater, batem nas pedras quentes e não conseguem nadar". Um prato cheio para as garças que ficam à espreita.

O piracicabano Ricardo Borges, 62, aproveitou para ver o rio e se assustou. "Só vi o rio assim durante a estiagem. É uma resposta da natureza, para que fiquemos mais atentos com a sua preservação", alerta.

 

Morador na Rua São José, quase esquina com a Avenida Beira Rio, há 60 anos, o aposentado Maurício Alonso, 62, conta que pescou muito no Piracicaba e parou quando ele "começou a morrer" . "Desde que eu moro aqui, nunca vi o rio assim. É uma tristeza", resume. O amigo de Alonso, João Feliciano, frequenta a região da Rua do Porto há 30 anos e nunca viu tão poucos turistas nessa época do ano.

 

Já houve enterro

 

O pescador Antonio Roberto Ferreira, 59, disse que a situação está parecida com a de 1976, quando a população até fez um enterro simbólico do Piracicaba e jogaram flores em suas águas.  E não há nada mais triste que ver o local de onde se tira o sustento assim, agonizando. É o caso de Roberto Ferreira, o Zize, 40, único pescador profissional em atividade na região central de Piracicaba, segundo ele.

 

Em recesso durante a piracema, Zize não vê o início dos trabalhos em 2014 com empolgação. "Os peixes não sobem o rio para ´piracemar`. Isso vai alterar a pesca", prevê. Mas com a serenidade e a paciência que só os pescadores têm, ele espera que tudo mude assim que a primeira chuva vier.