Publicado 11 de Maio de 2021 - 19h05

Da janela da casa vi, ao longe, sobre o oceano, a nuvem negra. Era massa com aparência compacta e longa, que começou a ser tão mais amedrontadora no instante em que percebi que fazia grande calmaria. Aprendi, nas minhas muitas andanças pela Amazônia, onde nasci, que nuvens exageradamente escuras e falta de vento são prenúncios de tempestades poderosas. Ainda mais que as ondas, vindas do mar aberto, eram altas, fortíssimas.

As chuvas, naquela região do litoral atlântico do Pará, transcendem às simples utilidades dos fenômenos meteorológicos. Não servem, por exemplo, para encher represas, porque, ali, elas não existem. E se, de alguma forma, influem nas nascentes de onde as pessoas retiram água para beber ou mais, é tal a quantidade de rios e igarapés que nunca ligamos suas perenidades, ou não, aos aguaceiros que de repente pintam, como aquele que estava diante de mim. Em resumo acho que as chuvas, na Praia do Camaburú, são superiores instantes mágicos. Em que a natureza se limpa como parte de sua eternização.

Desço para a praia no instante em que a nuvem havia escurecido metade da enseada. A ventania forte, que certamente viria no instante em que a água começasse a cair, já soprava, vergando, ainda docemente, as palmas dos coqueiros e agitando os galhos da floresta próxima. Me dirigi ao quiosquezinho no Porto dos Pescadores.

O dono da venda retira, de uma tosca geladeira movida a querosene (lá não há luz elétrica), uma cerveja não estúpida, mas deliciosamente gelada. Enchendo o copo com o colarinho alto, puxo conversa:

— Tempinho feio, não é mesmo?

Ele respondeu na base de um murmúrio, e saiu pela porta da frente. Levantei e o vi se dirigindo para o pequeno ancoradouro, onde começou a reforçar as amarras de um único barco. No que o homem volta, insisto:

— Esse tempo é comum por aqui?

— Chuva de verão – respondeu de forma que, a julgar pela primeira tentativa que fiz de diálogo, me pareceu algo loquaz.

— O vento poderia fazer o barco se soltar? – Apontei.

— É – ele tornou ao seu poder de síntese.

Efetivamente disposto a dialogar, vou em frente:

— Ventania muito forte pode até arrancar coqueiros, certo?

Não deu para ouvir resposta, pois, mal acabo de falar, estalou um daqueles trovões que só achamos possíveis em fitas com John Wayne em ação nalguma remota ilha dos Mares do Sul. Imediatamente o vendeiro se benze e, com insuspeitada agilidade pega um pano e cobre velho e desbotado espelho com antigo reclame do “Phymatosan”. Diante daquilo confesso que não senti exatamente medo. Mas, digamos assim, certa reserva.

— Raio? – Aponto para fora.

— Fique longe da porta – ele cicia, indicando cadeira num discreto canto.

Enquanto isso, percebo que um velho e sarnento cachorro se esconde sob a mesa. Passando como uma flecha, gordo gato se enfurna pelos vãos da palha enquanto, pela janela, avisto galinhas, patos e perus que corriam, atarantados, pelo terreiro batido pelo vento agora forte.

O homem da venda senta junto ao balcão; e era tal o tom de gravidade que havia em sua expressão que não só desisti de qualquer novo diálogo como segurei as pontas no desejo de pedir outra cerveja. Nessa altura dos acontecimentos os bagos, enormes, começavam a bater na palhoça. Em torno, nenhum, nenhum outro barulho além dos gerados pela tempestade: o mar batendo, a ventania soprando, e os trovões, seguidos pelos clarões de raios com absoluta certeza tirados dos tais filmes com John Wayne.

Meio a medo, levantei e fui à porta. O fulano, a seu canto, me fuzilou com um olhar reprovador, porém fiz que não notei. Para os lados da enseada não se enxergava nada, absolutamente nada que não fosse a compacta parede da água que despencava. Num primeiro plano a chuva parecia tanta que o próprio vento forte era incapaz de abrir vãos na massa líquida. Com um novo raio que pareceu explodir a menos de dez metros, voltei ao meu cantinho e, na falta de outra coisa, esperei. Nisso, com a mesma rapidez com que começou, o vento parou. A intensidade da chuva idem. No instante em que estourou no ar, como bom presságio, o canto do primeiro bem-te-vi, o dono da venda pareceu despertar. Veio a mim e perguntou, as feições descontraídas e um meio sorriso simpático no canto dos lábios:

— Quer mais uma cerveja?

Levantei o polegar direito, fui servido e enchi o copo para um grande gole que o esvaziou, seguido de outro com o mesmo destino. Saio e vou andando, descalço, pela terra molhada no entorno do Porto dos Pescadores. Os bem-te-vis, estes arautos do bom tempo, cantavam por todos os lados. Do céu, agora azulíssimo e lavado, vinha um aroma bom, de mundo limpo. Me encostei num coqueiro. E, simplesmente, fui feliz.