Publicado 21 de Abril de 2021 - 17h27

Por Gilson Rei/ Correio Popular

Aline Luana Siriaco de Freitas e seu marido, Alecssandro Siriaco de Freitas Assunção, no barraco de madeira onde moram na comunidade Nova Paraisópolis, no Campo Grande: esperança de dias um pouco melhores

Ricardo Lima/ Correio Popular

Aline Luana Siriaco de Freitas e seu marido, Alecssandro Siriaco de Freitas Assunção, no barraco de madeira onde moram na comunidade Nova Paraisópolis, no Campo Grande: esperança de dias um pouco melhores

Com a meta de auxiliar as 27 milhões de pessoas que passam fome no País, o setor supermercadista lançou ontem a campanha Doação Super Essencial para arrecadar recursos em toda a rede de supermercados no Brasil e buscar doações de empresas, instituições, fornecedores e voluntários pessoa física em geral. As doações em dinheiro feitas por supermercados e pela sociedade serão revertidas em cartões no valor de R$ 100 para a população vulnerável cadastrada nos municípios. Essas pessoas poderão fazer compras com os cartões em todos os supermercados do País.

A iniciativa é da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), envolvendo as 27 afiliadas em território nacional. Uma ação inicial de doação e de atração de doadores já foi organizada pela Associação Paulista de Supermercados (APAS). A campanha terá o apoio da ONG Ação Cidadania, fundada há 28 anos pelo sociólogo Betinho (Herbert de Souza).

Participam também da campanha o Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos (WFP) da Organização das Nações Unidas (ONU), e a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), ambas com o papel de atrair a participação de vários setores nas doações. Os interessados em doar devem acessar o site: www.doacaosuperessencial.com.br ou ligar para 0800 444 4444.

É mais um movimento que une organizações sociais, empresas e iniciativas voluntárias, somando forças para garantir comida aos brasileiros vulneráveis. A mobilização deverá ajudar a combater o colapso alimentar que se instala neste momento de crise sanitária e econômica.

João Galassi, presidente da ABRAS, destacou que a ação solidária é fundamental no momento em que uma parcela considerável da população brasileira não tem acesso pleno e permanente a alimentos e itens de primeira necessidade por conta da crise financeira agravada pela pandemia do coronavírus. "Todos os setores da sociedade precisam estar unidos para socorrer as famílias que foram atingidas pela pandemia. A adesão de empresas de todo o país à campanha é uma forma prática de ajudar efetivamente a aplacar a fome que assola milhões de lares brasileiros", afirmou.

Segundo Galassi, a iniciativa é inédita porque une supermercados, empresas e pessoas físicas de todo o Brasil, em um movimento confiável, com a participação da ONG Ação da Cidadania, referendada pela ONU. "A campanha reforça o legado de compaixão e solidariedade no combate à fome, causa sempre defendida pelo setor supermercadista em diversas campanhas, como ocorre sempre nas campanhas do agasalho e outras. É importante porque as pessoas sabem que as doações vão chegar ao destino correto", disse.

Rodrigo Afonso, diretor executivo da ONG Ação da Cidadania, destacou que uma pesquisa realizada pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Pensan) mostrou que 116 milhões de brasileiros lidam com a fome em algum grau, desde falta de calorias até insuficiência nutricional.

"Com todos os estados apresentando índices de insegurança alimentar grave, superiores a 5%, nenhuma região brasileira estaria fora do Mapa da Fome da ONU hoje. Estamos alertando que o Brasil voltou ao Mapa desde 2016", afirmou.

Vale destacar que o número de cidadãos que vivem no Brasil abaixo da linha da pobreza triplicou em três anos, e atinge cerca de 27 milhões de pessoas, 12,8% da população brasileira. A nova pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FVG), divulgada dia 8 de abril passado, mostra que com o novo auxílio emergencial mais de 40% dos trabalhadores não conseguirão ter suas perdas de renda compensadas após o tempo de interrupção.

Considerando o repasse do valor de R$ 150, a estimativa é que a perda de renda será de 2% para os homens e de 4% para as mulheres, agravando ainda mais a situação da fome. O estudo ainda revela que trabalhadores de todos os estados sofrerão com perdas de renda ainda que a família esteja apta a receber a parcela de R$ 250.

De acordo com Rodrigo Kiko Afonso, CEO da Ação da Cidadania, o prolongamento da pandemia vem trazendo inúmeros prejuízos à sociedade brasileira, entre eles, desemprego e empobrecimento da população. "A crise sanitária, aliada à suspensão do auxílio emergencial por um grande intervalo de tempo, tem feito com que cada vez mais pessoas em condições de vulnerabilidade recorram às filas de distribuição de alimentos das ONGs. Porém, muitas dessas entidades temem uma queda contínua nas arrecadações, enquanto as demandas de famílias de baixa renda só crescem", comentou.

Cartões

A distribuição dos cartões para a população se dará de duas formas. Pode ser feita pela própria empresa que fez a doação e quer ajudar alguma comunidade específica, seguindo os critérios de elegibilidade dos programas sociais de estados e municípios. Caso a empresa não queira se responsabilizar pela distribuição, os cartões são entregues pela APAS e ABRAS para programas sociais de governos de estado e prefeituras, que encaminharão a doação aos mais vulneráveis das comunidades carentes mapeadas por seus programas sociais.

As doações abaixo de R$ 5 mil serão todas direcionadas para ONG Ação Cidadania, braço de distribuição de alimentos das agências da ONU no Brasil. Os comitês da ONG existentes em todo território nacional vão transformar os valores doados em cestas básicas e distribuir paras as ONGs credenciadas em cada região.

O cartão não é recarregável, mas pode ser usado várias vezes em supermercados diferentes, até que todo o valor de R$ 100 seja gasto, excluindo-se a compra apenas de bebidas alcoólicas.

A produção dos cartões e o envio serão feitos pelas bandeiras Alelo, Ticket e Sodexo, conforme acordado com a Associação Brasileira das Empresas de Benefícios ao Trabalhador (ABBT). As operadoras prestarão assistência aos usuários no esclarecimento de dúvidas sobre o saldo e extrato através de telefone impresso no verso dos cartões.

Todo o processo terá auditoria independente e o nome da empresa doadora será impresso no lote de cartões doados, sinalizando a autoria da doação. "Empresas doadoras estarão fortalecendo suas marcas já que neste momento de pandemia os consumidores estão ainda mais atentos aos valores solidários das empresas. Além disso, é mais prático participar de uma campanha já estruturada. Isso facilita a vida de quem quer ajudar, mas não sabe como", comentou Ronaldo dos Santos, presidente da APAS.

Pobreza atinge um terço da população da cidade

Aproximadamente 400 mil pessoas vivem atualmente em situação de vulnerabilidade social em Campinas, segundo estimativas do Diagnóstico Socioterritorial de Campinas feito pela Fundação das Entidades Assistenciais de Campinas (Feac). Isto representa um pouco mais de um terço da população, estimada em 1,1 milhão de habitantes.

O estudo da Feac constatou que, além de algumas pequenas "ilhas" de áreas vulneráveis em pontos centrais da cidade, a grande maioria da população pobre está situada nas áreas periféricas. Além disso, são estimados os números de pessoas nesta situação, assim como o percentual de cada faixa etária.

Em 2010, cerca de 20,4% da população da cidade, ou 220.499 pessoas, já se encontravam em situação de vulnerabilidade social, dez anos antes da pandemia por covid-19 chegar ao mundo.

Preocupantes são os dados relacionados às populações jovens. Pode-se observar que dentre a população de 0 a 14 anos, os percentuais que indicam a população vulnerável oscilavam entre 27,8% e 28,5%, ou seja, mais de um quarto de todos os jovens na cidade nesta faixa etária, está em situação de vulnerabilidade, caracterizando um grande desafio para a assistência social.

Considerando que os dados utilizados são prévios à crise econômica que o País enfrentou na primeira metade desta década e que ocorreu antes da pandemia, estima-se que a situação agravou-se com o aumento dos índices de desemprego e houve uma forte queda na renda per capita.

É a situação constatada na comunidade Nova Paraisópolis, região do Campo Grande, onde aproximadamente 50 famílias vivem em barracos, próximo ao Jardim Satélite Íris. Aline Luana Siriaco de Freitras, de 32 anos, e seu marido Alecssandro Siriaco de Freitas Assunção, de 28 anos, vivem em um barraco com três filhos: Kalebe, de 1 ano; Matheus, 8 anos e Thiago, 12 anos.

Alecssandro disse que o cartão lançado ontem para consumo em supermercados vem em bom momento. "Vivo de bicos em pintura e em obras como pintor e pedreiro, mas está muito complicado. O desemprego é grande e as empresas estão fechando", comentou.

Aline explicou que o alimento dentro de casa vem destes serviços temporários do marido e da ajuda de pessoas da comunidade. "Todos se unem aqui e um ajuda o outro para ninguém passar fome", comentou.

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