Publicado 05 de Maio de 2021 - 14h01

Por Estadão Conteúdo

Luis Fernando Rego tinha 14 anos quando se matriculou para as aulas do Surf no Alemão, um projeto social voltado aos jovens do conjunto de favelas da zona norte do Rio. A iniciativa fica no mesmo prédio de outro projeto, o ViDançar, que ensina balé e que era frequentado por uma de suas irmãs. Era Luis quem a levava para essas aulas, e todas as vezes ele fazia questão de acompanhar - enquanto arriscava alguns passos meio que às escondidas. Um dia, o jovem foi convidado a participar. E agora, seis anos depois, foi aprovado para integrar a Companhia Tivoli Ballet Theatre, na Dinamarca.

O bailarino conversou com o Estadão já no país europeu, para onde se mudou no mês passado. E a gratidão demonstrada para com a família, com amigos e pelo balé como um todo ficou nítida em cada uma de suas falas. "O balé me trouxe de tudo e me trouxe a ser quem eu sou hoje."

Mover-se entre mundos tão distintos daquele em que Luis Fernando cresceu, porém, não foi nada simples. Primeiro, ele precisou encarar o medo do preconceito, o que a boa receptividade da família ajudou bastante.

"Falei com minha mãe que eu gostaria de fazer balé para melhorar meu equilíbrio em cima da prancha. Eu tinha muito medo de algum preconceito vir da minha família, mas ela super aceitou, super me apoiou. Logo começou a perguntar quando seria minha primeira apresentação, pois queria muito ver. Eu me senti mais confortável e acolhido e, então, decidi seguir só no balé", contou, recordando os primeiros passos no Alemão.

Luis lembra que ouviu piadinhas dos amigos, mas tudo mudou quando perceberam que ele tinha vocação para o balé. "Aos poucos, eles foram percebendo que aquele era meu sonho e passaram a me apoiar. Logo, passei a contar com o apoio de todo mundo no Complexo do Alemão", afirmou o bailarino.

O primeiro grande salto na dança veio em 2017, quando, por sugestão de uma amiga, Camila Braga, Luis Fernando participou de um processo de pré-seleção do Bolshoi Brasil no Rio. Aprovado, recebeu o convite da tradicional escola de dança para participar de uma vivência de três dias na sede, em Joinville. Lá, recebeu o convite definitivo.

"Eu tinha 16 anos e fui aprovado para a sexta série do ano letivo, sendo que são oito para formação. Essa oportunidade foi maravilhosa", recorda-se. Mas surgiu no horizonte um novo obstáculo. "O desafio era ficar na cidade, morar lá. Nossa família é muito grande, minha mãe tem oito filhos. Mudar para Joinville não estava nos nossos planos."

Mais uma vez, ele contou com o apoio da amiga Camila. "A família dela me convidou para ficar na casa deles durante o meu ano de formação. Eles me deram todo o apoio, me cuidaram como um filho. Me levavam na escola, me ensinaram como eu deveria agir no futuro, quando eu fosse morar sozinho", contou. "Tenho muito a agradecer."

Luis Fernando se formou no Bolshoi Brasil em 2019 e, no mesmo ano, foi contratado para integrar a Cia. Jovem, da instituição. No ano passado, inscreveu-se para atuar na Companhia Tivoli Ballet Theatre e foi aprovado. Em abril, finalmente, mudou-se para Copenhagen, capital da Dinamarca.

O bailarino disse ao Estadão que ainda não conseguiu aproveitar muito a cidade - ele precisou passar por um período de quarentena devido aos cuidados com a pandemia -, mas que já a conhecia de uma viagem que havia feito no ano passado.

"A cidade é encantadora, linda demais. As pessoas são muito educadas, e planejo morar aqui por bastante tempo. Quero conhecer a Europa, outros países", revela. "Tenho algumas metas, mas, às vezes, a dança vai me surpreendendo."

A adaptação à nova vida está indo bem, "sem nenhum perrengue até agora". A barreira do idioma, por exemplo, não existe. "Eu nunca tive medo do inglês. Sempre encarei essa língua como uma oportunidade de falar outro idioma, e sempre fui muito apaixonado pela língua estrangeira", ressaltou.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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