Publicado 16 de Maio de 2021 - 5h30

Nestes dias de recolhimento forçado, de isolamento, em nossos respectivos refúgios somos conduzidos à leitura, ao trabalho junto aos computadores e à reflexão, tanto sobre os acontecimentos do mundo exterior, acompanhados através dos diversos meios de comunicação, quanto sobre a nossa própria conjuntura existencial.

Muitos dos que escrevem sobre o tema têm procurado associá-lo às narrativas constantes do Decameron, escrito por Giovanni Boccaccio, tendo como pano de fundo a peste que, naquele século 14, se abateu sobre a Europa: um grupo de jovens se reúne numa casa de campo, nos arredores de Florença, e se entretêm com o relato das cem novelas que compõem o livro. Também são recordadas outras pestes, como a que vitimou os gregos e relatada por Tucídides, em sua História da Guerra do Peloponeso; ou como a narrada no romance A Peste, de Albert Camus.

Aqui, neste recanto do Caderno C, prefiro ressaltar episódios de recolhimento voluntário – e produtivo, quando a interiorização causada pela solidão se resolveu em atividade criativa –, no campo das artes e das letras.

Já foi lembrado o caso de Rilke, que se isolou num castelo, nos Alpes suíços, para se entregar a um verdadeiro transe criativo, produzindo uma preciosa série de poemas, entre eles os Sonetos a Orfeu.

Gustave Flaubert, a partir do ano de 1845, deixa Paris, rumo à pequena localidade de Croisset, onde, de sua pena laboriosa, sempre à procura do “mot juste” (a palavra justa, exata), brotaram obras-primas da literatura universal, como Madame Bovary, Salambo e o inacabado Bouvard et Pécuchet.

Ne mesma França, Marcel Proust permaneceu em Paris, mas, a partir de 1919, passou a residir no prédio da Rua Hamelin, 44, onde se dedicou exaustivamente, até mesmo em seu leito de doente (que seria também seu leito de morte), à redação do monumento literário que é Em Busca do Tempo Perdido, por essa forma trazendo o mundo para dentro de seu quarto.

Nas artes plásticas são diversos os exemplos: o holandês Vincent Van Gogh, retirando-se para a região de Arles, na Provença, onde pintou algumas de suas telas mais notáveis (e onde decepou a orelha), e seu amigo Paul Gauguin, que foi mais longe, até o Taiti, onde produziu a série de quadros que hoje representam a face mais distintiva de sua obra. Outro holandês, igualmente genial, Jan Vermeer, escolheu a própria casa como objeto de sua pintura, cujos interiores foram obsessivamente reproduzidos (e é o silêncio o que transparece nessas telas), com preferência para o retrato de figuras femininas, quase sempre com uma janela localizada no lado esquerdo, por onde se filtra a luz solar, diáfana intervenção do mundo exterior.

Já na área da música popular, especificamente do jazz, o trompetista Miles Davis, num esforço para se libertar do vício da heroína, confinou-se numa propriedade rural de seu pai, no Illinois, decidido a encarar a “besta”, até que finalmente se restabelecesse e retomasse a atividade musical, consolidando-se como um dos expoentes do jazz (mesmo que nesse percurso sofresse recaídas). O saxofonista Sonny Rollins, entre os anos de 1959 e 1960, retirou-se da cena musical, para um período sabático, e passou a praticar o seu instrumento na ponte novaiorquina de Williamsburg, em busca do som perfeito.

Voltando à literatura, Michel de Montaigne, em certo momento de sua trajetória, no ano de 1570, decidiu afastar-se da vida pública e recolher-se à propriedade da família, refugiando-se numa das torres do castelo para se concentrar na leitura e na redação de sua obra, em que se sobressaem os Ensaios, nos quais filosofa sobre tudo, num linguajar fluente, como quem contasse “causos”.

Mas vem do poeta Arthur Rimbaud o exemplo mais radical: ainda antes dos vinte anos afastou-se de Paris, afastou-se de sua cidade natal, Charleville, e, para renunciar de maneira drástica a escrever qualquer verso que fosse, recolheu-se ao mundo.