Publicado 24 de Abril de 2021 - 18h20

Por Mariana Camba/ Correio Popular

O assistente bibliotecário Edson Galdino considera a tecnologia um estímulo à autonomia

Diogo Zacarias/ Correio Popular

O assistente bibliotecário Edson Galdino considera a tecnologia um estímulo à autonomia

Um sistema sonoro que deve auxiliar os deficientes visuais na travessia das ruas foi implantado esta semana em dez semáforos instalados em cruzamentos da Avenida Francisco Glicério, no Centro de Campinas. O sistema funciona se o deficiente visual estiver com um controle de acesso. Quando o dispositivo for acionado, a pessoa vai escutar a mensagem: "Travessia solicitada, aguarde". Na sequência, é emitido um sinal sonoro, que indica o início da travessia. O alerta se intensifica conforme o tempo de travessia se esgota. Três deficientes visuais receberam os controles durante a cerimônia de inauguração da tecnologia. O investimento total foi em torno de R$ 60 mil.

Na primeira fase do projeto, a Secretaria Municipal de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos indicará 50 deficientes visuais para receberem o controle de acesso, que se assemelha ao controle remoto de um veículo. Todos deverão apresentar 100% de perda visual, utilizar com regularidade o transporte público e circular na região impactada, de acordo com a Prefeitura. Quando essa primeira fase de experiência chegar ao fim, os usuários selecionados deverão informar a eficácia e utilidade da tecnologia. Os possíveis problemas que forem detectados servirão para o aprimoramento da tecnologia.

O presidente do Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência (CMPD), Benedito Pazinatti, que é deficiente visual, foi um dos três primeiros que receberam o controle de acesso. Ele aprovou a tecnologia e afirmou que o sistema deve melhorar o dia a dia dos deficientes visuais que passam pelo Centro. A expectativa de Pazinatti é que o projeto seja aprovado e expandido para todo o município. Ao analisar os parâmetros da acessibilidade em Campinas, o presidente do Conselho lembrou que mais melhorias devem ser analisadas pelos órgãos públicos e pela sociedade de modo geral.

"Os principais problemas estruturais no município para o deficiente visual são a falta de piso tátil e as calçadas com buracos e desnível. A questão comportamental vai além. Falta atenção por parte das pessoas, que não se colocam no lugar do outro", afirmou Pazinatti. O assistente bibliotecário Edson Galdino considera importante a adoção de recursos que ampliem a autonomia do deficiente visual. "Essa tecnologia é especialmente válida em pontos como o Centro, que tem um grande fluxo de veículo. Nós, deficientes, nos sentimos mais seguros".

Para a assistente social e coordenadora do Centro Cultural Louis Braille, Raquel Pereira de Souza, a iniciativa do município é positiva, mas é uma em meio a tantas outras que ainda precisam ser pensadas e propostas. "Nós idealizamos a inclusão da pessoa com deficiência, seja ela qual for. Elas precisam ser enxergadas como ser humano e não limitadas às suas diferenças", considerou Raquel. A condição das calçadas da cidade é um problema sério, no entender da assistente social. Os moradores "fazem o querem", e a Prefeitura não se posiciona perante essas ações, acrescentou a coordenadora.

Raquel informou que, no ano passado, uma deficiente visual caiu ao passar por uma calçada com desnível. Ela teve o rompimento do ligamento do tornozelo e ficou com sequelas. "O município não vai arcar com esse prejuízo. Presenciamos injustiças todos os dias. Não há equidade perante o deficiente visual, que com certeza enfrenta mais obstáculos que os demais. Falta estrutura e planejamento para atender essa parte da população, através de políticas públicas que busquem a acessibilidade. As pessoas precisam olhar o próximo de forma mais humana e comunitária. É isso que esperamos do poder público também", enfatizou Raquel.

Falta empatia

Para a deficiente visual Edileusa Andrade Vasconcelos, de 40 anos, Campinas apresenta deficiências estruturais no aspecto da acessibilidade desde a década de 90, quando ela chegou à cidade. "Hoje, o município está horrível. As calçadas são o maior ponto falho da Administração. Mesmo expondo o problema, as pessoas não entendem a dificuldade. Outra questão é a falta de conscientização da população sobre o uso do piso tátil. Muitos ficam sobre a demarcação que serve de guia aos cegos, o que gera dificuldade para a locomoção nas ruas".

O marido de Edileusa, Geraldo Júnior, 40 anos, que também é deficiente visual, percebe melhorias no município, mas ressalta que a falta de atenção por parte sociedade e do poder público faz com que os menores problemas se tornem grandes barreiras. "A cultura popular não ajuda. Falta fiscalização por parte da Prefeitura para checar se o que foi feito pelo município como garantia da acessibilidade, está sendo cumprido. Não adianta ter o recurso e não ter como usarmos. O semáforo ajuda, mas é uma ação de melhoria. Outras precisam ser feitas", concluiu Júnior.

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Mariana Camba/ Correio Popular