Publicado 26 de Abril de 2021 - 17h16

Por Tássia Vinhas

O oncologista Fernando Medina: pandemia criou dificuldades para o atendimento dos pacientes de câncer

Kamá Ribeiro/ Correio Popular

O oncologista Fernando Medina: pandemia criou dificuldades para o atendimento dos pacientes de câncer

A redução em 60% dos novos casos de câncer, registrada no começo da pandemia, fez os oncologistas acendessem o sinal de alerta. O número não era resultado de um fenômeno complexo, mas sim da decisão de pacientes de suspenderem os exames, temendo uma eventual contaminação por covid-19, e da posterior suspensão de cirurgias eletivas.

A consequência desse quadro foi altamente prejudicial aos pacientes, como conta o oncologista do Centro de Oncologia Campinas (COC), Fernando Medina da Cunha. Segundo ele, casos que poderiam ser diagnosticados e tratados precocemente, infelizmente sofreram agravamento, diminuindo a sobrevida de muitas pessoas. "Na grande maioria dos casos, os pacientes deixaram de ser operados e pararam de fazer biopsia, colonoscopia e endoscopia. Ou seja, o diagnóstico do câncer não foi feito, impedindo consequentemente a abordagem terapêutica", explicou o médico.

De acordo com Medina, o desafio agora é tentar minimizar esses impactos e continuar incentivando a prevenção, para evitar o aparecimento do câncer ou a sua descoberta em níveis mais avançados. "Acho que vamos entrar em um problema muito sério, que é o aparecimento dessas doenças mais avançadas, o que vai demandar mais custos e mais pacientes fazendo outros tratamentos", arriscou Medina. O médico, que tem PhD, tem 69 anos.

É oncologista clínico do COC e do Centro do Câncer da Santa Casa de Piracicaba (Cecan). Possui especialização em Oncologia Clínica pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (1981), doutorado em Clínica Médica pela Universidade Estadual de Campinas (1995) e residência-médica pela Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte (1982). Além disso, é fundador da disciplina de Oncologia Clínica do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

O extenso currículo de Medina também registra passagens como presidente da Sociedade de Oncologia Clínica do Estado de São Paulo (1989 a 1991) e da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (1991 e 1993). Durante visita ao presidente-executivo do Grupo RAC, Ítalo Hamilton Barioni, o oncologista falou sobre sua preocupação com o tratamento do câncer pós-pandemia e sobre os principais desafios da ciência no combate à doença.

Não é novidade que a pandemia de covid-19 prejudicou o tratamento de várias doenças. Qual foi o prejuízo para os pacientes com câncer?

Eu acho que uma das especialidades que mais sofreu nessa pandemia foi a oncologia, isso porque em março do ano passado tivemos uma redução de mais de 60% de casos novos. Naquele momento a gente acreditava que era por medo da população em procurar os serviços médicos, mas a seguir o medo deixou de existir e passou a ser o problema do fechamento dos serviços de saúde de uma maneira geral. O centro cirúrgico praticamente fechou, as cirurgias eletivas foram canceladas. A cirurgia eletiva, infelizmente, impacta diretamente no câncer. Para mim, o câncer deveria ser uma cirurgia de urgência, e não eletiva. Infelizmente, no Brasil a gente toma isso como cirurgia eletiva, o que faz com que a grande maioria dos casos deixasse de ser operada. Deixou-se de se fazer biopsia, colonoscopia e endoscopia. Ou seja, o diagnóstico do câncer não foi feito e isso diminuiu muito o movimento na nossa clínica. Isso foi no mundo inteiro. Um exemplo é uma publicação Inglesa de dois meses atrás, apontando que a mortalidade por câncer na Inglaterra vai aumentar 2% este ano devido à falta de diagnóstico e tratamento. Além disso, vale sempre lembrar que o câncer é uma doença progressiva, ou seja, não para, vai disseminando, infiltrando, dando metástase. Isso vai acontecendo e faz com que a grande maioria dos casos que recebemos esteja em estado avançado.

É possível detalhar mais os impactos nesses pacientes?

Não existia mamografia no começo do ano e, com isso, a redução do número de mamografias foi de mais de 60%, o que fez com que a doença avançasse. A grande maioria dos nossos pacientes, antes da pandemia, era de estágio clinico 1 e 2. Isso significa que a doença era localizada na mama, com índice de cura de 90%. Hoje, cerca de 50% são casos de doença avançada localmente, ou seja, a doença já escapou da mama, foi para a axila ou outros órgãos. Com isso, podemos dizer que houve um aumento de mais ou menos 30% de pessoas que não estão fazendo acompanhamento.

E como essa situação impacta nos custos desses tratamentos? Também exige mais do médico?

No caso do câncer de mama especificamente, que é o tumor mais frequente na nossa região, quando você faz um diagnóstico no estágio clinico inicial, você às vezes só opera o paciente, sem nenhum tratamento complementar. Em alguns casos, você precisa fazer a cirurgia conservadora da mama e a radioterapia, excluindo a quimioterapia. Esse custo é muito menor do que o tratamento que envolve a complementação com quimioterapia, que é um tratamento mais caro, mais demorado e que prejudica a qualidade de vida dos pacientes. Por exemplo: pacientes com estágio clínico três, no qual o tumor já está fora da mama, está na axila, às vezes precisam ser submetidas à quimioterapia primeiro, antes da cirurgia. Isso encarece violentamente o tratamento e compromete os serviços de câncer de uma maneira geral, porque essas pacientes têm que vir várias vezes para receber o tratamento. Ou seja, quanto mais avançada a doença, mais caro e mais dificultoso é o tratamento e menor é a sobrevida.

O senhor acredita que o Sistema Único de Saúde (SUS) tem condição de atender essa demanda que ficou reprimida?

O nosso SUS é muito heterogêneo no atendimento do serviço com câncer, que é o serviço terciário e quaternário. O atendimento é muito bom, principalmente na nossa região e nas regiões de Piracicaba e Limeira. Aqui em Campinas é um pouco pior por causa da demanda ser muito grande e a regional de Campinas atender muitos municípios, com menos lugares oferecendo serviços de câncer. Aqui, nós temos a Unicamp, a PUC e o Mario Gatti, mas eu acredito que nesses locais onde tem um serviço de SUS mais robusto, eles vão dar conta sim de atender à demanda.

A ciência sabe que o câncer tem contribuições genéticas, mas também tem influência do ambiente. Qual a proporção entre esses dois fatores?

O câncer é uma doença muito heterogênea. Na realidade, não é uma doença só, são várias doenças, mais de 100 doenças diferentes. O câncer é uma doença da célula humana. Em um determinado momento, ao se dividir, a célula "erra", causa uma mutação e essa mutação prolonga a vida dessa célula. Essa célula se torna imortal e começa a se dividir e forma o que a gente chama de tumor. Tumor maligno, porque ele tem a capacidade de sair do local onde nasceu, cair na corrente sanguínea e parar em outros órgãos, num fenômeno que nós chamamos de metástase, que é responsável por 90% dos óbitos dos pacientes. O câncer é uma doença genética porque ele vem a partir de uma mutação genética. Entretanto, somente 10% dos casos são geneticamente hereditários, ou seja, você pode transferir aquele defeito genético para o seu filho ou sua filha. Em mais de 70% dos casos, o estilo de vida é o grande mal do aparecimento do câncer.

A maneira que você come, a maneira como você vive no dia a dia. Em pacientes que têm hábitos como fumar, beber etc, existe uma chance maior de aparecer essas mutações ao longo da vida. Além disso, a idade é fundamental. O câncer é uma doença que tem uma relação estreitíssima com a idade, ou seja, acima de 50 anos todos têm um grande risco de desenvolver um tipo qualquer de câncer. No homem, o câncer de próstata. Na mulher, o de mama. O câncer de próstata e o de mama são muito parecidos no ponto de vista genético, porque o gene que é mutado geneticamente na mulher é o mesmo que é mutado no câncer da próstata. No câncer da mama, essa parte genética está mais adiantada e hoje nós conseguimos fazer esse tipo de exame para ver se a família do paciente tem a mutação. Àquelas que têm a mutação, a indicação é fazer o que nos chamamos de cirurgia preventiva. Faz-se uma mastectomia bilateral, com reconstrução imediata, e essa mulher volta a ter um risco bem menor de desenvolver o câncer de mama. Então, sob o ponto de vista geral, o grande problema do aparecimento do câncer é o estilo de vida das pessoas, é aquele que fuma, que bebe, que tem o hábito de comer carne vermelha muito frequentemente, aqueles que têm uma dieta pobre em legumes e frutas.

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Tássia Vinhas