Publicado 20 de Abril de 2021 - 13h27

Por AFP

Uma onda de calor atinge Nova Delhi, enquanto Mohamed Shamim, coveiro, faz uma pausa e observa, com ar abatido, uma ambulância chegar carregando o corpo de mais uma vítima da covid-19.

A carga de trabalho dos coveiros aumentou dramaticamente nas últimas semanas na Índia, onde a população de 1,3 bilhão de pessoas é afetada por uma segunda onda epidêmica de coronavírus.

O cemitério Jadid Qabristan Ahle, na capital indiana, confinada desde segunda-feira à noite por uma semana, recebeu onze mortos em três horas, apurou a AFP no terreno.

Ao pôr do sol, 20 mortos haviam sido enterrados. Mohamed Shamim, um coveiro de 38 anos, lembra de alguns dias em dezembro e janeiro, durante os quais sua escavadeira não trabalhava. "Nesse ritmo, em três ou quatro dias não haverá mais espaço", afirma.

Ao redor do cemitério, trabalhadores em trajes de proteção, manejam cadáveres em sacos brancos ou caixões de madeira barata.

Pequenos grupos de homens, alguns com kufis (gorros islâmicos), olham solenemente para o chão enquanto o imã faz as últimas orações sob o tumulto da tempestade que chega, misturando poeira e chuva.

Oficialmente, cerca de 180.000 indianos morreram de covid-19, dos quais 15.000 apenas no mês de abril. Mas alguns consideram que o número real pode ser muito maior.

As redes sociais e os artigos da imprensa foram inundados com imagens de fogueiras acesas e crematórios incapazes de lidar com a situação.

Em Ghaziabad, perto de Nova Delhi, os canais de televisão transmitiram imagens de corpos envoltos em mortalhas e alinhados no chão, aguardando a cremação.

No estado de Gujarat, muitos crematórios funcionam 24 horas por dia. Em Ahmedabad, a chaminé de um deles desabou após duas semanas operando 20 horas por dia e em Surat a estrutura de ferro de outro crematório derreteu parcialmente devido ao excesso de calor.

Em Lucknow, no norte, a espera às vezes é tão longa que uma família começou a queimar um corpo em um parque adjacente a um dos crematórios, informou uma autoridade à AFP.

Alguns crematórios em Lucknow, enfrentando escassez de lenha, tiveram que pedir às famílias que trouxessem seu próprio combustível.

Varanasi é o local tradicional onde os hindus são cremados desde tempos imemoriais, às margens do rio Ganges.

Belbhadra, que trabalha em um dos aterros de incineração às margens do rio, disse à AFP que estavam cremando pelo menos 200 vítimas suspeitas de coronavírus por dia.

O tempo normal para chegar ao aterro da estrada principal através de pistas estreitas costumava ser de três ou quatro minutos, mas "agora leva cerca de 20 minutos. As pistas estão cheias de pessoas esperando para incinerar os mortos", disse um morador.

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