Publicado 17 de Outubro de 2013 - 14h33

Paulo Martinelli

DA AGÊNCIA ANHANGÜERA

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Ele tem apenas 4 centímetros, mas tem o potencial de parar uma cidade, causando a suspensão do fornecimento de energia elétrica ou de água. Na verdade, ele já é a causa de muito prejuízo, tanto econômico como ambiental. A criatura em questão: mexilhão-dourado, oriundo do sudeste asiático, um invasor que chegou à América do sul e ao Brasil a bordo de navios, no lastro de água usado para dar estabilidade às embarcações. Prolífico e adaptável, o mexilhão-dourado é o exemplo acabado de conseqüências desastrosas impostas pela introdução - acidental ou intencional - de espécies exóticas, animal ou vegetal, num determinado ecossistema. Os exemplos se repetem mundo afora, sempre com resultados negativos para o ambiente, para a economia e, com freqüência, para a saúde das pessoas (o mosquito Aedes aegypti, por exemplo, que não é nativo do Brasil e nos transmite a dengue).

O mexilhão-dourado remete, aliás, a outro molusco invasor que ascendeu ao Olimpo das pragas nacionais, o indesejável caramujo-gigante-africano (Achatina fulica), introduzido no País clandestinamente há 20 anos para fins comerciais, como substituto do refinado scargot. Neste caso, houve uma fusão de desonestidade com ignorância.

Molusco bivalve (duas conchas) da família Mytilidae, o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) vive em água doce e salobra e faz estragos onde chega. Ele se instala no casco e nos motores das embarcações, afetando a hidrodinâmica e atrapalhando a navegação. Ele se insere e procria nas tubulações dos sistemas de captação de água para consumo humano, agrega-se em colônias às paredes dos dutos, procria e, se não for combatido, pode obstruir os canos. Se entrar e se espalhar nas turbinas ou sistemas de arrefecimento de hidrelétricas, pode comprometer a geração de energia.

Sem predadores à altura, o resistente molusco compete com as espécies nativas e leva a melhor, causando desequilíbrios ecológicos. O Limnoperna fortunei, assim como outros invasores, pode inclusive vir a ser a causa da extinção de criaturas de nossa fauna.

De acordo com a bióloga Maria Cristina Mansur, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em pouco mais de dois anos o mexilhão alterou a paisagem no lago Guaíba — na região de Porto Alegre — “diminuindo a flora ripária (plantas das margens), sufocando a fauna bentônica (organismos dos corpos aquáticos) e transformando nossas praias arenosas e as margens vegetadas por juncos, em amontoados de conchas enegrecidas, que cortam os pés do turistas inadvertidos, trancam as redes dos pescadores e, quando as águas baixam no verão, (os mexilhões) acabam morrendo e exalando um cheiro insuportável”. Maria Cristina foi pioneira na detecção do molusco no País em 1998.

Globalização

O alastramento do mexilhão-dourado é resultado da globalização, da intensificação do comércio internacional por via aquática e da interferência humana no meio ambiente. Semelhante a um marisco, o molusco penetrou em águas doces brasileiras pelo Sul. De lá, começou a subir pelas bacias dos rios Paraná, Uruguai e Paraguai e já atingiu o Pantanal. Como os rios da região de Campinas integram a Bacia do Paraná, não é difícil imaginar que o bicho um dia possa chegar aqui.

Com um ciclo de vida que envolve uma fase larval, no qual o organismo sobrevive livremente nas águas, e uma fase adulta, na qual o animal gruda a superfícies submersas, o mexilhão conta com a ajuda humana para se espalhar, aderindo a barcos, ou na forma larval em restos de água ou plantas aquáticas.

O potencial de danos do mexilhão vem mobilizando cientistas, engenheiros e autoridades de diferentes esferas. Por pressão da Organização Marítima Internacional, o Ministério do Meio Ambiente chegou a instituir uma força-tarefa nacional composta por sete outros ministérios, agências nacionais setoriais, Marinha, entidades ambientais, Polícia Rodoviária Federal e 13 entidades do setor de geração de energia. Contudo, revela Maria Cristina, a força-tarefa não rendeu resultados e acabou extinta. “Até agora as ações preventivas dos órgãos governamentais estão no papel”, afirma a bióloga, que atualmente integra um grupo que estuda o organismo invasor e formas de combate.

Energia

Geradoras de energia elétrica têm entre suas principais preocupações o mexilhão. Até agora não houve paralisação de equipamentos. É o caso de Itaipu - responsável pela geração de 1/4 dos cerca de 335.411 GWh de energia elétrica consumida anualmente no País — garante Domingo Rodriguez Fernandez, veterinário especialista em fauna aquática da concessionária Itaipu Binacional. Lá se convive com a praga desde 2001 e são necessárias limpezas periódicas em dutos e monitoramento constante, informa Fernandez.

O combate ao bicho envolve, além de campanhas de esclarecimento, estudos de metalurgia e química (sobre materiais nos quais o organismo não conseguiria aderir e substâncias que o matem) e biologia (avaliação do uso e identificação de microorganismos e predadores do mexilhão-dourado, dispersão do molusco, preferências e outros dados que facilitem o controle). O organismo é, também, tema de dezenas dissertações de pós-graduação e artigos na mídia científica especializada.

Para Maria Cristina, “a prevenção é mais aconselhável, pois produtos ou medidas não testados são muito arriscados se lançados diretamente na água bruta. Podem comprometer outros animais, o ambiente, atingir o homem ou se tornar pior que o próprio molusco invasor”. Como o organismo já está no Pantanal, não é difícil que ele chegue à Amazônia, teme a bióloga. O assunto já repercutiu inclusive no exterior e chegou à rede de comunicação inglesa BBC, que veio ao Brasil gravar documentário sobre a praga.

Nós também ‘exportamos’nossas pragas

O Brasil não é apenas “importador” de pragas exóticas. Também participamos do intercâmbio de problemas ambientais mandando para fora seres indesejados. Os Estados Unidos estão entre nossos principais “clientes”. Já chegou lá, nos estados do Sul do País, um odiado habitante de nossos gramados, a agressiva formiga lava-pé, que deve ter ido ao Hemisfério Norte a bordo de navios. O inseto só não é mais temido que outro invasor tupiniquim, a abelha africana — fruto de experiências genéticas no Brasil — que tem em sua folha corrida lá centenas de mortes humanas. Mas o caso mais interessante é o do nosso sapo-cururu, levado para a Austrália intencionalmente na década de 30, com o objetivo de combater insetos que atacavam canaviais. Os anfíbios verde-amarelo não comeram as pragas locais e viraram eles próprios a praga, espalhando-se pelo país. Donos de um veneno muito tóxico, os cururus causam o declínio das populações de diferentes espécies de cobras e lagartos australianos, seus predadores. Sem bagagem biológica para agüentar o veneno dos sapos, tais répteis acabam por morrer quando eventualmente atacam um cururu.(PM/AAN)

OS NÚMEROS

US$ 1,4 TRILHÃO - É a estimativa da Universidade de Cornell, EUA, sobre prejuízos causados anualmente no planeta por espécies exóticas invasoras. O número corresponde a cerca de duas vezes o PIB do Brasil

7 mil ESPÉCIES - É a estimativa do Ministério do Meio Ambiente para a quantidade diária de espécies de invertebrados marinhos, bactérias transmissoras de doenças e outras criaturas que transitam pelo globo a bordo do lastro de navios