Publicado 12 de Maio de 2021 - 17h00

Por Mariana Camba/ Correio Popular

O médico reumatologista do Hospital Vera Cruz, André Marun Lyrio, examina paciente com fibromialgia, doença sem cura e que atinge 5% da população brasileira

Kamá Ribeiro/ Correio Popular

O médico reumatologista do Hospital Vera Cruz, André Marun Lyrio, examina paciente com fibromialgia, doença sem cura e que atinge 5% da população brasileira

Hoje é celebrado o Dia Mundial da Fibromialgia, doença que causa dor crônica por todo o corpo de maneira ininterrupta. A data busca conscientizar a sociedade para a importância do diagnóstico e do tratamento correto da patologia, além de informar a população sobre a doença e seus sintomas. De acordo com a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a fibromialgia afeta cerca de 5% da população brasileira e ainda é uma doença incompreendida.

Segundo o médico reumatologista do Hospital Vera Cruz, André Marun Lyrio, a fibromialgia não tem uma causa definida e nem cura. Pelo menos 70% das pessoas que desenvolvem a doença, têm o problema de saúde associado ao sedentarismo, à depressão e ansiedade. Por isso, segundo Lyrio, os casos desta patologia devem apresentar um considerável aumento neste momento de pandemia, devido aos impactos psicológicos e emocionais que a covid-19 tem causado.

A doença promove uma sensação exacerbada de dor. Por isso, estímulos comuns podem se tornar mais difíceis de serem realizados. "O principal desafio para os médicos é fazer o diagnóstico correto da doença. O desconforto nesses casos, não melhora com repouso e nem com o uso de analgésicos ou anti-inflamatórios, pois o problema é um distúrbio da sensação de dor", explicou o reumatologista.

As dores, segundo Lyrio, podem se apresentar de diversas formas e mudam de acordo com o paciente. Tem pessoas que se queixam mais de dores na cabeça e outras de dores abdominais, por exemplo. O portador da fibromialgia acaba desenvolvendo algumas limitações, devido à condição física do próprio corpo. Normalmente, acrescentou Lyrio, quando o paciente passa pelo reumatologista, ele chega encaminhado por outros especialistas que não conseguiram definir uma causa para o desconforto.

Apesar de ainda não ter uma cura, a doença possui tratamento para melhorar até 80% a sensação de dor do paciente. De acordo com o médico, a pessoa deve fazer atividade física pelo menos cinco vezes por semana, 45 minutos por dia. Junto de um tratamento associado ao uso de remédios que reduzem a sensação exacerbada de dor, como antidepressivos, anticonvulsivantes ou relaxantes musculares. Além disso, acrescentou o reumatologista, é necessário tratar as outras causas associadas à doença, como a depressão e ansiedade. Por isso é fundamental o acompanhamento psicológico e psiquiátrico.

Segundo o reumatologista, a fibromialgia é nove vezes mais presente em mulheres do que em homens, e normalmente é desenvolvida entre os 40 e 50 anos. "É importante usarmos a data para informar as pessoas sobre a doença, e o que ela causa. Conheço, inclusive, médicos que não acreditam na patologia, o que é muito grave. Quem convive com uma pessoa que tem esse problema de saúde, precisa entender que a dor não é uma frescura", afirmou Lyrio.

Trauma

A diretora educacional aposentada, Eliana Cascaldi, 59 anos, desenvolveu a fibromialgia há nove anos, depois de ter sido sequestrada. Ela afirmou que o episódio de extrema tensão e sofrimento foi como um gatilho emocional para que a doença surgisse. Eliana lembrou que o diagnóstico foi muito difícil, que teve de passar por vários especialistas, pois não tinha um exame clínico que detectasse a doença. Desde então ela sente uma limitação no corpo, o que reflete na piora da sua qualidade de vida. Essa condição fez com que algumas pessoas duvidassem das suas queixas, pois não entendiam os sintomas da doença.

Para Eliana, a fibromialgia "suga" a pessoa de uma forma indescritível. "Eu tenho uma fadiga constante. É como se eu estivesse com gripe 24h por dia, todos os dias", afirmou. Por isso ela faz o tratamento, para amenizar as dores, junto do acompanhamento com psicólogo e psiquiatra. "É a forma que encontrei para lidar com as emoções que desencadearam a doença. Sentir dor deprime. Não é fácil lidar com essa condição", ressaltou a aposentada. Para ela, o desafio é fazer com que o paciente com fibromialgia seja acolhido pela família, no ambiente de trabalho e pelos amigos.

Paciente recorre à Câmara para conquistar benefícios

Para tentar fazer algo pelos portadores de fibromialgia em Campinas, a aposentada Eliana Cascaldi, 59 anos, recorreu à Câmara Municipal em 2019. O intuito era implementar uma medida pública que desse maior visibilidade para a doença na cidade. "Naquele ano eu consegui o apoio de dois vereadores, que deram continuidade à minha proposta de dar preferência às pessoas com fibromialgia", lembrou. Na época, os vereadores formularam um Projeto de Lei que concedia a preferência em filas e no acesso às vagas de estacionamento para os portadores da doença. O PL foi sancionado em dezembro de 2019.

De acordo com a aposentada, a medida é uma dentre várias outras que precisam ser pensadas e aplicadas em Campinas, para tornar a vida dos portadores de fibromialgia um pouco mais leve. "Ficar longos períodos em filas é doloroso para quem não consegue ficar em pé. As pessoas precisam saber desse direito e exercê-lo", garantiu.

Para ela, o município precisa investir cada vez mais em políticas públicas que beneficiem o portador da doença, principalmente na área da saúde. "O diagnóstico por si só é algo difícil. E no SUS ele se torna ainda mais precário, diante da demanda de pacientes que os médicos possuem. Assim, não tem como dar a atenção necessária para quem tem fibromialgia. Precisamos mudar isso", concluiu Eliana.

Escrito por:

Mariana Camba/ Correio Popular