Publicado 10 de Maio de 2021 - 19h05

Em edição comentada do livro do poeta italiano Eugenio Montale (1896/1981) Ossi di seppia, destaca-se a série de quatro poemas sob a denominação de Sarcofaghi. Segundo os comentários, o conjunto representaria exemplo de moderna retomada de uma ilustre tradição da poesia dita sepulcral. Poesia em que o poeta, diante do túmulo ou das imagens e inscrições de suas lápides, celebra a memória de alguém querido ou admirável e medita acerca da finitude de nossa existência. Assim, no primeiro desses poemas Montale detém-se na contemplação do baixo-relevo esculpido em lápide tumular, e indaga “Dove vano?”; a indagação é endereçada às imagens das “donzelas que, com passo firme e ligeiro, carregam ânforas sobre os ombros”, mas visando, na realidade e mais amplamente, interrogar para onde caminham todos.

Os comentários ainda se reportam aos modelos presentes na obra de Leopardi, admirados por Montale. Nos Cantos legados por Giacomo Leopardi (1798/1837), personagem exponencial do romantismo italiano, figuram poemas como o célebre O Infinito (que se encerra com esse verso primoroso: “E il naufragar m’è dolce in questo mare”), Le Ricordanze (cujo verso inicial, “Vaghe Stelle dell’Orsa”, serviu como título de um dos filmes de Lucchino Visconti) e, particularmente, “Um basso rilievo antigo sepolcrale”, no qual uma jovem morta é representada no “ato de partir”. Como no poema de Montale, o poema também se inicia com a indagação: “Dove vai? Chi ti chiama?”.

Os poetas da escola romântica, que primaram pela subjetividade, pela ênfase ao sentimental e ao confessional, frequentaram com assiduidade esse tema. Na França, Victor Hugo (1802-1885) escreveu um poema de extrema delicadeza, onde diz que “amanhã, ao alvorecer, à hora em que os campos alvejam, eu partirei. Vê, eu sei que tu me esperas. Eu irei pela floresta, eu irei pela montanha...”. Somente nos versos finais é que se revelam o motivo da caminhada e o local do encontro: “E quando eu chegar, colocarei sobre tua tumba um punhado de azevinhos verdes e de urzes em flor” (no original, naturalmente, soa mais bonito: “un bouquet de houx vert e de bruyère en fleur”).

Ao gênero também se podem filiar (mas fugindo aos seus padrões) os “tombeaux” em que Mallarmé (1842-1898) homenageia Baudelaire e Edgar Allan Poe. É no mesmo sentido de homenagem que se dirige a obra Le Ceneri de Gramsci, escrita pelo cineasta Pier Paolo Pasolini (Teorema, O Evangelho segundo São Mateus), belo e comovido poema que evoca a memória do pensador e militante italiano Antonio Gramsci, preso pelo fascismo por mais de uma década e cujas cinzas repousam no Cemitério Inglês, em Roma, não longe da tumba de Shelley. Palavras de Pasolini: “tu morto, e nós igualmente mortos, contigo, no úmido jardim. Não podes senão repousar neste sítio estranho, ainda confinado”.

À poesia de caráter sepulcral não ficou indiferente a poesia brasileira. São conhecidos o poema A Cruz da Estrada, de Castro Alves, e sua estrofe inicial: “Caminheiro que passas pela estrada / seguindo pelo rumo do sertão / quando vires a cruz abandonada / deixa-a dormir em paz na solidão”. Ainda que observando os cânones do gênero (o caminhante que se detém perante a tumba, deposita flores e prossegue sua caminhada), os versos do poeta baiano destacam-se por uma particularidade: ao contrário da mirada tradicional, o sepulcro a que ele dedica o poema não é dotado de qualquer lápide, baixo-relevo ou escultura de anjos: trata-se de uma cova rasa, apenas encimada por uma cruz singela e tosca, e sob ela jaz o cadáver de um escravo (“é de um escravo humilde sepultura”). Mesmo ao abordar o tema, Castro Alves não abdica de sua militância e de suas convicções libertárias. Por isso, assim finaliza o poema, intenso e vibrante: “Caminheiro! Do escravo desgraçado / o sono agora mesmo começou! / Não lhe toques no leito de noivado, / Há pouco a liberdade o desposou”.