Publicado 17 de Outubro de 2013 - 18h54

A Banda Bate Lata, que completa uma década neste ano, chega à terceira geração de crianças e adolescentes que atuam como percussionistas do grupo sem perder a meta proposta: educar para fomentar a participação social por meio dos princípios da arte-educação, que incentiva a convivência familiar, a cidadania e a inclusão social. Este programa da Fundação Orsa, nascido em Campinas e que se constituiu no primeiro da instituição, abriu caminho para uma série de outros que se espalharam pelo Brasil e superam mais de 1 milhão de atendimentos anuais.

A Banda Bate Lata – que recebeu no início deste mês o III Prêmio Criança do Brasil, criado para homenagear as crianças que se destacaram na dança, música, televisão e área social – desempenhou nesses dez anos de vida uma trabalho extremamente original que teve o reconhecimento de artistas como Chico César e Caetano Veloso. Para Chico César, que entende a arte como fator de inclusão social, a Bate Lata tem uma característica inovadora, já que consegue produzir música de boa qualidade com instrumentos improvisados e sucata. “Outra qualidade deste grupo”, diz, "é que toda vez que toco com eles percebo novos integrantes orientados pelos ‘veteranos’, e esta renovação é mais um sinal de que este projeto funciona e a cada dia dá novos frutos”.

Caroline Cardoso Silva, coordenadora do Programa de Inclusão Social e Construção da Cidadania (PISCC), no qual está inserida a Bate Lata, conta que, no início da atuação da Fundação Orsa em Campinas, mais especificamente na região do Jardim Santa Lúcia – onde a instituição instalou sua unidade na cidade –, as crianças e adolescentes percorreram o bairro à cata de latas, panelas velhas; todo tipo de sucata que pudesse ser transformada em instrumento de percussão.

Estava nascendo ali a Banda Bate Lata, grupo tomado por “chinelofones” (xilofones tocados com chinelos), “febre amarela” (grande lata de tinta ou óleo), “treme-treme” (surdo) e baterias de lata, que traz em seu repertório o Maracatu, o mangue beat e o samba, mesclados a composições próprias que revelam a realidade dos jovens músicos.

A Banda Bate Lata reúne 20 crianças e adolescentes que, aos 17 anos, deixam o grupo para serem substituídos pelos mais novos, segundo as regras estabelecidas pela Fundação Orsa para os 12 projetos hoje distribuídos por diferentes cidades brasileiras. A banda, com a venda do CD Gente é Pra Brilhar/ Não Pra Morrer de Fome, título de canção de Caetano Veloso incluída no disco lançado em 1999, e na média de três shows semanais, hoje divide a receita entre poupança para integrantes do grupo, projetos da fundação e manutenção da banda.

Rita de Cássia Simão Pereira, 16 anos, participa das oficinas da Fundação faz seis anos e integra a Banda Bate Lata há quase quatro anos. “Eu cheguei à Fundação por meio de meus colegas, e meu desempenho nas aulas de música permitiu que eu fizesse um estágio de três meses com a banda e não saí mais”, diz ela. “O projeto atende em horários alternados com o da escola e faz com que crianças e jovens sejam integrados à sociedade, participem mais e se comuniquem com outras pessoas”, comenta.

Com quatro irmãos e moradora do Jardim Santa Lúcia, Rita acha que não teria tanta chance de buscar seus objetivos de vida se não fosse o projeto. Aluna do segundo colegial, sua rotina antes de ingressar na Fundação se resumia a ir da escola para a casa da avó, onde ficava durante o dia, horário em que os pais trabalham. “Hoje eu tenho várias atividades, estudo comunicação para vendas de manhã, freqüento o Formação durante a tarde e estudo à noite, além de ensaiar no Bate Lata aos sábados. Também pretendo cursar uma faculdade após o ‘colegial’, só não decidi o curso”, diz.

Para Rita, as viagens da banda permitiram conhecer outras cidades e artistas conhecidos. “Poder conhecer pessoas como o Caetano Veloso e a banda Afro Reggae é uma fonte de inspiração e, mais do que isso, a Bate Lata permite que eu tenha contato com pessoas, vivências e ideologias completamente diferentes das que eu tinha”, avalia.

Juliano Santos Freitas, de 14 anos, percussionista da banda, tem seis irmãos e conta que a sua realidade atual é bem diferente de muitos amigos de escola, onde freqüenta a 6ª série do Ensino Fundamental. “Eu comecei a estudar tarde, pois tinha muitas dificuldades em casa.” Segundo ele, sua vida mudou muito depois que começou a freqüentar o projeto e entrou para a banda. “Antes, eu só estudava. Hoje, eu tenho uma atividade diferente em todos os dias da semana e ensaio na Bate Lata aos sábados”, comenta. O menino revela que seus colegas não ocupam o seu tempo livre. “A maioria fica na rua no período que não está na escola. Eu tenho várias atividades no Formação e ainda participo da oficina de música”, resume.

Transformação

Beto Adão, músico e educador da Fundação Orsa, hoje coordenador da Bate Lata e também professor da oficina de música do Formação, diz que a música tem o poder de transformar a vida de uma criança. Adão conta ter enfrentado uma infância difícil. “Com nove irmãos, a minha única opção era seguir ou seguir a criminalidade”, julga.

Adão explica que sua entrada para a banda Moleque de Rua, de São Paulo, indicou outras possibilidades. “Eu busquei a minha segunda opção, que foi seguir uma vida digna com a música.” Adão, 24 anos e com o quarto filho prestes a chegar, estudou música pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e dá aulas de teoria musical aos participantes da oficina de música do Formação durante a semana, além de organizar os ensaios da Bate Lata aos sábados.

Caroline Cardoso Silva, coordenadora do Formação I em Campinas, observa que, no projeto, os garotos são encorajados – pelas ações multidisciplinares e pelos princípios de “arte-educação” – a assumirem papéis sociais a que têm direito, os de protagonistas de suas próprias vidas, cultivando a auto-estima, a sensibilização, por meio da arte, e a perspectiva de geração de renda. Diariamente, segundo ela, os meninos participam de diversas atividades, como oficina de música, artes plásticas, dança, poesia, coral, capoeira, teatro e expressão corporal, além de informática e rodas de discussão.

Projeto Cidadão RAC-CPFL 2004 – Como participar: sugestões sobre projetos sociais desenvolvidos por voluntários e organizações da sociedade civil podem ser enviadas por carta para a Rua 7 de Setembro, 189 - Vila Industrial, CEP 13035-350 aos cuidados do jornalista Cacalo Fernandes ou pelo e-mail [email protected]

Orsa completa dez anos semeando o futuro

A Fundação Orsa, que desenvolve 70 programas e projetos sociais no País, começou suas atividades em Campinas há dez anos, quando uma de suas ações gerou a Banda Bate Lata. Para desenvolver modelos sociais efetivos e de longo prazo, as empresas do grupo, do setor de papel e celulose, passaram a destinar desde então 1% do faturamento bruto das unidades para a Fundação Orsa, numa política chamada de “recurso semente” pelos possíveis desdobramentos da ação.

Sergio Amoroso, presidente do Grupo, sentiu naquele início de anos 90 a necessidade de atuar na área social e buscar nela o mesmo sucesso atingido na área empresarial. “Para se construir uma vida melhor, precisávamos retribuir o que já havíamos ganhado”, conta o empresário. Nasceu assim a Fundação Orsa, com a missão de promover a formação integral da criança e do adolescente em situação de risco pessoal e social.

O projeto Formação I, de Campinas, atendia 80 jovens em 1994, com o repasse de R$ 225 mil. A Fundação Orsa cresceu depois de forma impressionante. Com investimento de R$ 52.184.377,00, a instituição ampliou sua atuação para cerca de 70 programas e projetos em dez anos de existência. E a Fundação já superou a casa de 1 milhão de atendimentos por ano, tornando-se modelo de gestão social, o que lhe trouxe vários prêmios e reconhecimento internacional.

A proposta da Fundação Orsa é de que ela atue como “sementeira”, ao estabelecer um modelo de ação que, depois de testado e aprovado, consolida-se como um programa, uma “semente” que pode ser disseminada pela Fundação ou por outras organizações, tanto do setor privado como do setor público. “O terceiro setor não tem o papel de substituir o Estado, mas o de somar. Junto com governo, universidade e iniciativa privada, teremos uma rede capaz de transformar o social do País”, diz Sergio Amoroso.

Com o sucesso do Formação I, parte do Programa de Inclusão Social e Construção da Cidadania (PISCC), onde surgiu a Banda Bate Lata, a Fundação desenvolveu um segundo projeto, em Suzano (SP), e expandiu para 12 projetos Formação espalhados pelo País.

A instituição estruturou-se para ampliar o alcance nas áreas de educação, saúde e promoção social, outras frentes consideradas prioritárias para a formação integral da criança e do adolescente, estendendo também a atuação às famílias e comunidades.

A Fundação Orsa conta com equipe técnica multidisciplinar formada por 766 profissionais, 18 deles sediados em Campinas, na unidade em que nasceu a Banda Bate Lata e que funcionou como multiplicadora dos muitos programas e projetos que vieram depois.

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