Publicado 13 de Novembro de 2013 - 7h59

Adolescentes internados na Fundação Casa durante entrevista: arrependimento dos erros cometidos

Leandro Ferreira/AAN

Adolescentes internados na Fundação Casa durante entrevista: arrependimento dos erros cometidos

Um diagnóstico feito pela equipe técnica da Fundação Casa de Campinas mostra que o perfil do adolescente infrator internado no município teve mudanças sensíveis em dois anos. Em 2011, 68% da renda familiar dos jovens era de até três salários mínimos e, o restante, de três ou mais salários. Este ano, houve equiparação entre as faixas de renda: 50% das famílias ganham até três salários e, a outra metade, três ou mais. Além disso, há dois anos, 60% das famílias tinham imóvel próprio ou financiado. Hoje, essa taxa é de 80%. O município tem 230 adolescentes internados em quatro unidades da Fundação.

Em relação aos delitos, roubo e tráfico de drogas continuam empatados na lista de causas para medidas socioeducativas. Profissionais da Fundação e especialistas afirmam que o salto no padrão de vida dos adolescentes é resultado de políticas assistencialistas e habitacionais para a população de baixa renda, combinadas com o bom momento econômico brasileiro. Entretanto, os índices não refletem imediatamente nas taxas de criminalidade entre menores porque muitos dos motivos para os atos estão relacionados a experiências vividas na primeira infância, ou seja, até 5 anos de idade.

O educador e chefe da seção técnica da Fundação Casa de Campinas, Hugo Lima Guimarães, afirmou que os indicadores desmistificam a lógica de que a criminalidade está ligada principalmente ao contexto econômico em que os menores estão inseridos. Para ele, programas como o Minha Casa, Minha Vida e o Bolsa Família deram apenas os direitos essenciais aos jovens, mas não resolveram problemas relacionados à falta de referência em casa ou na escola. Também não deram a esses jovens um poder de consumo real. “O que eles têm agora é ferramentas de subsistência. A mídia e a sociedade de consumo continua bombardeando os adolescentes com artefatos que eles não podem consumir. E isso é muito forte para alguém que ainda está em processo de formação de personalidade”, explicou.

Há sete anos trabalhando na Fundação Casa, Guimarães comprovou que a falta de afetividade no núcleo familiar e experiências conturbadas, principalmente na primeira infância, são motivos mais fortes para o jovem ingressar na criminalidade. “A resposta para o ato infracional nem sempre é fácil, pois envolve o desenvolvimento do sujeito. Envolve com quem a criança fica quando os pais vão trabalhar, em que ambiente, quem se torna referência para ela. Em um local onde o tráfico é sinônimo de poder e afirmação, isso se torna um objetivo para um menino”, completou.

A advogada e professora da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Fernanda Ifanger, concorda com a teoria de Guimarães. Autora de tese de mestrado sobre o impacto das medidas socioeducativas nos menores, Fernanda acredita que o ato infracional está mais ligado à aceitação em um grupo do que a questões econômicas. Segundo a advogada, a melhora do perfil econômico das famílias só terá impacto se os pais e a escola desempenharem melhor seu papel de referência para as crianças.

“Os adolescentes não racionalizam ao praticar um crime como um adulto. Ele faz algo motivado pela quadrilha e situação em que está inserido. Isso não é diretamente influenciado pelo contexto econômico, mas sim social, e mostra como as instituições, família e escola estão falhando na educação desse jovem”, disse.

Na tese, Fernanda tenta comprovar que punições que não excluam o jovem da sociedade são mais efetivas que internações. “Trabalhos voluntários, liberdade assistida e advertências se comprovaram mais eficazes quando o delito não tem alta gravidade e não é recorrente. Internação deve ser deixada para casos excepcionais, como homicídios”. Os dados apurados pela equipe técnica da Fundação serão apresentados hoje, às 13h30, no Plenarinho da Câmara.