Publicado 02 de Março de 2021 - 5h30

E assim, no ócio a que certas tardes d’estio nos lança, mesmo sem nunca ter tentado nada parecido, sentei no computador e cometi um conto de ficção científica. Fugindo um pouco à linha tradicional de tal tipo de, digamos assim, exercício literário, ambientei a história aqui mesmo em Campinas.

Ao tamborilar o ponto final, reli tudo. O que me fez cair em séria dúvida: seria aquilo, mesmo, um conto de ficção científica? Após alguma vacilação acabei concluindo pelo sim, uma vez que a ação se passa em 2030, quando faltarão apenas 70 anos, o que é um suspiro, para nova virada de século.

O título da “short story”, confesso, talvez não seja exatamente sugestivo. Chamei-o de A Rubiácea, e narra período de 24 horas na vida de um sujeito especialista na programação de computadores. Que, ao caminhar pela Rua Francisco Glicério em busca de lugar para sorver um suco, se vê envolvido numa diabólica trama em que o próprio notebook que costumava manipular se torna cúmplice de um complô. Aliado ao celular.

Pois muito bem: pronta a, vá lá que seja, obra, novamente li e reli várias vezes. Súbito, ao contrário do que ocorre sempre, senti vontade de mostra-la a alguém, mas alguém que, realmente, entendesse do riscado. E tive sorte, na realidade tive grande sorte. Pois, horas depois, na saída de um banco, praticamente tropecei nos pés do escritor, membro da Academia Campinense de Letras, Carlos Alberto Marchi de Queiroz, autor do ótimo Quem Matou a Mãe de Carlos Gomes. De quem fiquei sabendo, nos papos do Café Cultural, Filosófico e Transcendental que se reúne todo sábado de manhã na lanchonete do Pão de Açúcar Cambuí, que é um devorador de obras de ficção científica. Desde que viu, numa clara a fresca noite de Primavera, um OVNI a sobrevoar os Andes Peruanos, nas proximidades de Machu Pichu, quando era noivo da sua hoje esposa, que nasceu lá perto.

- Que maravilha encontra-lo – abri os braços ao ver Queiroz.

Antes que o famoso homem de letras esboçasse qualquer reação, instalo a mão direita em volta dos ombros dele.

- Escuta – suspiro – queria te mostrar um troço.

- Tudo bem – ele me olha, querendo captar algo no ar.

Imediatamente retiro de dentro da pasta que carrego sempre as folhas que mandara imprimir.

- Escrevi um conto – baixo os olhos, humílimo – e queria que você, que é um craque, lesse.

- Bom – o amigo contém o embaraço – mas agora? Com tanta gente passando?

- Não – atalho -- leve pra casa.

- OK – ele dobra e guarda – pode deixar.

- Você vai ler mesmo? – Quis ter certeza, pois sei que o escritor, também advogado criminalista, é uma pessoa ocupadíssima.

- Claro – ele parecia impaciente – pode deixar.

De vez em quando sou obrigado a acreditar na verdade shakespeariana que há, de fato, mais coisas, entre o céu e a terra, do que nossa vã filosofia pode explicar. Pois a partir daquele instante, daquele mágico encontro com o escritor, mesmo sendo eu um sujeito relativamente calmo, passei a curtir nítida inquietação. Em consequência, à noite dormi mal, acordei pior e, em mais de uma oportunidade tive que conter ânsia de ligar para a cinematográfica mansão do amigo.

No terceiro dia não aguentei mais e acabei cercando o cara na porta de uma livraria que ele costuma frequentar. Assim que o avisto, dou o bote:

- E então?

- Ah, o seu conto... – Queiroz suspira, distante.

- É – esfrego as mãos, úmidas de nervoso.

- Já li!

Diante da resposta altamente sucinta, ajeito os óculos, ao observar:

- Pelo jeito você deve ter dado algo parecido com nota zero.

- Bom – o escritor busca conter o embaraço - não é bem assim...

Indeciso, mira o chão, volta os olhos para o alto, pigarreia; até que consegue soltar, após suspiro que teve duração de uma quase sinfonia:

- Pra te dizer a verdade, o conto até que não é de todo ruim. Só que não senti o clima de 2030.

- Não mesmo? – Contenho um recuo.

- Quer dizer, não senti o clima no contexto geral da história. Mas no finalzinho você acertou em cheio. Refiro-me ao instante em que o personagem entra no Café Regina e, ao pagar a xicrinha do moka que pedira com cinco notas de 100 reais a moça do caixa fala que ainda estavam faltando mais cinco.

Como eu não dissesse nada, o acadêmico imortal conclui:

- Você, realmente, em ficção científica jamais chegará aos pés de Ray Bradbury. Porém nunca vi previsão tão aterradora de como andará nossa inflação em 2030...