Publicado 05 de Maio de 2021 - 11h02

Por Gilson Rei

Adolescente sendo preparado para o teste que diagnostica a covid-19:  casos da doença crescem significativamente entre os mais jovens, segundo laboratórios

Kamá Ribeiro/ Correio Popular

Adolescente sendo preparado para o teste que diagnostica a covid-19: casos da doença crescem significativamente entre os mais jovens, segundo laboratórios

O número de testes positivos de covid-19 em crianças e adolescentes aumentou pelo menos sete vezes nos últimos seis meses em laboratórios particulares de Campinas. Pesquisa feita nos laboratórios de medicina diagnóstica Ramos e Confiance mostra que 51 testes foram confirmados em setembro do ano passado e que o volume saltou para 371 confirmações em março deste ano, um acréscimo de 627,4% entre crianças e adolescentes.

O aumento de casos confirmados de covid-19 no Confiance Medicina Diagnóstica entre crianças e adolescentes cresceu dez vezes em seis meses, pois em setembro eram 24 confirmações em testes realizados, contra 268 testes positivos em março deste ano, um aumento de 1.016%. No Ramos Medicina Diagnóstica o número de testes confirmados quase triplicou, pois o aumento foi de 27 testes positivados em setembro do ano passado para 103 testes confirmados em março deste ano, um acréscimo de 281,4%.

Sergio Coelho, diretor do Laboratório Ramos Medicina Diagnóstica em Campinas, destacou que o levantamento prévio de exames positivos de covid-19 de março deste ano aponta uma participação de 8% de crianças no total de casos positivos, e que o índice era nulo no primeiro semestre do ano passado. Segundo Coelho, os testes positivos de março deste ano foram identificados em 103 pessoas da faixa etária de 0 a 19 anos, sendo 50 crianças de 0 a 14, incluindo bebês de 1, 7 e 11 meses. O levantamento aponta também crianças de 1 a 7 anos com a doença.

Coelho informou que o crescimento nos casos positivos de covid-19 entre crianças e adolescentes tornou-se mais evidente a partir do segundo semestre do ano passado. "No início da pandemia não se verificava testes positivos na faixa entre um mês e 19 anos e os primeiros casos surgiram a partir do segundo semestre", disse. O Laboratório Ramos confirmou covid-19 em aproximadamente 3 mil testes em junho e, deste total, apenas 0,5% correspondia a pessoas da faixa etária entre um mês e 19 anos. A partir de agosto, o percentual subiu para 2% do total de testes confirmados.

Os números cresceram a partir de setembro no Ramos, com 27 confirmações naquele mês e outros 27 casos positivados em outubro. No mês seguinte, a testagem positiva de covid-19 no laboratório revelou que a participação de crianças e adolescentes subiu para 3% em relação ao geral, com 63 confirmações. Nos três meses seguintes (dezembro 2020 e fevereiro de 2021), a participação de crianças e adolescentes aumentou novamente, chegando aos 4% do total de casos positivos em dezembro (74 casos); a 5% em janeiro (130 confirmações) e a 6% em fevereiro (96 registros).

Em março, o laboratório fez um levantamento prévio e constatou participação de 8% de casos positivos de covid-19 na faixa entre um mês e 19 anos, com 103 testes confirmados.

Coelho destacou que este maior volume de casos de covid-19 em crianças a adolescentes é, primeiramente, um reflexo da falta de cuidados dos pais com seus filhos nas questões de segurança. "Muitos pais não forçam os filhos a usar máscaras e não ficam o tempo todo se preocupando com a lavagens das mãos", afirmou. "As crianças muitas vezes brincam com outras crianças nos parques e jardins sem o uso de máscara", acrescentou.

Segundo o diretor, as crianças e adolescentes são assintomáticos, em sua maioria. "Isto acaba resultando em certo descuido, mas tanto a criança pode contaminar outras crianças, como podem contaminar as outras pessoas da família", comentou. "A volta às aulas presenciais nas escolas pode também ter causado este crescimento no número de casos positivos de covid-19 nesta faixa de idade da população", afirmou.

O Laboratório Confiance Medicina Diagnóstica demonstrou também que as crianças e adolescentes estão se contaminando cada vez mais e contraindo a covid-19 com mais frequência desde o mês de setembro. O laboratório registrou 24 confirmações na faixa entre 1 mês e 19 anos em setembro e outros 21 casos em outubro. Em novembro, o número mais que dobrou e chegou a 46 confirmações. O contágio explodiu em velocidade a partir de dezembro do ano passado, quando o Confiance confirmou 137 casos positivos; passando para 156 em janeiro, mais 118 em fevereiro e finalizando março com 268 casos da doença.

A menor agressividade da covid-19 nas crianças e adolescentes, verificada nos primeiros meses da pandemia, criou uma falsa impressão de que a doença não afetaria esta faixa etária da população e resultou no crescimento do número de casos entre pessoas de 1 mês a 19 anos. Entretnto, desde o início da pandemia, 779 crianças com até 12 anos morreram da doença no Brasil. Deste total, 24% das mortes e 22% das internações ocorreram nos últimos três meses, segundo dados do DataSUS.

Despreocupação com doença afetou cuidados preventivos

A despreocupação generalizada com a covid-19 entre crianças a adolescentes deixou pais e sociedade em geral menos rigorosos com as medidas de proteção, como o uso de máscaras, higiene das mãos e distânciamento social. Algumas famílias que sofreram com a covid-19 foram entrevistadas pela reportagem, porém os nomes utilizados são fictícios porque as pessoas exerceram o direito de manter em sigilo suas identificações.

A engenheira Joelma Silva, por exemplo, disse que os dois filhos dela, de 16 e 12 anos, apresentaram sintomas de covid-19 no início do mês de março e houve confirmação dois dias depois dos testes feitos em laboratório. "Ainda bem que agimos rápido para poder ter um acompanhamento médico, tratar da melhor forma possível e garantir um isolamento para vencer este vírus", comentou. "Apesar de não terem sido graves, os sintomas são complicados, de muita dor e cansaço", comentou.

Segundo Joelma, os adolescentes contraíram a doença possivelmente dentro de casa. "Meu marido foi confirmado com covid-19 uma semana antes dos meninos. Ele contraiu no trabalho, de um colega de profissão. Alguns dias depois eu também contraí e tive também tive que me afastar do serviço. Porém, meus filhos acabaram tendo sintomas também e todos nós passamos em quarentena", disse. "Não houve descuido algum neste período de pandemia. O meninos não foram para escola, mas acabou chegando a doença em toda a família", afirmou.

A jornalista Luciana Almeida disse que seu filho de 18 anos fez um teste para conferir se contraiu a covid-19 e se terá que fazer um acompanhamento mais rigoroso. Segundo Luciana, ele sentiu alguns sintomas porque a filha de 23 anos contraiu a doença neste mês de março, possivelmente em algum supermercado. "Minha filha ficou em home office o tempo todo, fazendo suas aulas na Universidade, não saiu para nada. Somente às vezes sai para compras no mercado", revelou.

Segundo a jornalista, este contágio modificou totalmente a rotina de sua casa. Seu marido, que é do grupo de risco por ter tido um enfarto, teve que se isolar em um hotel. Além disso, a filha ficou em quarentena, isolada em um quarto. "Porém, meu filho chegou a ter mais contato com ele e passou a ter sintomas alguns dias depois. Por isso, corremos para fazer o teste. Tem que agir rápido para tentar conter antes o quadro mais grave", afirmou.

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Gilson Rei