Publicado 26 de Abril de 2021 - 5h30

E se diluem dentro de nós as tardes em que não podemos sair para navegar no seu bojo. É verdade que, em certas horas, elas acabam entrando pelo quarto. Mas chegam com as impalpabilidades dos jardins, sem o barulho dos passos a bater nas calçadas e sem o passar das brisas em nosso rosto; brisas que traduzem, em algum aroma que tragam, a verdadeira razão do seu significado. Sim, as tardes estão ali, na amplidão do conteúdo, desdobradas, muitas vezes, em sons que realmente ouvimos; mas que podem ser apenas muros, árvores, telhados, roseiras, heras, relvados, casas que viraram canções.

As tardes, amigos, foram feitas para a criação e o encanto. É delas e com elas que se tornam mais palatáveis, por exemplo, os instantes de aguardar. Pois é nas tardes que os amores já brotados criam mais viço; na suave ânsia de esperas que adquirem sabor de vida na luminosidade das chegadas. É nas tardes que os passeios de amor se alongam por horizontes mágicos que com os dedos podem ser tocados. É nas tardes que a moça esperada na razão do que já foi dito, se entrega àquilo tudo que ainda é preciso dizer.

Proibiram-nos as tardes de sol para testemunhar o lúdico saltitar dos passarinhos nas amoreiras da praça. E também as outras que podem ser de um pós-chuva, quando o chão molhado convida ao frescor dos caminhos. E os bem-te-vis, esses arautos do bom tempo, cantam para dizer que o azul do céu lavado é sempre moldura de esperanças. Que não são, como muita gente pensa, o alimento para promessas; mas sim o cântico real da alegria que foi pressentida.

Eu sempre me sei, e descubro isso em muitas manhãs, um impenitente colecionador de orvalhos. Porém, também me sei amoroso amante de tardes, tantas têm sido as que me conduziram nas instâncias das suas luzes, mais fortes quando começam, até o esmaecer que conduz à sacralidade dos crepúsculos. Estes instantes do lusco fusco que são aprendizado da beleza dos silêncios, e do quase imperceptível alarido do cântico das primeiras estrelas.

Já tive tardes em ruas, rios, mares, alturas de voos, corridas em planícies nas quais as montanhas lá ao fundo pareciam ser as metas, porém acabavam sendo apenas os começos. Ah, aquelas tardes do Outono campineiro, que vem depois que as sibipirunas florescem, pepitas de ouro derramadas às dobras dos corações. De tanto que amava aquela casa, e quem dentro dela vivia, que paredes, telhado, quintal, jardim, se tornaram parte da integralidade do tempo. Sua dona foi o corpo do amor cinzelado no mármore da verdade, mas suave ao toque como se a estátua fosse de veludo. Pois, já no primeiro sorriso me ensinou que os homens, para poderem dizer que foram felizes, deveriam contar que em algum tempo viveram muitas tardes numa casa como aquela. Na qual todos os meses do ano eram setembros.

Estão me sonegando as tardes, porém eu posso apalpar aquelas em que fui tomado pelo fundamental aprendizado da natureza. E o rio, o grande rio de margens em reentrâncias esculpidas, jamais poderia ser como é não fossem as horas pós meio-dia em que o belo se reconstrói. As tardes, na floresta em que nasci, na Amazônia profunda, são formatadas para abrigar os instantes em que o mundo verde se refaz. Do sono da noite e do espreguiçar das manhãs em que os androceus e gineceus se entendem para a consequência das rosas.

Por todos os deuses, que falta me faz poder agora mesmo abrir a porta e sair, para a tarde. Ainda mais esta, que escorre com luzes que a estação torna amenas, o que vai se refletir no alongar de sombras que nos remetem ao desejo de poder retê-las nas mãos em concha. Para com elas tecer um manto que se confunda com as noites; que possam receber aquilo que já deu muitas canções, e que os poetas chamam de poeira de estrelas.

Que falta me faz poder ir sentar agora no barzinho no qual os galhos de dois oitis quase entram para cobrir as mesinhas sobre o piso. Onde, mesmo na solidão de um instante que as circunstâncias tornam inquieto, possa pedir uma cerveja para brindar ao simples, naufragado em recordações; mas sem nunca deixar de avistar a praia na qual as ondas de tantas felicidades vividas se esparramam em maré lançante de belezas; que se espumam na impossibilidade de, por tantas, guarda-las.

Que injustiça, deuses de minha fé ou, no geral, alguma falta dela! Que injustiça que agora, quando a tarde se desdobra para a calma do crepúsculo, eu não possa estar completamente entregue ao bojo no qual se expande. Que injustiça que este pobre homem, com tantas tardes já vividas, não possa, quando o número das ainda por viver já é tão pequeno, se entregar a estas, aureoladas de simplicidade. Olho no relógio e verifico que os ponteiros marcam 18 horas. Mais uma tarde me foi roubada. Mas amanhã de manhã me entregarei à esperança do que, adiante, possa, junto com outras, me ser devolvida.