Publicado 26 de Abril de 2021 - 13h30

Por Gilson Rei/ Correio Popular

Com restrições em restaurantes, pessoas comem lanches e salgados nas ruas

Kamá Ribeiro/ Correio Popular

Com restrições em restaurantes, pessoas comem lanches e salgados nas ruas

O desemprego, a redução de renda dos trabalhadores, o aumento nos preços dos alimentos e o fechamento de restaurantes para consumo no local transformaram os hábitos alimentares dos brasileiros durante a pandemia da covid-19. O consumo de alimentos saudáveis como carnes, frutas e queijos teve queda superior a 40%, enquanto a alimentação com hortaliças e legumes diminuiu 36,8%. Este foi o resultado do estudo realizado por pesquisadores da Universidade Livre de Berlim, em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade de Brasília.

Dados colhidos na pesquisa, revelam que 60% das famílias brasileiras apresentam menor poder aquisitivo e sofrem com o desemprego neste período de pandemia. Aliado a esses fatores, grande parte da classe trabalhadora teve redução na renda. Como consequência, os trabalhadores estão recorrendo às opções mais baratas e que podem saciar a fome com maior rapidez, como frituras, refrigerantes e outros alimentos pouco saudáveis.

A análise teve como base os dados de um questionário aplicado a 2.004 brasileiros pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados entre 21 de novembro e 19 de dezembro de 2020. Segundo os pesquisadores, a amostra é representativa da população brasileira.

Carne, frutas e queijos estão no topo da lista de alimentos saudáveis com redução de consumo na pandemia no Brasil. A pesquisa revelou que 44% dos domicílios reduziram o consumo de carne; 40,8% de frutas e 40,4%, de queijos. O estudo mostrou que a queda da consumo com hortaliças e legumes foi de 36,8%. O ovo foi o alimento que sofreu a menor redução, de 17,8%.

Adesão a alimentos rápidos e pouco saudáveis é constatada no Centro de Campinas 

Alexia Vitória, aprendiz de RH, e Tainara Alves, auxiliar de escritório

Com sacolas de hambúrguer, batatas fritas e refrigerante, duas colegas de trabalho seguiam com pressa, esta semana, pelo Largo do Rosário: Alexia Vitória, aprendiz de RH, e Tainara Alves, auxiliar de escritório. Tainara disse que decidiram comprar um lanche porque é mais rápido e fácil para comer na correria do dia a dia. "A gente tem feito isso com mais frequência porque é mais barato. Até em casa, minha família tem feito isso porque, com o sistema de delivery, fica mais fácil. Nós acabamos nos acostumando com isso na pandemia e a alimentação saudável ficou de lado", afirma Tainara.

Rafaela El Hariri da Silva, recepcionista

Rafaela El Hariri da Silva, recepcionista, comprava um salgado e refrigerante em um ponto de venda na calçada da Avenida Francisco Glicério. "Trabalho na região central e, no almoço, procuro por salgados quase todos os dias. Às vezes, trago marmita de casa, mas, na maioria dos dias, compro salgados no almoço porque é mais prático e perco menos tempo", comentou Rafaela.

Vinícius Amaro, que trabalha com vendas em Paulínia e veio para Campinas esta semana para trocar seus óculos

Vinícius Amaro, que trabalha com vendas em Paulínia e veio para Campinas esta semana para trocar seus óculos, decidiu comer um salgado na calçada da Rua Conceição com Avenida Francisco Glicério. "É mais rápido. Tenho que voltar para o serviço e, por isso, procurei um alimento já pronto. Com a pandemia, os restaurantes estão fechados e me acostumei a comer lanches e salgados porque é mais prático", afirmou.

Ione Gomes, auxiliar de limpeza, seguia com sua filha Heloísa, carregando uma sacola de hambúrguer, batata frita e refrigerante no Centro de Campinas

Ione Gomes, auxiliar de limpeza, seguia com sua filha Heloísa, carregando uma sacola de hambúrguer, batata frita e refrigerante no Centro de Campinas. Ela disse que os restaurantes self-service, que são mais baratos, estão fechados. "Faço almoço com menos frequência porque a vida está muito agitada. Compro lanches e salgados em fast-food porque é mais rápido. Os locais de alimentação não permitem mais que a gente consuma no local. Por isso, é mais fácil pedir algo e sair para comer em algum lugar, isoladamente. Além disso, o preço é acessível e é mais tranquilo optar pelo delivery", destaca.

Pesquisa mostra fome em 15% dos lares brasileiros

A pesquisa identificou que a pandemia gerou um quadro mais grave de insegurança alimentar no Brasil. Os resultados indicam que os moradores de 59,4% dos domicílios brasileiros viveram algum nível de insegurança alimentar entre agosto e dezembro de 2020. Ao todo, 15% das famílias foram classificadas na situação de insegurança alimentar grave — quando as pessoas passam fome, incluindo crianças.

A pesquisa descobriu ainda que a insegurança alimentar é mais grave em lares chefiados por mulheres (73,8%); por pessoas de raça ou cor parda (67,8%); e por pessoas de cor preta (66,8%). Relata também que a situação de insegurança alimentar afeta as famílias com crianças de até 4 anos (70,6%); as mais pobres; e aquelas com renda per capita de até R$ 500 (71,4%).As regiões mais afetadas são o Nordeste (73,1%); Norte (67,7%); e nas áreas rurais (75,2%).

Marco Antonio Teixeira, co-autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade Livre de Berlim, alertou para a necessidade de combater a fome com urgência. "Milhões de brasileiros não têm comida na mesa e não sabem se terão comida no futuro. Enfrentar a fome e a pandemia da covid-19 são agora dois desafios urgentes para o Brasil."

Alimentos naturais são o caminho da saúde, afirma nutricionista

Na pandemia, as pessoas devem ficar atentas e buscar o consumo de alimentos naturais, além de aderir à hidratação diária com água. Esta é a receita básica e fundamental para a saúde recomendada pela nutricionista Aline Castaldi Sampaio, doutora em Nutrição Clínica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora do curso de Nutrição da Universidade São Francisco.

"As pessoas estão mais paradas, em casa, incluindo aquelas que trabalham em home-office. Não existe a prática de esportes e queima de gorduras. Os alimentos naturais como frutas, legumes, verduras, arroz, feijão e carnes são as melhores opções", comentou. "Buscar se hidratar com água, várias vezes ao dia, também é fundamental.”

Segundo Aline, a regra de alimentação saudável é a recomendada pelo Ministério da Saúde e está no Guia da População Brasileira. “Quanto mais natural for o alimento, mais rico ele é nutricionalmente e contribui para a alimentação saudável. O alimento natural ajuda a melhorar a imunidade e na prevenção de doenças. A pessoa fica mais disposta, com mais disposição para as tarefas do dia.”

Segundo ela, cozinhar em casa seria o ideal, pois os alimentos congelados são extremamente ricos em sódio e têm quantidade elevada de conservantes e aromatizantes. "Isso traz riscos à saúde e resulta em doenças, incluindo as vasculares, por exemplo", afirma. Outra medida é diminuir o consumo de sal, açúcar e a quantidade de óleos e de industrializados.

Aline explica que é reomendável comer sem pressa e com calma, desfrutando o alimento em um ambiente tranquilo, longe do celular, computador e da agitação."

A pessoa deve evitar comer petiscos entre as refeições. "A ansiedade tomou conta de muitas pessoas nesta pandemia, mas devemos evitar os salgadinhos, frituras e docinhos", disse.

Os aplicativos em celulares sugerem a compra de alimentos em fast-food. "Eles oferecem comida com rapidez, porém, na maioria, são alimentos processados.”

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Gilson Rei/ Correio Popular