DESAFIO URBANO

Calçadas de Campinas são desafio para pedestre

Descaso do poder público e falta de educação dos moradores que transformam calçadas em montanhas de lixo

27/10/2013 - 11h00 | Guilherme Busch
guilherme.busch@rac.com.br

Foto: Leandro Ferreira/AAN
Homem caminha pela rua Coronel Joaquim Monteiro, na Vila Teixeira
Homem caminha pela rua Coronel Joaquim Monteiro, na Vila Teixeira

As calçadas de Campinas são um verdadeiro desafio para quem precisa se locomover a pé pelas ruas da cidade. Uma simples caminhada pode se tornar uma aventura de risco em meio a pisos irregulares, buracos, trechos em desnível, muito lixo, entulho e até animais mortos. Sem fiscalização da Prefeitura e à mercê da falta de educação dos próprios moradores, locais concebidos para tornar os caminhos mais suaves se transformam em armadilhas urbanas por toda a cidade.

A reportagem do Correio Popular fez uma expedição na última terça-feira para mapear o atual cenário das calçadas de diversos bairros de Campinas. Uma equipe de jornalistas percorreu, a pé, cerca de 12 km entre o Jardim Ipaussurama, no extremo Noroeste da cidade, até o Centro de Convivência Cultural, no Cambuí (área central).

Ao todo, foram cerca de cinco horas de caminhada atravessando bairros como Jardim Roseira, Jardim Londres, Campos Elíseos, Jardim Garcia, Vila Teixeira, Vila São Bento, Vila Saturnia, Vila Industrial, Botafogo, Centro e Cambuí.

A constatação é de que a situação é precária e mais complicada em áreas afastadas do Centro. Os problemas mais comuns encontrados são o lixo acumulado, em sacos ou espalhado, piso irregular, desníveis e buracos. Mais longe dos olhos do poder público, os moradores de bairros da periferia parecem se preocupar menos com a manutenção do passeio público. Montanhas de lixo e terra tomam o espaço que deveria ser dos pedestres. Assim, acabam sofrendo mais. Não há, por exemplo, rampas para cadeirantes.
Mas, no Centro, a situação também não é adequada. Além de, em muitos casos, as calçadas serem estreitas demais, a região tem problemas com lixo, pisos irregulares e falta de rampas de acessibilidade.

O artigo 1º da lei 10.618/00, da Prefeitura de Campinas, que regulamenta o uso e a ocupação do solo na cidade, diz que a largura mínima das calçadas na cidade tem que ser igual ou maior do que 1,5 metro. Além disso, diz também que a declividade máxima tem que ser de 12%. Mas não é o que se vê pelas ruas.

O reflexo automático da falta de estrutura das calçadas obriga os pedestres a andar pelo meio da rua, o que aumenta o risco de atropelamento. Em alguns casos, como na Avenida John Boyd Dunlop e no entorno da Rodoviária, o grande fluxo de veículos é um agravante de risco para a segurança das pessoas. Percurso
A aventura da reportagem começou na Avenida Homero Vasconcellos de Souza Camargo, Jardim Ipaussurama, por volta das 9h30 da última terça-feira. Logo de cara, mato alto, piso irregular e montes de terra espalhados pela calçada.
A dona de casa Maria do Rosário, que mora no bairro há 36 anos, afirmou que já se acostumou a caminhar pela rua por conta do estado de conservação das calçadas. “Tem muito mato, lixo. É mais fácil andar pela rua, mas sempre tem um risco”, disse. Ela estava com a filha, Andréa Nogueira, que levava o filho Victor Gabriel no colo na rua Lourenço Zen.

Um pouco adiante, na Rua Alzira Vieri, o fotógrafo Fernando Souza recolhia garrafas e latas jogados na frente de sua casa. Ele reclama de vizinhos que deixam o lixo no local. Mas a calçada da sua casa é um exemplo de como as coisas não devem ser. Há uma mureta no limite com a casa vizinha, o que dificulta o trânsito de pedestres. Além disso, galhos espalhados impedem a passagem em um dos trechos do passeio. “O brasileiro não tem educação”, disse, referindo-se ao lixo.

John Boyd Dunlop
Uma das vias de maior movimento de Campinas, a Avenida John Boyd Dunlop tem carência de boas calçadas. No trecho onde fica a Pontifícia Universidade Católica (PUC), do lado oposto do campus, simplesmente não há pavimentação. Os pedestres precisam andar por uma pequena trilha em meio ao mato e ao lado de um pesado tráfego de ônibus e caminhões. “Sou obrigada a passar por aqui todos os dias. É perigoso, mas não tem jeito”, disse a dona de casa Maria Aparecida Passos, que mora no Jardim Londres. Na Rua Pedro Tórtima, na Vila Teixeira, nem o asfalto escapou do descaso. O mato que domina a calçada começou a nascer na pista. Sofás, cadeiras e até aparelhos eletrônicos foram simplesmente descartados na área, que fica às margens do antigo leito do VLT.



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