Publicado 25 de Abril de 2021 - 19h05

Há um clima de Rolling Stones no ar mais uma vez, em uma dessas ressurreições que eles promovem de si mesmos. Quando a tela dos computadores apareceu dividida em quatro no recente evento One Word - Together at Home, uma espécie de USA For Africa dos novos tempos, muita gente postou que não conseguia segurar as lágrimas. Aquilo foi mesmo forte. Mick Jagger ao violão, cantando no cantinho da sala de sua casa para ganhar mais potência com a acústica rebatida; Keith Richards sentado na poltrona de uma espécie de escritório luxuoso e aconchegante, procurando as notas ao seu violão sem muita paciência; Ronnie Wood, o sempre efusivo Ronnie, pedindo que as pessoas acompanhassem trechos da canção com palmas enquanto tocava guitarra; e Charlie Watts, gaiato, simulando a bateria pré-gravada sobre malas de viagem tipicamente inglesas que não deverão ter outra utilidade nos próximos meses. Eles cantaram You Can’t Always Get What You Want representando o sentimento dos habitantes de um planeta que não podem mais ter o que desejam. Um dos raros momentos de se amar um troço chamado quarentena.

Agora, sob juras e promessas de jornalistas protocoladas em cartório para a gravadora Universal, de que nada seria vazado antes das 13h01 da última quinta, 23, os Stones divulgaram uma nova música. Ela foi escrita por Jagger e Richards, a parceria mais longeva do rock, se chama Living In a Ghost Town e vem, apesar de ter sido feita há um ano, do mesmo espírito confinado de onde saiu a participação em One World. A música foi divulgada com um clipe, que entrou na página da banda, no YouTube, a partir das 15h de ontem, 23.

No texto que a gravadora Universal enviou junto com a canção, cada Stone escreve algo quase edificante. Mick Jagger, que gravou violão, gaita e guitarra, explica a origem da canção: "Então, os Stones estavam no estúdio gravando algum material novo antes do bloqueio causado pela pandemia e houve uma música que achamos que ressoaria bem nos tempos que estamos vivendo agora. Nós trabalhamos nisso em isolamento e aqui está ela."

Keith Richards foi menos polido: "Gravamos essa faixa há mais de um ano em Los Angeles para fazer parte de um novo álbum, uma coisa em andamento, e então a merda toda atingiu os fãs. Mick e eu decidimos que este era o momento de lançá-la e aqui está. Fiquem seguros". Charlie Watts foi mais, digamos, Charlie Watts: "Gostei de trabalhar nessa faixa. Eu acho que ela capta um clima e espero que as pessoas a aceitem". E Ron Wood, de 72 anos, o sempre efusivo Ronnie, completou: "Muito obrigado por todas as suas mensagens nas últimas semanas, significa muito para nós saber que vocês curtem a música. Ela é um pouco assustadora e se chama Vivendo em uma Cidade Fantasma".

Uma frase e todos eles se materializam. Keith Richards, 76 anos desde o último 18 de dezembro, não tinha uma expressão de regozijo na live com os Stones, solitário na sala de sua casa, em Londres. Ele havia decidido parar de fumar, conforme anunciou em entrevista à rádio norte-americana Q104.3, mas seu discurso o mostra impaciente com o confinamento. Disse na verdade que havia largado os cigarros desde outubro de 2019, um feito e tanto, mas agora deve estar fazendo força para se manter longe do vício com toda a carga da ansiedade que já o fez cometer atos de um homem muito pior nos anos 60. "Acho que tanto Mick quanto eu sentimos na última turnê que estávamos apenas seguindo em frente. Precisamos continuar cuidando de nossas saúdes", disse, no início do ano. Ele se mantém um pai de família, há 36 anos ao lado da modelo e atriz Patti Hansen, desde a festa de seu aniversário de 40 anos, e com duas filhas, ambas modelos, Theodora Dupree, de 34 anos, e Alexandra Richards, 33.

Mick Jagger vinha de uma pré-pandemia agitada. Em abril de 2019, aos 75 anos, foi submetido a uma cirurgia no coração para substituir uma válvula cardíaca. Um mês depois, publicou um vídeo em que aparecia dançando e pulando em um ensaio, e informando que logo retomaria com a turnê da banda pelos Estados Unidos e Canadá. Já no início deste ano, apareceu como ator no filme The Burnt Orange Heresy, na pele de um rico colecionador de arte, Joseph Cassidy, que pede a um crítico que roube uma pintura de um artista recluso. Foram apenas duas as cenas em que aparece, mas o suficiente para romper o jejum das telas iniciado em 2001, quando interpretou um britânico que dirigia um serviço de escolta no longa Confissões de um Sedutor. Os jornalistas quiseram saber se tantos projetos não prejudicavam a ideia de lançar material inédito dos Stones, e ele respondeu: "Não prendam a respiração. Eu tenho escrito muito, fiz várias demos e os Stones gravaram coisas muito legais. Mas ainda não terminamos o álbum, então não tenho data para isso acontecer".

Charlie Watts, o mais velho, 78 anos, disse há pouco tempo que se daria por satisfeito se os Stones anunciassem que já deu. Foi em uma entrevista ao jornal britânico The Guardian, quando afirmou não se incomodar "caso a banda resolvesse terminar".

E Ron Wood, que em fevereiro foi à festa da premiação Brit Awards de metrô, e de pé com um jornal Metro nas mãos, parece ter vida para mais 100 anos de Stones. (Do Estadão Conteúdo)