Publicado 19 de Maio de 2013 - 17h41

Por Maria Teresa Costa

Imagens de hominídeo que estão sendo mostradas na exposição Faces da Evolução, em Curitiba

Divulgação

Imagens de hominídeo que estão sendo mostradas na exposição Faces da Evolução, em Curitiba

Um software livre desenvolvido pelo Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI), em Campinas, para auxiliar o diagnóstico e o planejamento cirúrgico está sendo usado para reconstituir o rosto de hominídeos que viveram há milhões de anos em diversos pontos do planeta. O InVesalius já auxiliou pesquisas em múmias, reconstruiu a ossada de um crocodilo pré-histórico do fim do Período Cretáceo no Brasil (145 milhões de anos) e agora está sendo um exercício virtual para trazer à tona a cara dos antepassados da raça humana.

Cro-Magnon, mais antigo resto de Homo sapiens achado na EuropaHomo floresiensis, que viveu em ilha da Indonésia há 13 mil anosUma ferramenta importante para o software é a tomografia computadorizada, a partir da qual o crânio é reconstituído. Mas, no caso, o artista gráfico Cícero Moraes partiu para o uso de escaneamento 3D a partir de fotos. Os crânios dos hominídeos — réplicas que integram o Museu Arqueológico de Ponta Grossa (PR) — foram fotografados pelo arqueólogo Moacir Elias Santos, professor de história e arqueologia no Centro Universitário Campos de Andrade (Uniandrade).

Ele enviou um conjunto de fotografias de qualidade “excelente” para a conversão em 3D. “A técnica de escaneamento 3D a partir de fotografias teve a vantagem de dispensar o uso de tomografia computadorizada, que barateia e agiliza.”

A primeira reconstrução foi a de um Australopithecus afarensis, que viveu entre 2,5 a 3,9 milhões de anos atrás e foi considerado por muito tempo o ancestral direto do gênero Homo, em especial da espécie Homo erectus. Moraes explicou que usou imagens tridimensionais desse crânio para conseguir músculos e pele de forma a ter uma imagem próxima do que teria sido esse antepassado. Usou ainda a tomografia de um chipanzé deformada até que ela se adequasse ao shape (forma, em inglês) do crânio do Australopithecus.

Depois, foi a vez do Homo erectus pekinensis, descoberto durante escavações de 1923 a 1927 na China e com 250 mil a 400 mil anos. Moraes explica que, nessa reconstituição, em vez de usar a tomografia de um chimpanzé como referência, usou a de um homem moderno, também deformada até se adequar à forma do crânio do hominídeo

Na reconstrução do Cro-Magnon, restos mais antigos conhecidos na Europa de Homo sapiens, espécie a qual pertencem todos os seres humanos modernos, Moraes usou marcadores de profundidade de tecidos.

Para modelar o Homo habilis, que viveu entre 2,5 milhões e 1,9 milhão de anos, foi preciso, segundo Moraes, reconstruir boa parte do seu crânio utilizando como base a tomografia de um chimpanzé devidamente deformada. Essa espécie já não vivia mais em árvores como seus antepassados. O Homo habilis foi o primeiro a construir e usar ferramentas de pedra lascada, o que lhe valeu o nome específico: habilidoso. As ferramentas eram de ossos, madeira e pedra.

O passo a passo do processo de reconstrução feito por artista gráfico a partir do escaneamento de fotos 3D de um réplica de crânio

Na lista dos que foram reconstituídos, está o Homo floresiensis, que viveu na Ilha de Flores (Indonésia) até há 13 mil anos. Ele é conhecido através de um esqueleto completo de uma mulher, a que foi dado o nome de Hobbit, e de seis outros indivíduos em diversos estados de conservação. Para recuperar o rosto, o crânio não foi escaneado por foto e nem reconstituído a partir de deformação de outros, como nos demais antepassados. Dessa vez ele esculpiu usando como referância um processo que se assemelhou a uma tomografia manual, partindo de várias imagens do crânio em 2D.

SAIBA MAIS

O InVesalius é um software público para área de saúde que visa auxiliar o diagnóstico e o planejamento cirúrgico. A partir de imagens em duas dimensões (2D) obtidas através de equipamentos de tomografia computadorizada ou ressonância magnética, o programa permite criar modelos virtuais em três dimensões (3D) correspondentes às estruturas anatômicas dos pacientes em acompanhamento médico.

Escrito por:

Maria Teresa Costa