Publicado 15 de Maio de 2021 - 11h38

Por Gilson Rei/Correio Popular

Aline Binato, bióloga e voluntária do projeto, colhe milho na área danificada por ação de terceiros, contratados pela Subprefeitura de Barão Geraldo: destruição sem sentido

Diogo Zacarias/ Correio Popular

Aline Binato, bióloga e voluntária do projeto, colhe milho na área danificada por ação de terceiros, contratados pela Subprefeitura de Barão Geraldo: destruição sem sentido

Um projeto de reflorestamento que utiliza a técnica de agrofloresta iniciado há sete anos na Vila Santa Isabel, no distrito de Barão Geraldo, está ameaçado de ser extinto pela Prefeitura de Campinas. Criado por um grupo de voluntários da comunidade local, o reflorestamento é feito em uma área pública de aproximadamente 250 metros quadrados, na Rua José Martins. No local há frutas, legumes, árvores e plantas de Mata Atlântica.

Segundo os integrantes do grupo de voluntários, o serviço de limpeza de terrenos da subprefeitura de Barão Geraldo fez uma intervenção no mês passado nas proximidades, uma vez que o mato naquele ponto estava muito alto. Sem ter conhecimento da área de agrofloresta, a ação acabou extinguindo parte das mudas que haviam sido plantadas no começo do ano.

Uma das participantes do grupo, Aline Binato, bióloga e professora, disse que alguns voluntários da comunidade tentaram avisar os executores da limpeza. Pediram para que mantivessem as mudas, mas eles não atenderam ao pedido. "Os funcionários da subprefeitura não pararam de podar e destruíram parte do que havia sido feito em plantios recentes", disse. "Eles alegaram que não estavam sabendo da área e que tinham que cumprir o serviço de limpeza", afirmou Aline.

A bióloga destacou que havia realmente mato nas imediações, que não estava na área de agrofloresta. "A limpeza de mato na região sempre foi uma atividade normal, feita pela Prefeitura, sem que afetasse a área de agrofloresta", explicou. "Por ser uma técnica de reflorestamento de mata nativa, que aproveita a matéria orgânica da própria vegetação, muita gente pensa que é sujeira no solo. Porém, o aproveitamento das próprias folhas e da vegetação rasteira é importante para manter o solo úmido e garantir os nutrientes para as demais plantas do local", afirmou.

Segundo Aline, os funcionários do serviço de limpeza da Prefeitura sabiam desta técnica utilizada e nunca agiram desta forma nos sete anos de projeto. "Além de retirar parte do que estava na agrofloresta, eles não garantiram que vão parar de fazer isso", disse. "Seria importante manter este trabalho, pois é uma questão ambiental importante e que não prejudica em nada a comunidade. Não há motivo para retirar estas plantações", argumentou.

Zélia Tosta Pereira, professora da rede pública, outra integrante do grupo, afirmou que a técnica de agrofloresta é realizada por 15 pessoas, que fazem a manutenção das plantações, limpeza e plantios em mutirões. "No período de pandemia, o grupo dividiu-se em equipes de três pessoas que se revezam na manutenção e limpeza". A professora explicou que a agrofloresta da Vila Santa Isabel surgiu em 2014 com o biólogo Carlos Eduardo Pereira Nunes, que é seu filho e mora em Campinas 15 anos.

"Ele é doutor em Biologia e faz pós-doutorado na Escócia atualmente, mas comanda o grupo a distância, fazendo consultorias. Deverá retornar a Campinas em janeiro do ano que vem e pretende dar continuidade a esse trabalho ambiental", disse. "Objetivo é de continuar o projeto que vem ocorrendo há sete anos com a participação de boa parte da comunidade local. Esperamos que não haja a destruição do local, que antes de ser uma área de reflorestamento era um matagal enorme abandonado pelo Poder Público", afirmou.

Subprefeito

O subprefeito de Barão Geraldo, Osvaldo Kaize, afirmou que as áreas públicas devem ser conservadas e que o serviço de limpeza é uma obrigação da Prefeitura. Segundo Kaize, a Rua José Martins foi uma das primeiras a receber manutenção neste mês, pois estava entre as vias com maior número de solicitações pelo telefone 156. "Não procede que tenha havido uma devastação da área, pois a equipe contratada visa apenas à limpeza do mato e lixo, não de espécies plantadas", comentou.

O subprefeito disse que desconhece qualquer acordo que tenha sido firmado junto ao grupo de voluntários com os funcionários das administrações anteriores, mas que gostaria de ser procurado pelos responsáveis pelo projeto a fim de discutirem o que pode ser feito. Segundo ele, acordos anteriores precisam ser renovados. Kaize destacou que tem formação em gestão ambiental e apóia toda iniciativa que tenha por objetivo a defesa do meio ambiente e da qualidade de vida da população. "Não sou contra projetos, pelo contrário, como gestor ambiental, posso ajudar", disse ele.

Modelo é exemplo eficaz de produção sustentável

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Conceito de agroecologia serve a diferentes escalas, diz pesquisador

Os conceitos da agroecologia podem ser aplicados em qualquer sistema e escala de produção. É o que pensa o professor e pesquisador da Universidade da Califórnia (EUA), Stephen Gliessman, que há 25 anos trabalha com o tema. Segundo ele, o desafio de conservar as áreas de florestas e recuperar as áreas degradadas, harmonizando agricultura e conservação dos recursos naturais, pode ter nos Sistemas Agroflorestais (SAFs) uma alternativa viável e eficiente.

A agricultura sustentável abordada por Gliessman mostra que as agroflorestas contemplam os princípios básicos e preenchem os requisitos de sustentabilidade, por vários motivos. Um deles é a inclusão de árvores no sistema de produção. A segunda vantagem é o uso de recursos endógenos, que englobam os elementos naturais e as matérias-primas; as competências; o conhecimento e a capacidade de inovação. Engloba também as produções locais específicas - como a agricultura, floresta, artesanato, indústria local - e os fatores de atração para a economia turística e residencial.

A agrofloresta contempla, ainda, o uso de práticas de manejo que otimizam a produção combinada e favorecem a geração de numerosos serviços ambientais. Pode possibilitar renda também ao longo do ano, por meio da comercialização dos diferentes produtos obtidos escalonadamente. Assim, a prática agroflorestal pode representar uma resposta ao desafio da conciliação entre a sustentabilidade na produção de alimentos e a sustentabilidade ambiental.

Em função disso, a implantação de agroflorestas, inclusive em Áreas de Preservação Permanente, passou a ser reconhecida legalmente como de interesse social no Brasil desde 2001, permanecendo dessa forma no atual Código Florestal (BRASIL, 2012). Paralelamente, segmentos expressivos da sociedade brasileira apontam a inequívoca necessidade do uso sustentável da diversidade biológica, instituindo-se áreas protegidas e incentivando e apoiando a agricultura familiar camponesa, assentados de reforma agrária, populações tradicionais e povos indígenas a manter seu modo de vida associado à conservação e ao melhoramento genético da diversidade silvestre e cultivada, os quais contribuem fundamentalmente para formar o patrimônio genético e cultural do país.

 

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Gilson Rei/Correio Popular