Publicado 23 de Abril de 2021 - 12h15

Por Raquel Valli/ Correio

O médico Bruno Geloneze, da Unicamp: alerta aos diabéticos

Diogo Zacarias/ Correio Popular

O médico Bruno Geloneze, da Unicamp: alerta aos diabéticos

Especialistas de vários países se juntaram para estudar as consequências da covid-19 em pacientes com doenças metabólicas. O estudo mostra como a pandemia afetou de maneira negativa os diabéticos. Isso ocorreu devido às mudanças de comportamento deste grupo, pela diminuição no uso de remédios para controle dessas doenças, e por causa da dificuldade de acesso aos hospitais e centros de saúde neste momento de crise. Bruno Geloneze, membro do Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades (Cepid OCRC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) participou da pesquisa, que foi publicada na revista Nature Metabolism.

De acordo com Geloneze, no início da pandemia foram divulgados estudos que alertavam sobre as doenças crônicas como o diabetes, diante da covid-19. Os diabéticos foram apontados como um dos grupos mais propensos a desenvolver complicações do novo coronavírus, porque o SARS-CoV-2 se utiliza de duas enzimas como porta de entrada das células. "Essas mesmas enzimas são alvos terapêuticos de remédios para pressão e diabetes. Durante certo período, quando os medicamentos fossem utilizados, os diabéticos poderiam correr o risco de ter a forma mais grave da doença", explicou.

Por causa dessa constatação, os diabéticos e hipertensos deixaram de tomar os remédios que faziam uso para controle destas doenças, segundo o pesquisador. Eles tinham receio de que os medicamentos provocassem a piora do quadro clínico, caso fossem infectados pelo novo coronavírus. Isso contribuiu para que o diabetes ficasse mal controlado.

O pesquisador lembra que surgiram dúvidas em relação aos tratamentos efetivos do novo coronavírus. Cloroquina e Ivermectina possuem provas científicas de que não funcionam. Com relação à Cortisona, em quadros de inflamação pulmonar grave ela é usada para diminuir a pneumonia e os riscos de mortalidade. "O grande problema nesse caso, é que a Cortisona aumenta muito a produção de glicose. Então, durante a internação de pacientes que tinham tendência a desenvolver o diabetes, eles acabaram se tornando diabéticos devido ao uso do medicamento", esclareceu.

Ainda assim, o pesquisador reforça que a Cortisona é um "mal necessário" em casos graves, em que há risco de vida. O erro ocorreu com o uso da droga em casos leves. Muitas pessoas que não precisavam ser internadas, por não terem complicações da covid-19, tomaram coquetéis de remédios incluindo a Cortisona, apesar do medicamento ser indicado apenas em casos de infecção severa. "A Cortisona passou a ser usada de forma não recomendada. Isso trouxe problemas para os diabéticos", enfatizou.

Este cenário fez com que fossem registradas as complicações agudas e crônicas do diabetes. A complicação aguda ocorre instantaneamente e pode surgir com a interrupção do tratamento, aliada ao uso de Cortisona. Ela pode levar ao coma hiperosmolar, quando a glicose atinge seu pico. "As pessoas têm a ideia de que é algo passageiro, que a glicose sobe por um tempo e depois volta ao normal, mas muito provavelmente isso não vai acontecer. Esse seria o problema crônico, a permanência dessa alteração do quadro de saúde", explicou.

Quando a pandemia acabar, de acordo com Geloneze, vão aparecer ainda mais complicações crônicas como reflexo dessa falta de controle do diabetes. Se o diabético passar certo período sendo pouco ou não atendido pelos médicos, ele vai apresentar mais casos de complicações no futuro, como a alteração da circulação nos pés e pernas. Isso promove a perda da sensibilidade nas regiões periféricas do corpo, o que contribui para o aparecimento de lesões. "Esses casos evoluem para o chamado pé diabético. Em que o machucado pode se tornar uma ferida aberta", contou. Em conversa com representantes da Alemanha e Estados Unidos, Geloneze afirma que eles estão assustados com o aumento dos novos casos de pés diabéticos. Como reflexo, houve um crescimento de 300% no número de amputações dos membros inferiores nesses países.

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Raquel Valli/ Correio