Publicado 07 de Maio de 2021 - 11h16

Por Gilson Rei/Correio Popular

Edifício sede do Instituto Agronômico de Campinas: cessão do imóvel à Prefeitura comprometeria pesquisas, alegam os funcionários

Diogo Zacarias/Correio Popular

Edifício sede do Instituto Agronômico de Campinas: cessão do imóvel à Prefeitura comprometeria pesquisas, alegam os funcionários

A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) alertou ontem que o prédio sede do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), na Avenida Barão de Itapura, na região central da cidade, poderá ser transferido à Prefeitura Municipal por ação da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. A informação causou grande revolta e preocupação no corpo de servidores do IAC, que alegam ser uma transferência catastrófica para a ciência e a continuidade de várias pesquisas na área da agricultura e abastecimento.

João Paulo Feijão Teixeira, engenheiro agrônomo e presidente da APqC, disse que houve uma reunião no mês passado entre integrantes do Governo Estadual para discutir a possibilidade da transferência do prédio sede do IAC e que o assunto voltou a ser comentado recentemente pelo prefeito Dário Saadi com o secretário de Estado da Agricultura e Abastecimento, Gustavo Junqueira.

A medida está na fase de conversação. "Não houve confirmação alguma, mas o assunto ainda está em pauta em reuniões internas no Estado e no município", comentou. "Uma audiência do prefeito com o diretor do IAC também está marcada para tratar do assunto", acrescentou. Teixeira destacou que o prédio sede é um patrimônio cultural e histórico da cidade e que abriga trabalhos importantes para a continuidade das pesquisas. "O imóvel reúne uma biblioteca de rica importância; abriga laboratórios de pesquisa e um auditório para cursos e seminários; além de sediar a administração, a comunicação e a diretoria do IAC", comentou.

Extinção

Segundo Teixeira, os pesquisadores estão preocupados também com a prática da atual gestão estadual, que demonstrou interesse em fazer uma reforma geral na área da pesquisa e da ciência, agindo com uma visão de "enxugamento da máquina". "Em outubro do ano passado, o governo aprovou a lei 17.293, que levou à extinção o Instituto Florestal, o Instituto de Botânica e o Instituto Geológico", comentou.

Outra questão apontada é a falta de concursos públicos para compor o quadro de funcionários do IAC. "Pesquisas importantes poderão ser paralisadas por falta de pesquisadores e profissionais. Muitos já se aposentaram e outros estão próximos de aposentar. Como não há contratação de pessoal, as pesquisas vão cessar. Do jeito que está, haverá uma redução de 45% dos trabalhadores em 2025 no IAC", explicou.

O último concurso para contratação foi em 2003. "A falta de recursos humanos, resultado da não reposição de pesquisadores científicos, tem impactado tanto o trabalho de pesquisadores quanto o de pessoal de apoio à pesquisa. O problema é evidente e preocupante, pois se perde conhecimento não codificado e cessam alguns programas de pesquisa que estavam em andamento", comentou Teixeira. "Apesar de a agricultura ser um destaque, mesmo em época de pandemia esse baluarte pioneiro da pesquisa agrícola fica sob risco de ser extinto", finalizou.

‘Não existe a possibilidade’, afirma diretor

O pesquisador científico Marcos Antonio Machado, diretor do IAC, disse ontem que o assunto de transferir o prédio sede do IAC foi levantado pela Prefeitura recentemente e que não há nada de concreto estabelecido. "Existe uma audiência marcada com o prefeito Dário Saadi e o IAC não pretende deixar de lado a missão da instituição. Estamos abertos ao diálogo para realizar parcerias com a Prefeitura, alinhadas à missão científica e de pesquisa, como ocorre, por exemplo, na Mata Santa Genebra. Porém, não existe possibilidade alguma de ceder o prédio para Prefeitura", disse Machado.

Os trabalhos desenvolvidos no prédio do IAC não podem deixar de ser realizados, segundo o diretor. "Há uma estrutura adequada para a continuidade de muitos trabalhos que não podem parar. Por isso, é totalmente inviável transferir [O IMÓVEL]para a Prefeitura", comentou. Machado lembrou também que - mesmo que a cessão do prédio seja solicitada - qualquer cessão de área de instituição de pesquisa, para uso ou venda de patrimônio público, tem que ter audiência pública com a comunidade científica.

A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo esclareceu ontem, por meio de uma nota, que: "Não procede a informação sobre a transferência IAC, em Campinas, a outro órgão público. O edifício continuará sediando as atividades do centenário instituto de pesquisa que beneficiam o agro paulista e nacional".

IAC desenvolve pesquisas essenciais ao agronegócio

Em 133 anos, instituição produziu 1.111 cultivares de 100 espécies agrícolas 

No próximo dia 27 de junho, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) vai completar 134 anos de trabalho efetivo de pesquisa gerando conhecimentos, tecnologias, formando recursos humanos e promovendo a inovação em prol da agricultura brasileira e do abastecimento de alimentos para a população.

O IAC é pioneiro na introdução e melhoramento genético da maioria das culturas do agronegócio brasileiro. O Instituto é líder em melhoramento de plantas e incorpora novas tecnologias à sua programação de P&D, como pesquisa sobre genomas e prospecção gênica, transformação genética por transgenia, cisgenia e, mais recentemente, por edição de genomas e RNA de interferência, em parceria com redes nacionais e internacionais de P&D.

Além de atuar na geração de ciência, tecnologia, produtos e serviços otimizando sistemas de produção vegetal, a instituição tem dado especial atenção à transferência do conhecimento e de tecnologias geradas para a sociedade. Em 133 anos de atividades, 1.111 cultivares foram desenvolvidas em 100 diferentes espécies agrícolas que transformaram e impactaram a agricultura paulista e nacional, como nas cadeias do café, cana, citros, grãos e fibras (algodão, feijão, arroz, milho, amendoim, trigo, entre outros), horticultura (mandioca, morango, alface, tomate, batata, quiabo, etc).

A pesquisa rendeu também impactos positivos na fruticultura (uva, pêssego, abacate, caqui, nêspera, goiaba, entre outros), seringueira e outros. Desde o lançamento da primeira cultivar IAC (algodão IA-7387), ocorrido em 1932, o Instituto desenvolveu, em 88 anos, o expressivo número médio de 12,5 cultivares por ano ou uma cultivar por mês.

A instituição participou ativamente do processo que viabilizou grandes arranjos agroindustriais ligados à citricultura, ao café, à cana-de-açúcar, soja e algodão, todos de importância indiscutível do ponto de vista do emprego e da economia no País.

O IAC suporta tecnologicamente a viticultura, a produção de hortifrúti de variadas espécies, de amendoim, feijão, borracha da seringueira e outros. Suporta ainda, tecnicamente, a produção vegetal transferindo tecnologias voltadas à agricultura sustentável, novas variedades, nutrição e controle de pragas e doenças. Atua também nas questões relacionadas à biodiversidade, às mudanças climáticas, ao planejamento territorial, uso e ocupação do solo, na conservação da água.

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Gilson Rei/Correio Popular