Publicado 08 de Maio de 2021 - 13h42

Por Estadão Conteúdo

A escritora Clarice Lispector (1920-1977) tinha uma caligrafia bonita, como se pode observar em suas cartas e primeiros manuscritos. Mas, ao final da vida, acometida por doenças, a letra começou a ficar mais trêmula, nervosa, quase rabiscos incompreensíveis. É o que o leitor poderá observar na luxuosa edição de A Hora da Estrela, volume que traz a versão manuscrita integral da obra lançada por Clarice no ano de sua morte. Trata-se do primeiro trabalho em português da editora francesa Editions des Saints Pères, especializada na reprodução de grandes originais da literatura. A tiragem é especial, de 1 mil exemplares numerados.

"Clarice é uma autora brasileira muito importante na França", afirma Jessica Nelson, editora e cofundadora da Saints Pères. "Acompanhamos seu trabalho há muito tempo. O encontro com o filho dela, Paulo Gurgel Valente, foi decisivo para nossa escolha, e, em seguida, a beleza do manuscrito e o que revela sobre A Hora da Estrela."

A reprodução é apresentada o mais próximo possível de sua aparência original, como se a romancista tivesse acabado de largar sua caneta, revelando também as correções, variações e notas utilizadas na elaboração do romance. Nela, é possível encontrar mais de uma versão para diferentes passagens-chave do texto, como, por exemplo, duas versões da cena final do livro, o momento da morte de Macabéa - sua "hora da estrela". A versão publicada seria o resultado da fusão dessas duas variantes.

Os originais de A Hora da Estrela estão arquivados no Instituto Moreira Salles, desde 2004. Os manuscritos são importantes não apenas pelo aspecto histórico, mas também por registrarem a forma como Clarice trabalhava em seus textos. "Desde as primeiras obras, a escritora adotara o método da anotação imediata. Assim, segundo Nádia Battella Gotlib, sua biógrafa, ‘passa a carregar um caderninho, onde vai fazendo as suas anotações. São as notas, soltas, que, em grande quantidade, e referentes ao mesmo assunto, constituirão já o seu romance’", observa o professor Fábio Frohwein, em texto publicado no site do IMS.

"Com o tempo, as anotações seriam feitas em qualquer tipo de papel, facilmente à mão, e até por outra pessoa, a quem Clarice solicitava ajuda", continua ele. "Por isso, vemos notas de A Hora da Estrela em fragmentos de papel, folhas de cheque e envelopes."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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