Publicado 06 de Maio de 2021 - 5h30

A tevê proporcionou a Alexandre Nero uma reinvenção pessoal. Ator, defensor de um teatro mais “raiz”, há exatos 10 anos ele sentiu pela primeira vez o poder de visibilidade do vídeo. Como resultado, não conseguiu se afastar mais dos estúdios e muito menos dos holofotes. Celebrado e disputado por autores e diretores, Nero está novamente no centro da ação em Onde Nascem os Fortes, atual produção das onze, na qual vive o poderoso Pedro Gouveia. “A tevê me mostrou que é possível ser abrangente e complexo ao mesmo tempo. Tenho vivido personagens extremamente instigantes e o Pedro entra nessa galeria de ‘cutucar’ o telespectador sobre o lado bom e ruim das pessoas”, destaca Nero.

Natural de Curitiba e radicado no Rio de Janeiro, Nero se orgulha da breve, mas intensa trajetória televisiva que vem construindo. A estreia foi ao lado de Lília Cabral em A Favorita, de 2008. O sucesso do verdureiro analfabeto Vanderlei acabou o levando para outras produções de imediato, como Paraíso e Escrito nas Estrelas.

O encontro com o público, entretanto, só se deu a partir de Fina Estampa, de Aguinaldo Silva, onde viveu o bruto motorista Baltazar. “O horário das nove é diferente. É onde as pessoas realmente enxergam os atores”, valoriza. Foi Aguinaldo, inclusive, que viu em Nero a capacidade de atuar como protagonista, posto que o ator assumiu em Império, de 2014, e repetiu em A Regra do Jogo, de 2015. “Encarar um personagem principal mudou minha relação com a tevê. Hoje sei que posso recusar um trabalho. Me deu segurança para fazer coisas que realmente têm a ver comigo. Respeito meu contrato com a Globo, mas agora sinto que posso negociar melhor”, conta.

Como parte da construção dos personagens de Onde Nascem os Fortes, o elenco e uma vasta equipe técnica tiveram de passar cerca de cinco meses captando as principais sequências da supersérie em pequenas cidades do interior da Paraíba e de Pernambuco.

Para Alexandre Nero, a experiência foi enriquecedora e o ajudou a chegar ao ponto certo do personagem. No entanto, acabou tornando o trabalho na produção das onze como um dos mais difíceis de sua carreira. “Esse projeto está no meio do caminho entre as séries e as novelas. A duração é média, a gente sabe a história toda, mas não há cronologia nas gravações. Tinha de estar com as emoções prontas para o que acontecesse”, conta.

Além disso, a falta de serviços de telefonia e a distância entre o interior e as cidades de médio porte faziam Alexandre pensar que estava desligado do mundo. A saudade do pequeno Noá, seu filho de 2 anos, só afloraram ainda mais as emoções do ator.

No entanto, o ar bucólico da região e o convívio direto com o elenco foram primordiais para a unidade artística da produção. “A gente conseguiu um sotaque nosso e interações muito reais. Foi um processo louco e que mexeu muito com todo mundo. Isso deu estofo às cenas. Estou adorando o resultado”, garante.

Galã às avessas

Ser um galã da televisão era algo impensável para Alexandre Nero. Não que o posto seja algum demérito, mas o ator nunca achou que tivesse beleza suficiente para a função. “Estou a serviço dos personagens. Se ele é bonito, tento ir atrás disso. Mas não era algo que estava nos meus planos”, diverte-se.

Com o passar dos anos, a beleza madura do ator acabou caindo no gosto do público. O comendador José Alfredo, de Império, foi o personagem que despertou o público para os atributos de Nero. “Ainda não tinha sentido o assédio do público e foi algo bem diferente e divertido. Além das mulheres, o comendador mexia com os homens também, que queriam ter aquele cabelo dele”, lembra, entre risos.

TV Press - Você segue escalado para a próxima novela do Aguinaldo Silva, prevista para ir ao ar em novembro, e poderia facilmente ter recusado o papel em Onde Nascem os Fortes. O que o atraiu para o projeto?

R - A oportunidade de trabalhar com o José Luiz Villamarim. Tem um tempo que a gente ensaia esse encontro, mas surgiam alguns empecilhos. Isso não é uma reclamação, mas minha vida na televisão é bem movimentada. Ele teve uns problemas pessoais no passado, eu estava sempre comprometido com alguma novela e fomos adiando essa vontade. E só foi possível porque a novela do Aguinaldo foi adiada para o fim do ano.

E depois de tanta espera, o processo de trabalho correspondeu as suas expectativas?

Com certeza. É um método bem diferente do que estava acostumado. Embora as produções que ele dirige sejam extremamente densas, os bastidores são muito alegres e divertidos. Além disso, ele não gosta muito de ensaio, os atores não ficam tão marcados na cena. Existe espaço para troca de impressões e ideias para o que será gravado. E, além disso tudo, ele deixa o silêncio trabalhar. Os personagens e os atores “respiram”. Acho que é por isso que tanta gente quer trabalhar com o Villamarim.

O Pedro tem uma necessidade de poder e influência parecida com seus personagens em novelas recentes como Império e A Regra do Jogo. Como você diferencia esses protagonistas?

Pelas motivações. O comendador de Império era um patriarca nato, mas muito sisudo, o Romero Rômulo era um crápula em pele de anjo, um grande malandro. Agora, trabalho com um personagem igualmente ambicioso, mas que tem humor e que, mesmo fazendo tudo o que faz, realmente ama sua família. Dos três, o Pedro é o mais ambíguo.

Por quê?

Ele tem uma amante e gosta muito dela. Mas não consegue se separar porque sabe dos problemas que tem em casa. É um cara que manda matar, mas que também mantém uma rede importante de ajuda na região. Ele está sempre nessa “corda-bamba” muito humana de ser bom, mas abusar de práticas nada louváveis.

As gravações de Onde Nascem os Fortes no Nordeste duraram cinco meses. Você chegou a se inspirar em alguém da região para o personagem?

Existem muitos empresários parecidos com o Pedro em cidades pequenas de estados como a Paraíba e Pernambuco. Alguém que passeia com a mesma desenvoltura pela aridez local e que também viaja para Londres com a família no Natal. O estofo do personagem me exigiu muito poder de observação. Mas a estética foi criada junto com o Villamarim. Ele me deu muitas dicas de filmes que tinham esse diálogo entre o antigo e o contemporâneo, o rústico e o urbano.

Há dez anos você estreava em novelas na pele do verdureiro Vandelei de A Favorita. Qual balanço que você faz da sua trajetória?

Foi um período de muito aprendizado. Tive de abrir a cabeça para a televisão. Antes, achava que meu mundo estava resumido ao teatro e os trabalhos mais alternativos que eu fazia em Curitiba. Nem nos meus sonhos mais maravilhosos eu achei que poderia desenvolver uma carreira tão diversa e trabalhar com profissionais que admiro. Até porque, comecei tarde, não tinha como chegar cheio de planos e pretensões.

Você acha que foi isso que fez a diferença?

Talvez (risos). Eu não tinha a ambição de construir uma carreira na tevê. Isso aconteceu de forma muito natural. As pessoas foram conhecendo meu trabalho aos poucos. Alguns autores, como o Aguinaldo, conseguiram ver coisas em mim que nem eu tinha visto. Então, é uma trajetória feita de forma gradual. Não tive a chance de fazer personagens jovens, viver mocinhos, pulei várias etapas e acho que isso me fez ter a chance de garantir tipos mais interessantes.

Você emendará o final das gravações de Onde Nascem os Fortes com o início da preparação para a próxima novela do Aguinaldo Silva para as 21h. O que espera desse novo trabalho?

Tento viver um trabalho de cada vez. Mas é claro que, depois de viver o comendador, existe uma expectativa grande sobre esse próximo folhetim. Sei muito pouco sobre o personagem, mas espero que ele seja bem diferente. Sei lá, louro, de olhos azuis, porte atlético (risos). Confio no Aguinaldo, topo o que ele propuser. Já li na imprensa e me falaram que meu personagem será um lobo de verdade. Se isso for mesmo, estou pronto para o uivo! (Da TV Press)