Publicado 13 de Maio de 2021 - 5h30

Ainda aprendo, com dificuldade e alguma curiosidade, esses sutis gestos de horror que dominaram o espaço entre mim e o outro. Se antes tal meio parecia esvaziado, agora acolhe a coreografia da tragédia que escapa à cena e se realiza no hall do condomínio, na calçada, nos corredores do mercadinho, onde cabe apenas uma pessoa por vez: devo olhar antes de avançar, ter certeza de que estarei só enquanto o outro, que também precisa fazer seu bolo, titubeia, dá um passo atrás, tenta não violar meu cordão imaginário de isolamento. E se por acaso erro o passo a dança desanda, como o creme que pretendia confeitar com este açúcar, essência, desejo. Os humores, vencidos, talham. A paranoia fermenta admiravelmente, por sua vez. Confunde-se com o cuidado comigo e com meus semelhantes, assassinos potenciais. Isolamento tornou-se atitude social. Cárcere privado eletivo. Os paradoxos não se eximem de aparecer para um café amargo. Dia desses, no trabalho, anunciou-se: ao manter distância você mostra ao colega que se importa com a vida dele. Não fosse terrível, seria divertido. Não fosse atroz, não sei. O tempo dirá. Espero. Mesmo os gestos mais estranhos, aos poucos, tornam-se banais. Há duas semanas eu diminuía o ritmo na calçada para observar meu reflexo mascarado nos vidros dos carros estacionados. Ontem fui beber água e a derramei por todo esse mesmo filtro que me cobre a boca, nariz, corpo, família, futuro.

***

Do alto das minhas janelas

Vejo nada e o nada me devolve o olhar, incorporado

nos demais moradores de apartamento alocados

diante de mim, atrás, ao redor, de esguelha

eles me olham do alto das suas janelas

não porque têm interesse, veja bem

na verdade eles não têm

nada melhor para ver, sou

o que lhes resta, o seu nada e

ao mesmo tempo tudo

o que resta

neste fim de mundo sem fim

nas alturas intermináveis, as horas

enquanto lá embaixo corre a imaginação

– o risco, o medo, o estranhamento

eles habitam algum lugar antes conhecido

onde estive sem saber, sem me dar

conta do que podia vir a ser

hoje sei? espero

enquanto certa invisibilidade traiçoeira

aguarda, permeia, infiltra

não se deve agir como se nada estivesse acontecendo

e o nada acontece, de fato

realiza-se diante de mim

eu o vejo através das minhas janelas translúcidas

tão evidente que lá está

em algum lugar – quem duvida? daí

pretendo ver sem incomodar, ouso

ser visto para estar vivo, ser

reconhecido como um corpo

são – não apenas uma ameaça

eu que nunca liguei para isso, que preferi

passar despercebido, hoje me incomodo

com aquele que se oculta

nas cortinas para me evitar e evitar

cruzar os olhos comigo, mesmo

a uma distância segura, maior do que

os dois metros

os doze andares

as quatro semanas

a meio caminho do céu.

***

Os dois excertos e a imagem acima compõem as Cartas da pandemia, que tenho organizado junto com minhas companheiras do Grupo de Experimentações Poéticas e Políticas do Sensível como um canal de diálogo, expressão e acolhimento nestes tempos conturbados que vivemos. Conforme a proposta publicada no site www.gepps.com.br, são mensagens sem remetente ou destinatários específicos; mapas da pandemia formados por impressões, pensamentos, desejos de compartilhar uma palavra ou uma imagem inspirada na reorganização da vida imposta pelo novo coronavírus.

Todos estão convidados para essa composição coletiva, sem autoria identificada. As orientações a quem quiser participar se encontram no próprio site. Colaborações chegam de lugares diversos e são publicadas numa estrutura de diário. Fotografias, poesias, desejos, relatos, manifestos, entre outros, os quais sugerem formas de elaboração da experiência cotidiana e nos chamam a compartilhar dessas trajetórias anônimas.

Nos interessa a ambiguidade do termo “cartas”, que se refere tanto a mensagens quanto a mapeamentos de um território incerto, explorado por cada pessoa à sua maneira, com a sua singularidade e fatualidades.

Entre elas há quem não saiba falar com precisão e balbucie, há quem não queira usar palavras, quem precise dizer ou mostrar para se ouvir e ainda quem apenas precise ler para pertencer. Vamos assim tecendo uma rede de conexões imprevisíveis na tentativa de partilhar sensibilidades e, com sorte, algum senso de comunidade.