Publicado 12 de Dezembro de 2013 - 14h38

Ao se olhar uma fotografia, é possível identificar a pessoa ali retratada, porque naquela imagem está estampado o seu rosto. Por um lado, todos os rostos humanos se assemelham, uma vez que possuem partes que lhes são comuns: lábios, boca, nariz, olhos, sobrancelha. Mas , por outro lado, cada rosto apresentado em uma foto é singular, e contém características que, em conjunto, são suficientes para que se possa reconhecer a pessoa ali presente. De fato, cada rosto tem um contorno próprio, um detalhe marcante, ou um aspecto especial. Estas particularidades são chamadas de fisionomia. Conta-se que, antes da criação das máquinas fotográficas, havia artistas especializados em desenhar retratos humanos. O talento desses profissionais consistia justamente na capacidade de observarem e reproduzirem, tão fielmente quanto possível, expressões fisionômicas.

O conceito de fisionomia é bastante abstrato para aqueles que têm deficiência visual congênita, pelo menos a julgar por minha própria experiência. Os traços e as feições que caracterizam cada pessoa e a distinguem dos demais seres humanos são atributos muito visuais, e por isso, não são facilmente compreensíveis aos olhos de quem não enxerga.

Para nós, a voz (e não o rosto)é sem dúvida o aspecto pelo qual melhor identificamos e diferenciamos as pessoas. Ao pensarmos em alguém, imediatamente sua voz surge em nossa cabeça.

Podemos dizer que existe tanta variedade de vozes quanto de fisionomias, e assim, parece praticamente impossível encontrarmos pessoas com vozes idênticas.

A caracterização da voz humana é algo bastante subjetivo. Uma voz tem qualidades que às vezes nem conseguimos expressar por meio de palavras. Em alguns casos, recorremos a termos sinestésicos, ou seja, atributos que, nesse caso, provém de outros órgãos sensoriais diferentes da audição. Podemos, por exemplo, ter a sensação de que determinada voz seja aveludada, brilhante, robusta, lisa ou arredonddada. De acordo com a atribuição destas qualidades, existe uma dimensão estética associada à Expressão vocal. Há vozes dotadas de uma grande beleza, assim como, em uma perspectiva visual, há fisionomias especialmente bonitas.

A voz revela muitos aspectos sobre nossa personalidade. Ao longo da vida, nossa voz se modifica, conforme crescemos e nos desenvolvemos. Mesmo depois de nos tornarmos adultos, ela se transforma com o tempo, à medida que acumulamos mais experiências e conhecimentos.

O amadurecimento psíquico e emocional faz com que nossa voz adquira gradativamente uma maior profundidade, como um reflexo de nosso próprio crescimento.

Em certa ocasião, revi um amigo a quem não encontrava há mais ou menos dez anos. Antes que ele me contasse qualquer coisa sobre si mesmo, logo percebi que sua voz tinha mudado bastante, estando mais séria e mais profunda em relação ao que era no passado. Durante nossa breve conversa, ele falou sobre suas recentes conquistas, as quais o haviam tornado um profissional respeitável. Notei então que este meu amigo tinha amadurecido, e, conseqüentemente, sua voz amadurecera também.

Além disso, é curioso observarmos como nossa voz se altera de acordo com os papéis que desempenhamos a cada momento. Em um contexto profissional, nossa expressão vocal é muito diferente da que utilizamos ao estarmos com a família ou com os amigos. Uma professora, por exemplo, leciona com uma voz bem distinta daquela com que fala com seus filhos, ao chegar em casa.

Nós, que temos deficiência visual, tendemos a ser bastante sensíveis ás nuances vocaisde quem está ao nosso redor, uma vez que a voz consiste em um importante referencial em nossa relação com os outros. Ela é um elemento essencial para que possamos gostar de alguém, e criar empatia por quem esteja ao nosso lado.

De fato, a voz é um verdadeiro retrato daqueles com quem convivemos, e um valioso meio pelo qual as pessoas se dão a conhecer.

Fabiana Bonilha, psicóloga é cega congênita, mestre e doutora em música pela Unicamp. Ela escreve semanalmente para o E-Braille e-mail: [email protected]