Publicado 13 de Maio de 2021 - 10h41

Por Mariana Camba/Correio Popular

Rio Atibaia na crise hídrica de 2014: transferência de água ao Cantareira evitou que o problema se repetisse

Cedoc

Rio Atibaia na crise hídrica de 2014: transferência de água ao Cantareira evitou que o problema se repetisse

A falta de chuva neste ano tem contribuído para a diminuição do volume útil do Sistema Cantareira. De acordo com o coordenador de projetos do Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), José Cezar Saad, a situação atual do Cantareira é considerada preocupante, pois o volume útil do sistema está em 49,5%, e o ideal para este período seria de 60%. Segundo Saad, se a seca persistir, e o volume de chuva do final de 2021 não atingir as expectativas, a previsão é que 2022 seja um ano crítico, com possíveis problemas de abastecimento.

A preocupação, de acordo com Saad, é que 2022 se inicie com o volume útil do Cantareira reduzido, por causa dos baixos níveis de precipitação deste ano. Mas a expectativa do PCJ é que durante o período mais úmido, entre dezembro e fevereiro, as chuvas atinjam a média esperada para que a situação não se agrave tanto. "Este ano, com certeza a demanda será atendida, mesmo diante da situação atual. Se conseguirmos iniciar novembro com um volume de água um pouco melhor, poderemos ter o início da recuperação do Cantareira. Mas tudo depende do quanto vai chover, quando e onde", explicou Saad.

De acordo com o coordenador de projetos do PCJ, maio tem sido mais seco que o previsto, em meio a um ano que segue a mesma característica, com exceção de fevereiro que registrou um volume de precipitação um pouco acima da média. Mas ainda assim, meses que poderiam ter garantido uma condição melhor para o Cantareira, como janeiro, não conseguiram atingir a média prevista para o período. "Em abril, a chuva não contribuiu com o sistema. O volume de precipitação foi 28% da média prevista para o mês. Em maio, até o momento, o volume de chuva foi insignificante. Existe uma previsão de chuva a partir de hoje, mas não deve ultrapassar os 12 milímetros. O que, apesar de pouco, pode provocar um certo alívio diante da situação atual", afirmou Saad.

A previsão, de acordo com o coordenador, é que maio atinja no máximo 60% do volume de chuva previsto para o mês, que é de até 35 milímetros. Desde a crise hídrica de 2014, algumas medidas foram adotadas para evitar que o problema se repetisse. A primeira delas, segundo Saad, foi a transferência de água da represa de Igaratá para o Cantareira, que teve início em 2018. Além disso, atualmente os gestores dos recursos hídricos sabem como a seca pode ser severa, por isso há o foco constante no uso consciente da água. "Se não houvesse a transferência de água, o Cantareira estaria com, no máximo, 15% do seu volume útil. Ou seja, a crise de 2014 poderia se repetir ainda este ano", ressaltou Saad.

Atualmente, o volume de entrada do Cantareira é de 15,46 metros cúbicos por segundo, enquanto a vazão é de 30,47. Se as chuvas não chegarem logo, acrescentou Saad, a saída de água vai precisar diminuir. "À medida que o tempo for passando e a situação não melhorar, vamos ter que controlar mais a retirada de água, para manter o sistema funcionando. A esperança que temos é que o Cantareira suporte a demanda até o final de novembro, momento em que a chuva deve retornar com maior frequência", concluiu Saad.

Conta de luz pode ficar mais cara devido à falta de chuva

De acordo com o diretor presidente da Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica (ABCE ), Alexei Vivan, o problema da falta de chuva não é exclusivo de Campinas. Os reservatórios das principais hidrelétricas do país, que ficam nas regiões Sudeste e Centro-Oeste estão com o volume baixo desde 2012. "Não tivemos chuva capaz de recuperar os reservatórios, e estamos no período seco. O período úmido entre 2020 e 2021 foi muito ruim, o pior das últimas décadas. Os reservatórios teriam de estar com 50% do seu volume, mas a média hoje é de 30%, e isso deve baixar ainda mais, pois a estiagem apenas começou", afirmou Vivan.

De acordo com Vivan, sem água, as hidrelétricas ficam com dificuldade para gerar energia, por isso há a aplicação das bandeiras tarifárias. Elas indicam que a situação está complicada e que há restrição para a geração de energia, o que reflete no consumo mais caro. "A ideia é que o consumidor perceba que temos um problema, e que economize energia", explicou. Este ano deve permanecer o custo da bandeira vermelha, que é a mais cara, até dezembro, segundo o diretor presidente da ABCE.

O problema gerado nas hidrelétricas fez com que as termoelétricas começassem a atender parte da demanda. Mas esse tipo de geração de energia é mais caro, o que também impacta no custo ao consumidor final. Para Vivan, reverter essa situação somente seria possível se chovesse durante o período de estiagem, e nos lugares certos, as cabeceiras dos reservatórios, mas "é muito difícil isso ocorrer". 

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Mariana Camba/Correio Popular