Publicado 15 de Maio de 2021 - 11h25

Por Gilson Rei/Correio Popular

Carros circulam em pista destinada a ônibus, funcionários da Emdec trocam sinal após acidente e buraco na pista ao lado Terminal Campo Grande

Ricardo Lima/ Correio Popular

Carros circulam em pista destinada a ônibus, funcionários da Emdec trocam sinal após acidente e buraco na pista ao lado Terminal Campo Grande

Escuridão, falta de faixas para pedestres, buracos nas pistas e falhas em trajetos das marginais ameaçam a segurança de usuários no corredor Campo Grande do BRT (Bus Rapid Transit, transporte rápido por ônibus), em Campinas. Um conjunto de erros no projeto coloca em risco a vida de motoristas e pedestres que utilizam o corredor que liga o centro da cidade ao distrito de mesmo nome, uma das regiões mais povoadas da cidade.

Nos trechos já concluídos na avenida John Boyd Dunlop, entre o Jardim Aurélia e o Parque Itajaí, a iluminação não existe nos canteiros centrais que dividem as pistas, totalizando 13 km de verdadeiro "breu". Pedestres sentem a falta de faixas para travessia no corredor e nas marginais, arriscando-se em locais impróprios. Falhas no projeto foram identificadas também em alguns pontos, que já colecionam acidentes em apenas quatro meses de entrega da obra.

Moradores da região do Jardim Satélite Íris e do Bela Aliança apontam uma falha da engenharia nesta obra do BRT que poderá causar muitas mortes. Gustavo Torres, auxiliar de escritório, disse que já viu cinco acidentes no local desde o final do ano passado e que o erro está no aclive acentuado na rua Tom de Araújo, que é uma via marginal do corredor Campo Grande.

"Os carros chegam em alta velocidade para desviar do radar que tem no corredor. Os motoristas estão errados. Porém, a pista é inclinada demais e tem uma curva sinuosa. Quando os carros entram em velocidade perdem o controle e causam acidentes", comentou Torres.

João Marquiori, cozinheiro, sugeriu que a Prefeitura precisa fazer algo urgente. "Tem que mudar esta engenharia, antes que ocorram mortes", disse. "Uma senhora já foi atropelada e um rapaz de bicicleta foi atingido por um carro. Ambos ficaram em estado grave", exemplificou.

Luciano Baroni Michica gerente do material de Construção Real, afirmou que muitos acidentes ocorreram neste ponto da marginal desde que a obra foi entregue. "Em um período de quatro meses, o poste de iluminação da calçada foi trocado três vezes e o portão de um condomínio residencial foi substituído duas vezes", contabilizou. Segundo o comerciante, carros, caminhões e motocicletas transitam em alta velocidade na pista marginal para escapar de um radar de 50 km existente no corredor Campo Grande.

Michica destacou que a via foi mal planejada. "Ao entrar na marginal, os motoristas ou motociclistas têm que fazer curvas em uma pista com aclive acentuado e muitos perdem o controle, colidindo em outros veículos ou invadindo a calçada, em acidentes graves no muro, nas casas ou no poste", explicou.

Os cinco acidentes ocorridos na via em quatro meses aconteceram da mesma forma. Os veículos batem a lateral em um barranco na lateral esquerda do corredor Campo Grande e os motoristas perdem o controle, seguindo para a direita, colidindo em outros veículos e destruindo postes, muros e portões.

Outra falha no local apontada é a falta de uma faixa de pedestres, pois usuários do transporte que acessam os pontos de parada no corredor correm o risco de atropelamento na marginal. "Para resolver estes problemas, a solução seria instalar um outro radar ou semáforo na marginal com uma faixa de pedestre para a população", comentou.

[INTERTITULO]Escuridão e Faixas

[/INTERTITULO]As lâmpadas de LED instaladas no canteiro central da avenida John Boyd Dunlop, em todo o corredor Campo Grande, não estão funcionando desde o Jardim Aurélia, seguindo sem luz pelo Terminal Campo Grande, no Parque Valença; e mantendo a situação de escuridão até o Terminal Itajaí, totalizando um trecho de 13 km sem iluminação.

Além disso, pedestres que tentam passar para o outro lado da avenida reclamam também da falta de faixas para a travessia. Boa parte do trecho não conta com faixas e as faixas existentes ficam em semáforos que exigem dos pedestres o percurso de longas caminhadas. No período noturno a situação fica pior, pois o risco de atropelamento e de assalto é uma rotina constante para os moradores.

Bianca Gomes, auxiliar de produção, moradora do Jardim Florence, disse que é um risco atravessar o corredor porque falta iluminação e faixa de pedestres. "Além de não ter segurança contra assaltos, as pessoas aqui sofrem para atravessar as pistas", comentou.

A cozinheira Josiane dos Santos Coelho, moradora do Jardim Florence, que estava com sua filha, reclamou também da falta de faixas e de iluminação. "É muito perigoso porque a gente corre o risco de ser roubada. Evito vir à noite, mas às vezes não tem jeito. Além disso, o risco de atropelamento é grande. Tem que ficar muito atenta", disse. Ontem, ela levou oito minutos para atravessar um lado do corredor e mais uns cinco minutos para atravessar o outro lado. "A faixa de pedestres fica muito longe. Precisa ter outra solução para os pedestres", comentou.

Buracos

Mesmo com a entrega de trechos no final do ano passado, buracos já foram abertos nas duas pistas marginais ao lado do Terminal Campo Grande provocando transtornos aos motoristas e acidentes.

Ontem, por exemplo, um veículo perdeu o controle no sentido Centro e colidiu no poste de um semáforo. Agentes de manutenção da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) instalaram um poste provisório.

Ainda ao lado do Terminal Campo Grande, veículos evitavam colisões no sentido do Parque Itajaí, com a colocação de cones da Emdec nas proximidades de outro buraco. Os motoristas reclamaram do estreitamento, que colocam em risco a ocorrência de acidentes.

Teresa Garcia, professora que aguardava a abertura do semáforo ao lado do Terminal Campo Grande, disse que percebeu vários pontos com buracos na obra do BRT. "Em pouco tempo de conclusão da obra o asfalto não aguentou o fluxo de veículos e já está desmanchando, colocando em risco os motoristas", reclamou.

Matheus Oliveira vendedor do Campo Grande Autopeças, em frente ao terminal de ônibus, disse que é normal ver acidentes leves e alguns mais graves. "Nesta sexta-feira, um veículo derrubou um semáforo e muitos motoristas quase colidiram para desviar deste buraco enorme que se abriu na pista", comentou.

Prefeitura atribui escuridão a furto de cabos de energia

A Secretaria de Infraestrutura da Prefeitura, por meio de uma nota, explicou que "a falta de iluminação no trecho do Corredor Campo Grande do BRT ocorre porque houve furto de cabos e fios de energia. É a segunda vez que isso ocorre nos corredores". A nota segue: "Em fevereiro deste ano, a Guarda Municipal flagrou um homem com 26 metros de fios e cabos de cobre na mochila, furtado da obra do Corredor Ouro Verde, na altura do Jardim Paraíso de Viracopos".

Sobre as medidas a serem adotadas, a nota, explica: "A instalação de novos cabos e fios ocorrerá próximo da data de entrega do corredor, quando a operação do sistema estiver em andamento, para evitar ocorrência de novos furtos. Casos de roubos de cabos e fios na cidade têm ocorrido com frequência e o setor de Inteligência da Guarda Municipal tem trabalhado com a Polícia Civil para buscar os receptadores de fios de cobre, que são vendidos para pequenos ferros-velhos clandestinos". Já sobre as falhas apontadas pelos motoristas e pedestres, a Secretaria destacou que pretende fazer ajustes nos pontos que apresentarem problemas.

O projeto do BRT começou a ser idealizado em 2010 com a proposta de se utilizar verbas do Governo Federal do Programa de Aceleração 2 (PAC-2). Em 2011, houve a aprovação e a saga teve início com elaboração mais detalhada do projeto, estimativa de gastos, aprovação de verba e demais medidas burocráticas previstas.

No final de 2011, o processo de execução do projeto foi paralisado e houve uma retomada em 2012. A partir de 2013, o projeto do BRT passou por outras etapas, incluindo licitações diversas, atualizações de planilhas, financiamentos, desapropriações, entre outras questões. A obra, em si, começou em 2017 e atualmente está com 95% do projeto concluído.

Em 22 de agosto de 2019 foi publicado aviso de licitação e, em outubro de 2019, o processo foi suspenso pela Justiça. A Administração Municipal realizou a licitação (Concorrência nº 009/2019) para concessão do sistema, que terá prazo de 15 anos, prorrogáveis por mais cinco anos. Portanto, o contrato de concessão depende do processo, que será na modalidade de Concorrência Pública, para a concessão de serviço. Audiências públicas foram realizadas, porém o Ministério Público (MP) alegou que a Prefeitura tinha que realizar outras audiências.

 

Escrito por:

Gilson Rei/Correio Popular