Publicado 13 de Maio de 2021 - 10h21

Por Erick Julio/Correio Popular

A enfermeira clínica Thais Veríssimo aplica teste PCR no ambulatório do Hospital da PUC: Câmara quer tornar o procedimento periódico

Ricardo Lima

A enfermeira clínica Thais Veríssimo aplica teste PCR no ambulatório do Hospital da PUC: Câmara quer tornar o procedimento periódico

A Câmara Municipal vai discutir a possiblidade de Campinas contar com um plano de testagem periódica para detecção da covid-19 em grupos prioritários da cidade. A iniciativa faz parte do Projeto de Lei nº 65/21, que também prevê a realização de um trabalho de rastreamento de contato das pessoas que tiveram diagnóstico positivo.

Segundo uma das autoras do PL, a vereadora Guida Calixto (PT), o projeto tem como objetivo ajudar a Secretaria Municipal de Saúde a fazer um controle da disseminação da covid-19. "A testagem é um componente muito importante no combate à pandemia. Ela, junto com o trabalho de rastreamento dos casos nos grupos prioritários, vai permitir uma redução da transmissibilidade do vírus em Campinas", defende Guida, que explicou que a iniciativa parlamentar surgiu de uma discussão com movimentos sociais e com a Frente pela Vida em defesa do SUS de Campinas.

Pelo PL, a Prefeitura de Campinas seria responsável por criar o plano de testagem e definir uma periodicidade que não exceda 30 dias, de acordo com o texto. Também autora do projeto, a vereadora Mariana Conti (PSOL) critica a ausência de uma política nacional de combate à covid-19 e diz que a estratégia do governo estadual foca apenas no número de leitos e não na transmissão do vírus.

"O [governador João] Doria tem utilizado o número de leitos nos hospitais como principal critério para o seu abre e fecha. Ocorre, no entanto, que o vírus continua circulando livremente pelo país e também por Campinas, o que favorece o surgimento de novas cepas, por exemplo. Precisamos ampliar a testagem, principalmente da população mais vulnerável", aponta Mariana, que assina o PL ao lado de Cecílio Santos (PT), Paolla Miguel (PT) e Paulo Bufalo (PSOL).

Quem trabalha na linha de frente e lida diariamente com pessoas do grupo prioritário diz que o projeto é "bem-vindo". O assistente social José Humberto Sores, 48, acredita que o plano de testagem traria mais segurança para os trabalhadores da assistência social e outras categorias que lidam com a covid-19. Ele lembra, inclusive, que a categoria luta para que os assistentes sociais sejam incluídos no grupo prioritário.

"Uma iniciativa como essa é valiosíssima porque está pensando no trabalhador. A testagem e o rastreamento buscam trazer um maior controle para a transmissão do vírus, principalmente entre nós trabalhadores da ativa e da linha de frente. Nós assistentes sociais lidamos todos os dias com pessoas em situação de rua, que estão vulneráveis e expostas ao vírus", diz.

Ainda de acordo com Soares, o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua tem atendido cerca de 120 pessoas por dia. "Evidentemente, a gente não sabe se está tendo contato com pessoas com covid-19. Ter essa informação seria essencial. Infelizmente, a pandemia afetou uma dinâmica de trabalho que foi construída com base em vínculos de afeto. Muitas pessoas em situação de rua não estão preocupadas com alimentos, mas com contato e carinho", aponta.

O médico infectologista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Rogério Jesus Pedro, que também é professor na Faculdade São Leopold Mandic, acredita que um plano de testagem é "o melhor método" de combate à pandemia. "Como estratégia de controle da doença, a testagem é sempre bem-vinda. Você identifica pessoas infectadas por meio do teste RT-PCR, que é o padrão ouro ou padrão de referência, mesmo nos casos assintomáticos", destaca. Pelo protocolo sanitário, os que testarem positivos devem ser afastados das atividades profissionais e sociais pelo período de 14 dias.

Ainda segundo Pedro, no entanto, trata-se de um "plano complexo" que demanda a repetição de um número grande de testes em um período curto. "O projeto tem sentido, mas a aplicação não é simples. São necessários muitos recursos para o teste de biologia molecular. Isso não é simples e barato. A coleta da secreção é fácil, mas o processamento, não", pondera o médico.

Para o médico infectologista do Hospital e Maternidade da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) André Giglio Bueno, 35, o rastreamento de contato é "exatamente o que precisa ser feito". Segundo ele, essa estratégia está prevista, inclusive, nos manuais do Ministério da Saúde, mas ela "não é feita de forma plena por nenhum município" por conta das limitações de pessoal das vigilâncias pelo país.

"Se houver de fato um incremento no serviço de vigilância, com recursos humanos e tecnológicos, como ferramentas de gerenciamento de dados, você consegue ter um trabalho de combate a pandemia muito eficiente", ressalta Bueno, que cita como exemplo o trabalho de inteligência feito em outros países. "No começo da pandemia, a Coréia do Sul utilizou a tecnologia e os chamados Big Datas para fazer o rastreamento de contato. É uma estratégia que se mostrou eficiente", aponta.

Sobre o período da testagem proposta pelo PL, o médico acredita que a medida só seria eficiente se os testes ocorrerem em um prazo máximo de sete dias. "A testagem periódica para conseguir identificar os casos antes de uma possível transmissão, teria que ocorrer dentro do período médio de incubação da doença, que é em torno de 5 a 6 dias. Assim você dificilmente deixaria escapar alguma infecção assintomática que vá transmitir para outras pessoas", explica.

Bueno aponta ainda que o plano proposto vai exigir muitos investimentos do poder público na saúde. "Em termos de saúde pública, é um grande desafio, porque até mesmo hospitais já têm dificuldade de fazer isso com o seu público, que é bem reduzido", diz.

O Correio Popular procurou a Secretaria Municipal de Saúde para ouvir o secretário Lair Zambom sobre a iniciativa proposta e a possibilidade de Campinas ter um plano de testagem periódica, com o trabalho de rastreamento dos casos. A assessoria da pasta se limitou a dizer que "a Secretaria ainda não tem conhecimento do projeto de lei. Assim que tiver acesso, o documento será analisado. Depois disso, poderá se manifestar e fazer os encaminhamentos necessários".

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Erick Julio/Correio Popular