ENTREVISTA

Rubem Alves: escritor porque a vida o fez assim

O teólogo, filósofo e cronista conversou com o Caderno C sobre literatura, tempo, velhice e memórias

20/01/2014 - 05h00 | Delma Medeiros
delma@rac.com.br

Foto: Divulgação
O escritor Rubem Alves
O escritor Rubem Alves

Mestre em teologia, doutor em filosofia, psicanalista, colunista do Correio Popular, escritor... e guerreiro. Aos 80 anos e, apesar de debilitado por uma série de problemas de saúde que dribla há quatro anos — superou um câncer, uma cirurgia cardíaca e a mais recente ortopédica, no final do ano passado —, Rubem Alves continua lúcido e produtivo, além de bem-humorado e ótimo contador de histórias. Autor de 158 livros, dos quais 57 infantis, traduzidos em 12 países, o escritor caminha diariamente, coleciona histórias e não esconde que a idade não é exatamente uma bênção. Na sala de seu apartamento no Jardim Chapadão, ele conversou com a reportagem do Caderno C sobre sua trajetória e planos.

Caderno C — O senhor é teólogo, filósofo, psicanalista, educador, mas fora dos meios acadêmicos ficou muito conhecido como escritor. A palavra sempre esteve presente em suas outras áreas de atuação, mas como nasceu o escritor?

Rubem Alves — Não sei. As pessoas me perguntam: “como é que você se descobriu como escritor?”. Não sei. Eu me lembro que há muitos anos, quando eu era professor da Unicamp, um aluno me procurou, pediu uma entrevista e a primeira pergunta que me fez foi como é que eu me preparei, como planejei a minha vida para ser o que ela foi. Eu percebi que ele me admirava e queria que eu lhe desse o mapa da mina. Disse: “Eu cheguei aonde estou porque tudo que eu planejei fracassou”. Só em casos muito raros a pessoa nasce com aquela coisa definida. É o desenrolar da vida que a torna bela.

Quando escreveu seu primeiro livro?

O primeiro livro que escrevi é muito chato, foi uma tese de doutoramento e isso exige um estilo especial, acadêmico. Quando o livro foi traduzido para o português (foi lançado primeiramente em inglês), eu escrevi um prefácio que começava assim: “Peço perdão a vocês por ter escrito um livro tão chato”. Era a primeira frase (risos).

Este ainda estava no âmbito acadêmico. Na ficção qual foi o primeiro?

Foi uma história infantil, 'A Menina e o Pássaro Encantado'. Escrevi para minha filha (Raquel). Eu viajava muito e minha filha era pequena, estava com uns 4 anos. E ela chorava, não queria que eu viajasse. Então me veio a história de um affair amoroso entre uma menina e uma pássaro, que era encantado porque não vivia em gaiolas, ele tinha que voar. Quando vinha das viagens, ele contava histórias pra menina. Quando partia a menina chorava e dizia “não vá, nós nos amamos tanto, eu fico com tanta saudade”. E o pássaro respondia: “você não percebe que é só porque eu tenho saudades que sou encantado, saudade é a alma do encantamento”. Os meus secretários estão estudando uma nova edição dessa história, que é muito bonita.

Além dos infantis, que são muitos, você tem também livros de memórias?

Sim, memórias de quando eu era menino, na roça. Nasci na roça (Boa Esperança-MG). As experiências de um menino na roça. Estou até tentando ver se tenho inspiração e paciência para terminar uma história. Estou trabalhando num livro de memórias, mas nunca estou contente, vou pra frente, volto para trás, escrevo, apago (este ano está previsto o lançamento da biografia do escritor).

As lembranças desse menino da roça inspiraram muitos livros?

Sim, muitas histórias. Um dia, minha filha tinha 4 anos e de repente, ela abriu a porta do quarto, entrou, me acordou, levei um susto, perguntei o que era. E ela disse: “Papai quando você morrer você vai sentir saudade?”. Com 4 anos ela já tinha percepção da morte, sabia do segredo da morte, a ausência, a dor.

Além de continuar escrevendo para o Correio Popular, o senhor está trabalhando em outras coisas?

Agora estou escrevendo crônicas para descrever uma experiência que tive com um homem — não me leve a mal, falo assim e começam a pensar logo coisas (risos). É um homem que eu nunca encontrei e sempre amei. Há uns 20 anos eu recebi uma carta dos Estados Unidos, meia folha de bloco num envelope. A pessoa que escrevia dizia que gostava muito das minhas poesias, não mais que dez linhas. Achei estranho porque a pessoa não dizia quem era. Três dias depois recebi uma carta de um amigo que dizia: “Você deve ter recebido uma carta do Landon Sheets, você não deve saber nada sobre esse nome, ele te escreveu da cela de uma penitenciária”. Nossa relação começou assim, várias vezes que estava na penitenciária ele escrevia. Quer saber que crime horrível esse homem fez?

Claro

Ele se juntou a um grupo religioso, cujo objetivo era invadir as instalações nucleares dos Estados Unidos. Eram imediatamente presos e faziam isso para dar testemunho. Eles queriam ser presos para que todos ficassem sabendo que eram contra essa maluquice de guerra nuclear. Então durante vários anos a gente trocou correspondência.

E o senhor está preparando um livro sobre essa história?

Essa é só uma das coisas, é uma das histórias que eu quero contar, acho interessante contar histórias, elas aparecem, a gente até se assusta com o aparecimento, como surgem as coisas.

Teólogo, filósofo, psicanalista, escritor...tem algum desses talentos que se destaca mais?

Varia. As pessoas perguntam “qual é o livro que você ama mais?”. Eu respondo: “Depende!”. Porque num certo momento você gosta desse livro, em outro momento, você gosta de outro. Não existe uma ordem, pelo menos comigo. Talvez outros escritores façam de maneira diferente, organizando tudo. Eu não organizo as coisas, elas vão surgindo. Sabe que fica até difícil conversar com você porque está meio encomendado: “Agora tem que falar sobre isso, depois sobre aquilo”.

Diferente de um bate-papo informal?

No bate-papo você não pode programar, a coisa vai fluindo. Muitas das coisas que escrevo surgem no bate-papo. Mas quando estou escrevendo uma história infantil ou um conto, ai não é bate-papo.

Como o senhor encara a fase atual da sua vida. A idade traz mais sabedoria?

Você me fez uma pergunta dura (pausa). A idade traz velhice, tristeza. Viver é tão bom, queria viver muito, amar muito. Dizem que eu tenho 80 anos. As pessoas perguntam, ou melhor, perguntavam, agora não perguntam mais porque já sabem qual vai ser a resposta. “Quantos anos você tem?” . “Não sei”. “Como não sabe?”. Se você me perguntar quantos anos eu não tenho, eu sei dizer. Eu não tenho 80 anos, esses 80 que dizem que são os anos que eu tenho, são precisamente os anos que não tenho porque eu já vivi, isso tudo que está aqui passou, passou. O quê que eu tenho? Não tenho a menor ideia do que tenho, posso ter uma hora de vida, posso ter dias, posso ter a desgraça de chegar aos 90 anos.

Como o senhor avalia a produção e o mercado literário?

Não tenho a menor ideia. Levo a minha vidinha e não entendo nada do mercado, sou uma pessoa decadente.

Imagina, decadente...

É sempre essa resposta, as pessoas não querem admitir que seus ídolos envelheçam. Eu envelheço, meus amores envelheceram, a idade é dolorosa porque é quando o tempo do amor passou. Agora me deu vontade de contar uma história pra você.

Conte, por favor

Está vendo aquele quadro que tem ali no canto (aponta), o que acha?

Acho interessante...

Não vem com esse papo de interessante (risos), você não sabe a história, são três folhas, não tem valor estético nenhum...

Então me conta a história.

Há muitos anos eu fui convidado para fazer o encerramento de um congresso, de um um pessoal ligado com a terra. Me pediram que contasse uma história sobre jardins — eles sabiam que eu gosto muito de falar sobre jardins. O que mais me provoca é o Jardim do Éden, um jardim mitológico, que dizem ser o jardim da tentação. Me lembrei de uma tela de um pintor do Renascimento, Dürer (Albrecht, 1471-1528), que pintou uma tela de Adão e Eva, os dois nus com umas folhinhas tampando a nudez. Eu comentei que ele cometeu três erros na pintura dele. Primeiro, ele pintou os dois com umbigo, entende?

Eles não nasceram de uma mulher.

Isso, eles não tinham umbigo, não nasceram de forma natural para ter cordão umbilical. Outro engano, usavam aquela folhinha na frente porque tinham vergonha, mas eles não podiam sentir vergonha porque estavam na pureza original. E o fruto proibido escondido pelas folhas era uma maça e maçã é uma fruta muito pouco erótica, dura. A fruta do paraíso tinha que ser um caqui. Contei essa história. O pessoal gostou muito das minhas brincadeiras — naquele tempo eu ainda falava com muita facilidade. Quando cheguei no hotel tinha um telefonema de uma pessoa me convidando para visitar um centro cultural no dia seguinte. Fui e o centro cultural era um grande jardim. Comecei a conversar com o homem e ele disse que ia falar a partir da imagem que eu tinha usado do caqui. Contou que quando os americanos soltaram a bomba atômica em Nagasaki, não sobrou nada, tudo virou cinza, morte, morte, morte. Aí os japoneses notaram uma coisa estranha, um daqueles galhos retorcidos começou a soltar brotos. A árvore que estava soltando brotos era um caquizeiro. Então os japoneses resolveram fazer mudas daquele caqui e distribuir pelo mundo inteiro como testemunho de que a vida havia de triunfar sobre a morte. Ele me disse: “Vira pra trás, veja o que tem”. Olhei e tinha uma árvore. Ele explicou que era um caquizeiro, neto do caquizeiro de Nagasaki. Fiquei tão comovido que comecei a chorar diante daquela árvore. Pedi a ele licença para pegar três folhas para fazer um quadro. De modo que ali está uma bomba atômica.

Uma última pergunta. Tem uma receita para ser um bom escritor?

Não escrever complicado. Não sei se tem receita. Eu sei que o meu jeito de escrever ajuda outras pessoas a escrever, mas não sei que jeito é esse. Há uma coisa meio mágica. Se me pedir dez lições de como escrever, fico paralisado. Preciso escrever uma coisa que está dentro de mim.



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