Publicado 16 de Maio de 2021 - 8h00

Por Estadão Conteúdo

Um tempo antes de partir, no final de 2020, Chick Corea sentou-se em meio aos dois teclados e um piano de seu estúdio para tocar em homenagem ao Brasil. A pedido do Blue Note, fez uma apresentação de uma hora e 27 segundos de duração para ser transmitida pelas plataformas da casa no País, enquanto o mundo seguia assombrado pela pandemia. Não se sabe se já havia recebido o diagnóstico que apontava em seu organismo uma forma rara de câncer, que acabaria levando-o em 9 de fevereiro de 2021.

Ao partir, Chick Corea deixou o show gravado aos brasileiros e uma mensagem que só foi divulgada no dia de sua morte. "Quero agradecer a todos que ao longo de minha jornada ajudaram a manter as chamas da música queimando forte. Tenho a esperança de que aqueles que têm uma inclinação para tocar, escrever, se apresentar ou algo do tipo o façam. Se não por vocês mesmos, pelo resto de nós. Não é apenas que o mundo precisa de mais artistas, mas também porque é muito divertido..." E seguiu, para concluir: "E para todos os meus amigos músicos maravilhosos que foram como uma família para mim desde que os conheço: foi uma bênção e uma honra aprender e tocar com todos vocês. Minha missão sempre foi a de trazer a alegria da criação a qualquer lugar que eu pudesse, e fazê-lo com todos os artistas que eu tanto admiro - esta foi a riqueza da minha vida".

O pequeno e inédito recital doméstico feito ao Blue Note será exibido neste sábado, 15, às 20 h, no canal do YouTube da casa. A reportagem teve acesso ao conteúdo e pode adiantar que, se as palavras de Chick emocionaram a todos em sua partida, as notas que se ouvem em sua última reverência ao País reforçam o quanto o pianista levava a música brasileira no coração. Chick dedica a performance a Tom Jobim, João Gilberto e Stan Getz. "Eu encontrei meu amigo Stan Getz quando ele estava com João Gilberto, e isso é algo inesquecível para mim", diz.

Faz então uma versão ao piano (sempre Yamaha) de Chega de Saudade e desloca todos os acentos de Insensatez para reformá-la em um improviso estonteante. Mas não só. Antes de partir para a execução de uma peça não creditada composta em 1700 pelo italiano Domenico Scarlatti, um de seus autores mais admiráveis por ser como uma ponte entre o barroco e o clássico, comenta: "Eu tenho certeza de que Jobim adorava Scarlatti". Corea não tocava apenas por ele, mas para investigar seus ídolos. E Tom Jobim, que falava de Debussy, Chopin e Ravel, mas que nunca citou Scarlatti, estava entre eles.

Depois, mostra para a câmera uma partitura antiga de outro de seus mestres, que chama de "meu compositor preferido", Alexander Scriabin. "É interessante, só tem duas páginas." Ao falar de Scriabin, diz tratar-se de "um autor conhecido no Brasil bem antes de Jobim e João Gilberto". O russo Scriabin, de um século depois de Scarlatti, representa parte do pensamento de Chick com seus atonalismos modernos nada compreendidos em sua época e nem mesmo num futuro próximo, mas que jazzistas reformadores como Chick e seu grupo Return to Forever souberam entender.

Por último, gira no confortável banco para se ajeitar agora à frente do "velho Fender Rhodes", como ele chama o piano elétrico que já estava consigo no início dos anos 1970. E será, ao tocar um tema de seu parceiro de Return to Forever, o estupendo saxofonista Joe Farrell, o que sempre foi diante de uma peça barroca de 1700, de um prelúdio modernista de 1800, de uma melodia de Jobim ou uma bossa de João: um reformador, um vanguardista, um homem que veio de muitos lugares e que levou todos eles para um futuro que parece, ainda, não ter chegado.

Era como se ali, naqueles pouco mais de 60 minutos, Corea reduzisse uma vida a cinco ou seis temas com toda a liberdade de improviso que assumiu mesmo diante de peças clássicas. Não há em sua música os arroubos explosivos de Michel Camilo, as explorações extensas de Oscar Peterson ou as viagens estelares de Keith Jarrett, e suas mãos nunca estão muito distantes uma da outra, mas vale perceber sua musicalidade transbordante e nem sempre compreensível diante de Chega de Saudade e Insensatez e sua busca por harmonias que parecem surpreendê-lo antes de todos, como uma criança fazendo descobertas ao piano. É como se o piano fosse um acaso, algo que poderia ser um trompete ou um sax, mas que se tornou o seu instrumento no dia em que o pai italiano, trompetista de uma banda de jazz de Boston nos anos 30, colocou seu garoto de cinco anos diante de um.

Antes de ver João Gilberto, Chick viu Dizzy, Bird, Bud Powell, Horace Silver, Lester ‘Pres’ Young e, como João Donato, aprendeu tudo das latinidades com Mongo Santamaria. Com Miles, decidiu para onde conduzir a vida depois de integrar a tropa de Bitches Brew, com Wayne Shorter, John McLaughlin e Dave Holland, e, ao descobrir o Brasil, se apaixonou pela doçura inquebrantável de Jobim que só pode ter levado para onde quer que esteja.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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