Publicado 20 de Abril de 2021 - 19h05

A dor da perda inesperada de um parente vítima da dengue foi relatada em uma carta escrita pelo filho da primeira vítima da doença na cidade. A mulher, de 69 anos, era advogada e morava com a família no Jardim Proença. O filho, Rafael Gaspar, de 30 anos, está indignado com o “descaso” diante da gravidade da doença e da falta de políticas públicas para prevenir a dengue, transmitida pelo mosquito Aedes aegypti.A advogada morreu no dia 25 de março de 2014, às 5h20, no hospital Casa de Saúde de Campinas, após passar por um “calvário” em outros hospitais da cidade. Gaspar afirmou que cobrará a Administração pública sobre o orçamento destinado ao combate da doença e o número de ações e profissionais envolvidos.A advogada deixou os pais, de 93 anos, o marido, de 64, dois filhos, com 30 anos, e um neto, de apenas 3. “Eu sei que nada do que eu fizer trará minha mãe de volta, mas o mínimo que eu posso fazer é cobrar uma resposta”, disse.Segundo Gaspar, o Jardim Proença foi “esquecido” este ano, pois não houve divulgação de panfletos sobre a dengue ou a visita da Vigilância Sanitária para fiscalizar as residências. Ele afirmou que, em outros anos, a ação era comum. “Nem na caixa dos Correios foi depositado sequer um panfleto”, escreveu.A carta foi enviada por e-mail ao alto escalão da Prefeitura e a vereadores de Campinas na última terça-feira. São quatro páginas, em que o filho relata o sofrimento da mãe, que durou seis dias. O primeiro sintoma ocorreu no dia 19 de março, uma quarta-feira, quando a advogada sentiu fortes dores de cabeça e hipotensão (queda de pressão).No dia seguinte, com a persistência dos sintomas, o pai de Gaspar levou a mulher ao Hospital do Coração de Campinas (IMC). A suspeita era de que fosse um problema cardíaco. O atendimento não foi feito, pois a unidade é uma clínica particular sem o atendimento de urgência e emergência. A família foi então ao Hospital Irmãos Penteado, na região central. No local, foi realizado a coleta de sangue e hemograma, e o médico clínico diagnosticou a suspeita de dengue. Segundo Gaspar, a orientação era ingestão de água, sem informar a quantidade, e o retorno ao hospital após 48 horas.No domingo, dia 23 de março, a advogada voltou ao hospital. O médico prescreveu remédios para dor de cabeça, mas não avaliou a parte cardíaca — a paciente continuava com hipotensão. Segundo Gaspar, o médico fez uma brincadeira de mau gosto, dizendo que “dengue é coisa de baiano, que é dengoso”. A família novamente voltou ao Irmãos Penteado, na segunda-feira. A vítima sentia-se mal, e deu entrada no hospital às 16h. Segundo o filho, o atendimento ocorreu uma hora e meia depois e, às 18h, ela ainda não havia sido medicada e o aparelho de monitoramento estava com defeito, sem o cabo da bateria.Às 19h, a advogada recebeu soro e foi feita uma coleta de sangue com estilete na ponta do dedo, apresentando hiperglicemia, que indica excesso de açúcar no sangue. Segundo o filho, a vítima nunca apresentou quadro de diabete. Após mais dois frascos de soro, foi realizado um exame de eletrocardiograma. Gaspar diz que ouviu uma ajudante de enfermagem comentar com as colegas que o aparelho de eletrocardiograma estava desconfigurado. “Mesmo assim, o exame foi realizado”, disse. Teria havido interferência no resultado, e outro foi feito pela equipe de enfermeiros.O filho afirma que o médico não acompanhou o atendimento e que ficou restrito à sala de consulta. Segundo ele, quem fazia o intermédio era a enfermagem. Nesse dia, a vítima chegou a ficar nove horas no Irmãos Penteado. O atendimento acabou à 1h. “O atendimento foi horrível”, disse Gaspar.Após o longo tempo de espera no hospital, segundo ele, a advogada voltou para casa. Às 4h, passou mal e foi levada ao Pronto-Socorro da Casa de Saúde de Campinas, na região central. No local, sofreu uma parada cardiorrespiratória e enfarte agudo do miocárdio, morrendo uma hora e vinte minutos depois.LEIA MAIS NA PÁGINA A+6

‘Nada do que eu fizer trará minha mãe de volta’

Depois da morte da mãe, Rafael Gaspar foi à Prefeitura de Campinas, onde diz ter relatado o caso, e solicitou o relatório do orçamento destinado ao combate da dengue dos últimos dez anos. O filho afirmou que tem uma reunião com o prefeito de Campinas, Jonas Donizette (PSB), marcada para a próxima quarta-feira.

Após notificar a Administração, na segunda-feira, dia 1 de abril, seis dias após a morte da advogada, uma equipe da Vigilância Sanitária compareceu na residência da vítima, no Jardim Guarani, e em seu escritório, no Jardim Proença, segundo o filho.

“Meu pai relatou o problema do bueiro que fica em frente ao escritório, onde estava verificando uma ‘nuvem’ do mosquito Aedes aegypti. Foi prometida a nebulização no local, mas até a presente data nenhuma providência foi tomada”, escreveu na carta. No dia seguinte, a família recebeu o resultado do exame que confirmava a morte em decorrência do tipo 1 do vírus, que circula em Campinas. O filho chegou a procurar vereadores de Campinas para ajudar no caso. Um deles, que ele não nomeou, fez uma brincadeira. “Saiu na TV agora: peguei dengue, mas estou com o Jonas”, teria dito o parlamentar.

O filho afirmou que o vereador pediu desculpas pela brincadeira, após ser advertido pelos colegas. “Enquanto perdi minha mãe, um médico e vereador brincaram com a situação. Eu sei que nada do que eu fizer trará minha mãe de volta, mas o mínimo que eu posso fazer é cobrar a Administração municipal e seus funcionários públicos”, escreveu o filho no final da carta. (SB/AAN)