Publicado 14 de Maio de 2021 - 12h35

Por Gilson Rei/Correio Popular

Pesquisador em laboratório do Instituto de Biologia da Unicamp: universidade e outras instituições de pesquisa sofrem com falta de recursos e de estrutura

Ricardo Lima/Correio Popular

Pesquisador em laboratório do Instituto de Biologia da Unicamp: universidade e outras instituições de pesquisa sofrem com falta de recursos e de estrutura

Um processo de desmonte ameaça a ciência e a pesquisa nas instituições públicas federais e estaduais, incluindo centros de conhecimento que são referências nacionais na região de Campinas. Pesquisadores denunciam cortes de verbas, falta de concursos públicos para repor quadro de funcionários, privatização e até a extinção de instituições - como o fechamento do Instituto Florestal, do Instituto de Botânica e do Instituto Geológico, na Capital paulista, em outubro do ano passado.

O processo de desmantelamento das instituições teve início na década de 90, mas ganhou corpo e mais força nos últimos cinco anos. Em Campinas, ações de desmonte interferem no desenvolvimento de linhas de pesquisa e até causam paralisação de estudos avançados em centros de referências estaduais como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); o Instituto Agronômico de Campinas (IAC); o Instituto Biológico (IB); o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital); e o Laboratório Adolfo Lutz.

Na região, o desmonte interfere também na execução de linhas de pesquisa do Instituto de Zootecnia (IZ), em Nova Odessa. Dentre os institutos federais afetados na região estão o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI); e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Campinas e Jaguariúna.

O assunto voltou à pauta na semana passada quando a Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) - que representa 19 institutos - alertou que o prédio sede do IAC, na Avenida Barão de Itapura, em Campinas, poderia ser transferido à Prefeitura Municipal por ação da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

João Paulo Feijão Teixeira, engenheiro agrônomo e presidente da APqC, disse que a medida está na fase de conversação. Uma audiência do prefeito Dário Saadi com o pesquisador e diretor do IAC, Marcos Antonio Machado, foi realizada e não houve avanços imediatos. Na ocasião, Machado disse que não havia, ainda, possibilidade alguma de ceder o prédio para Prefeitura, porque não existia alinhamento com a missão do IAC.

Além deste aspecto do prédio, Teixeira disse que os pesquisadores estão preocupados com a prática da atual gestão estadual que demonstrou interesse em fazer uma reforma geral na área da pesquisa e da ciência, agindo com uma visão de "enxugamento da máquina". "Em outubro do ano passado, o Governo aprovou a lei 17.293 que levou à extinção o Instituto Florestal, o Instituto de Botânica e o Instituto Geológico", comentou.

Outra questão apontada é a falta de concursos públicos para compor o quadro de funcionários do IAC. "Pesquisas importantes poderão ser paralisadas por falta de pesquisadores e profissionais. Muitos já se aposentaram e outros estão próximos de se aposentar. Como não há contratação de novos, as pesquisas vão cessar. Do jeito que está haverá uma redução de 45% dos trabalhadores em 2025 no IAC. Linhas de pesquisa do trigo, arroz e algodão já foram paralisadas no IAC", exemplificou.

Segundo Teixeira, a falta de investimento do governo nas instituições é preocupante. "Não há reposição de pessoal e existe defasagem salarial, evidenciada inclusive por salários diferentes para integrantes de mesmas funções e mesma carreira", apontou. "Áreas vitais e importantes estão reduzidas e mesmo cessaram atividades por falta de pessoal. Com isso, perde-se conhecimento não codificado e também o acumulado", disse.

Os números atestam a gravidade do cenário. Os últimos concursos públicos para contratação de pessoal nos institutos foram realizados em 2003. Nos últimos cinco anos, o total de pesquisadores científicos dos 19 institutos de pesquisa foi reduzido em 25%. O quadro de apoio à pesquisa tem 77% dos cargos vagos.

Outros centros

Teixeira destacou que o mesmo impacto negativo nas pesquisas ocorre no Instituto de Zootecnia (IZ), de Nova Odessa. As perdas podem, em um futuro breve, refletir em toda a sociedade. "O IZ destaca-se pela geração de uma série de benefícios ao meio científico, ao meio técnico e aos pecuaristas, além de estudos com gramíneas e leguminosas tropicais, melhoramento genético de bovinos de corte, sistemas de produção em ovinocultura e qualidade do leite", afirmou.

Segundo Teixeira a falta de recursos e de reposição do quadro de pesquisadores afeta também o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) "É uma instituição de pesquisa, desenvolvimento, assistência tecnológica, inovação e difusão do conhecimento nas áreas de alimentos e embalagens, que não consegue dar seqüência a muitos estudos", ressaltou.

Outra instituição que vem sofrendo há anos com o sucateamento é o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer. "É um centro de pesquisa e desenvolvimento do Ministério da Ciência e Tecnologia, que sofre com o corte de recursos do Governo Federal", comentou. Destacou, ainda dificuldades nas pesquisas do Instituto Biológico (IB), ao lado do Parque Ecológico, em Campinas, onde são realizadas pesquisas na área vegetal sore controle de pragas.

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Gilson Rei/Correio Popular